“A PEDIATRA”
ou
(UM DRAMA QUE FAZ RIR, PARA
NÃO CHORAR.)
Está em cartaz, no Teatro FIRJAN SESI Centro, com a temporada prorrogada até o dia 31 de maio (2026), devido ao enorme sucesso, a peça “A PEDIATRA, sobre a qual o mínimo que se pode dizer é que se trata de um espetáculo instigante e muitíssimo interessante. “A PEDIATRA” chega ao Rio de Janeiro depois de um enorme sucesso alcançado em São Paulo. O texto é da premiada escritora ANDRÉA DEL FUEGO, com adaptação e direção de INEZ VIANA, trazendo, como protagonista, DEBORA LAMM, muito bem coadjuvada por LUIS ANTONIO FORTES.
SINOPSE:
A trama acompanha Cecília (DEBORA LAMM), uma médica
pediatra que, paradoxalmente, odeia crianças e suas mães e, a partir de uma
prática clínica aparentemente ética e racional, passa a se envolver em uma
série de decisões que tensionam, de forma radical, os limites entre cuidado,
controle e violência, incluindo um romance adúltero com Celso (LUIS
ANTONIO FORTES).
A obra constrói um relato perturbador, no qual a frieza do discurso
científico contrasta com a brutalidade dos atos descritos.
Esta é uma admirável adaptação, para o
palco, do romance homônimo que
consagrou ANDRÉA DEL FUEGO, vencedora do cobiçado “Prêmio José
Saramago”, idealizada por INEZ VIANA e LUIS ANTONIO FORTES.
O livro, publicado em 2021, já foi traduzido para sete idiomas e
foi considerado “uma das melhores leituras de 2022” pelos
críticos literários.
DEBORA LAMM interpreta uma pediatra que, paradoxalmente, odeia
crianças e suas mães, assim como seria absurdo um jardineiro detestar plantas,
um escritor abominar livros e um professor execrar alunos. Descrita como
uma “vilã de humor vil”, ela é uma mulher privilegiada, classista
e amoral, cuja má conduta profissional e falta de empatia a levam a conflitos
éticos e humanitários.
Considero DEBORA uma das
melhores atrizes de sua geração, o que ratifica a autora do livro
que deu origem à peça: “Uma personagem como a Cecília encontrar uma atriz
como DEBORA LAMM, é como um astronauta que, finalmente, encontra o planeta do
seu destino. É raro. A personagem foi escrita para uma atriz como DEBORA LAMM,
que pilota os polos humanos na mesma intensidade.” Realmente, fica
difícil imaginar outra atriz no papel.
Cecília, que estudou medicina contra a sua vontade, para
agradar ao pai, é uma mulher “privilegiada, classista, cheia de
preconceitos”. Ela “não percebe que sua má conduta se volta
contra si e, obviamente, contra todas as pessoas à sua volta, perdendo uma
oportunidade de praticar a medicina de forma mais humanizada”. Os
trechos em negrito são ditos pela diretora, INEZ VIANA.
Fazendo um contraponto com a
protagonista, temos um Celso muito bem composto por LUIS ANTONIO
FORTES. O personagem é um homem de caráter duvidoso e amante de Cecília, a
pediatra neonatologista, que fez o parto de seu filho, Bruninho, uma
criança por quem ela se vê encantada, assim como Celso também se encanta por
Cecília.
Embora o humor ácido e absurdo
dos diálogos, por parte da protagonista, empane um pouco, disfarce, o que vai
nas entrelinhas, a obra constrói um relato perturbador e desumano. Isso ocorre
porque a protagonista é uma mulher instruída, bem-sucedida e, socialmente,
integrada, mas cuja relação com crianças, mães e corpos infantis revela um
desejo profundo de poder e manipulação. Ao se apropriar do vocabulário médico e
da autoridade institucional da medicina, Cecília legitima ações
que desafiam qualquer noção humanista de cuidado.
O texto trata de temas como
maternidade compulsória, biopolítica, misoginia e abuso de poder. A autora
constrói essa personagem sem recorrer a explicações psicológicas fáceis ou a
julgamentos morais explícitos, o que intensifica o desconforto do espectador,
constantemente colocado diante de um dilema ético sem mediações. A plateia ri
de nervoso, a maioria das vezes, sem poder ter outra reação, bastante
justificável, inclusive.
INEZ VIANA conduz a trama com maestria, colocando em
embalagem para presente
elementos que revelam a essência de nossos
tempos, abordando as relações de poder, os preconceitos entre classes e
culturas, a escolha de uma profissão sem paixão, o papel da mulher na sociedade
e as cobranças envolvendo a maternidade. Dessa forma, o espetáculo envolve o
público de maneira cúmplice, em
que Cecília contará sua história, o que a ajudará a entender seus
conflitos e anseios. A montagem
ainda promove debates sobre papéis sociais e temas urgentes, como aborto e
ética profissional. O público deixa o Teatro com esses
questionamentos, após um final surpreendente.
Estrutural
e tecnicamente, a peça pode ser considerada uma montagem simples, com cenografia
(AURORA DOS CAMPOS), figurinos (CARLA COSTA) e iluminação
(ANA LUZIA MOLINARI DE SIMONI) bem econômicos, porém bastante apropriados
à moderna proposta de direção.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Andréa Del Fuego
Adaptação Dramatúrgica e Direção Artística: Inez Viana
Assistência de Direção: Lux Nègre
Elenco: Debora Lamm e Luis Antonio Fortes
Cenário: Aurora dos Campos
Figurino: Carla Costa
Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni
Direção Musical: Navalha Carrera
Colaboração Artística: Denise Stutz
Direção de Produção: Bem Medeiros e Luis Antonio Fortes
Produção Executiva: Matheus Ribeiro
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Fotografia: Rodrigo Menezes
“Design”: Laryssa Ramos
Idealização: Inez Viana e Luis Antonio Fortes
Produção: Fortes Produções, Eu + Ela e Suma Produções
SERVIÇO:
Temporada: De
01 a 31 de maio de 2026.
Local: Teatro Firjan SESI Centro.
Endereço: Avenida Graça Aranha, nº 1 - Centro, Rio de Janeiro (Próximo ao Metrô Cinelândia).
Dias
e Horários: 5ª e 6ª feira, às 19h; sábado e domingo às 17h, com sessão dupla no
dia 23 de maio às 15h e 17h.
Valor
dos Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada).
Vendas Antecipadas: https://bileto.sympla.com.br/event/118884/d/377495
Classificação
Etária: 12 anos.
Duração: 60 minutos.
Gênero: Drama Cômico.
Ainda que, oficialmente, o espetáculo
seja classificado como um “drama”, arrisco-me a dizer que se
trata de um “drama cômico”, em função do forte tom de COMÉDIA ácida e humor mordaz,
explorando, ao extremo, as ambiguidades da protagonista. RECOMENDO BASTANTE A PEÇA!
FOTOS: RODRIGO MENEZES
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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