“QUERIDA MAMÃE”
ou
(SENSÍVEL E CONTUNDENTE ACERTO DE CONTAS.)
Gosto muito de assistir a peças que já
foram montadas anteriormente, às quais eu já tenha assistido. Não para estabelecer
comparações, mas para perceber se as mensagens e intenções dos autores ainda
estão frescas, se ganharam mais pertinência, com relação ao momento atual, ou
se já não representam muito para o espectador de hoje. Uma das vezes em que
isso aconteceu foi recentemente, quando assisti, no Teatro dos 4,
Rio de Janeiro (VER SERVIÇO.), a um excelente espetáculo, que vai
aqui comentado: “QUERIDA MAMÃE”, com texto de MARIA ADELAIDE
AMARAL, belamente interpretado por NÍVEA MARIA e REGIANE
ALVES, sob a direção de PEDRO NESCHLING.
Maria Adelaide Amaral (Fonte: desconhecida.)
Pedro Neschling (Foto: Facebook.)
Na verdade, tive a primazia de ter assistido a duas montagens desse primoroso texto, antes. A primeira vez se deu em 1994, quando as duas personagens da peça foram interpretadas por Eva Wilma e Eliane Giardini, mãe e filha, respectivamente. A segunda foi quase duas décadas depois, em 2014, quando Ruth, a mãe, foi vivida por Stella Freitas, enquanto a filha, Helô, coube a Cássia Linhares. Assim como a atual montagem, as duas anteriores foram formidáveis, e todas as seis atrizes se saíram muito bem, ao vivenciar a relação extremamente conflituosa entre uma mãe conservadora e sua filha insegura.
SINOPSE:
Em
“QUERIDA MAMÃE”, Ruth (NÍVEA MARIA), mãe e dona de
casa, e Helô (REGIANE ALVES), filha médica, se veem diante
de um reencontro, atravessado por memórias, mágoas e afeto.
Entre
conflitos do presente e marcas deixadas pelo passado, mãe e filha expõem suas
diferenças, fragilidades e tentativas de reconexão, em uma história, sensível e
profunda, sobre os laços familiares, os silêncios que afastam e o amor que
insiste em permanecer.
Desde o primeiro contato com o texto,
já por ele me apaixonei. Gosto de ver o choque de ideias, tão natural, na vida
real, longe das teclas, das telas e dos algoritmos, entre uma mãe, que nutre ideias um tanto antiquadas a respeito do
mundo, defendidas não sem certa intransigência, e uma filha, que tem um caráter
meio autodestrutivo, o qual a impede de se realizar plenamente na vida. A
relação entre ambas é de embate, com um desfecho surpreendente, após uma revelação
da mãe. Com o desenrolar do texto, percebemos que as duas são lados opostos da
mesma moeda e têm mais em comum do que gostariam de admitir. É justamente nos
momentos em que a virulência abre espaço para as afinidades entre mãe e filha,
que o texto cresce, possibilitando até rasgos de humor leve e agradável.
Não vejo a atual montagem como melhor ou pior que as duas anteriores; as três se equivalem em alta qualidade, contudo sinto que o texto da produção em tela, com adaptações atualíssimas, por parte da autora, faz dela muito mais atemporal do que já era antes; e universal também.
Como,
muito acertadamente, diz o “release” da peça, a mim enviado por MÁRIO
CAMELO (assessoria de imprensa), “Há relações que se constroem
no amor, mas também nas ausências, nos desencontros e nas palavras que nunca
foram ditas.”. É exatamente assim que conviveram e convivem mãe e
filha, as quais, em suas contendas, não apontam, diretamente, o dedo, uma para
outra, mas o fazem de forma sutil, o que pode causar mágoas maiores, em uma e
outra, mas que são cacos que podem ser colados. E o são, por parte de ambas.
“Em cena, o
conflito ganha forma no encontro entre duas mulheres atravessadas por
diferenças profundas: de um lado, uma mãe marcada por valores conservadores e
pela dureza da vida; de outro, uma filha que busca existir com mais liberdade,
inclusive em sua maneira de amar.” (Extraído do já citado “release”.)
“Em “QUERIDA MAMÃE”, MARIA ADELAIDE AMARAL transforma a intimidade entre mãe e filha em matéria dramática de alta voltagem emocional, revelando, com delicadeza e contundência, as contradições de um vínculo forte e capaz de acolher e ferir na mesma medida.” (Idem.). Isso, a dramaturga o faz com uma profunda dose de sensibilidade, comprimindo os dedos sobre as feridas ainda abertas entre ambas, de uma forma sensibilíssima e na proporção exata, sem cair no pieguice, que poderia jogar abaixo toda a montagem. MARIA ADELAIDE é uma sábia artesã das palavras, o que é totalmente percebido, e seguido, pelo jovem diretor, PEDRO NESCHLING, em ótimo trabalho, e pela dupla das experientes atrizes, em interpretações irretocáveis.
O texto, já tão premiadíssimo, desde a sua primeira montagem, é inspirado na própria relação da autora com a sua mãe e mergulha, com profundidade, nas camadas do universo feminino, reafirmando uma das suas marcas mais potentes: a criação de mulheres fortes, complexas, contraditórias e profundamente humanas, tão abundantes nas suas obras, para o TEATRO, o cinema e a TV. Talvez o exemplo maior disso seja o seriado televisivo "A Casa das Sete Mulheres", de grande sucesso.
As ações, em dias diferentes,
acontecem no apartamento da mãe, um espaço povoado por lembranças,
ressentimentos e afetos mal resolvidos. Fala o texto, com rara
clareza e sensibilidade, sobre heranças emocionais, incompreensões e tentativas
de reparo.
Ao mesmo tempo que é denso, o texto
também passa sua densidade de uma forma mais leve e racional, muito bem
dirigido por PEDRO NESCHLING, sem grandes parafernálias, o que leva o
público a uma profunda identificação com a história – não só as mulheres,
mas também os homens sensíveis -, tão bem contada, por duas atrizes que
se mostram vivas e totalmente entregues às suas personagens. Ambas merecem os
calorosos aplausos que lhes são dirigidos, ao final da peça, calcada esta no
amor e na sororidade.
A encenação, facilmente, poderia
descambar para o melodrama lacrimoso, o que não permitem a direção
e as intérpretes, mantendo-se as duas, o tempo todo, contidas e
seguras, dosando suas emoções.
Discretos, mas totalmente a
serviço da montagem, cito a cenografia, de BELI ARAÚJO; os
figurinos, de ANTÔNIO ROCHA; o desenho de luz,
de FERNANDA MANTOVANI; e a trilha sonora original, de RODRIGO
MARÇAL, quatro competentes artistas de criação.
FICHA
TÉCNICA:
Texto:
Maria Adelaide Amaral
Direção:
Pedro Neschling
Assistência
de Direção: Isabela Faleiro
Elenco:
Nívea Maria e Regiane Alves
Direção
de Movimento e Coreografia: Toni Rodrigues
Cenografia:
Beli Araújo
Figurino:
Antônio Rocha
Desenho
de Luz: Fernanda Mantovani
Trilha
Sonora Original: Rodrigo Marçal
Assessoria
de Imprensa: Prisma Colab (Mário Camelo)
Fotos:
Leo Aversa
Comunicação
e “Marketing”: Lucas Sancho e Fernando Gouvêa
Mídias
Sociais: Fernanda Piloto
Tráfego
Pago: Rodrigo Gonzaga
SAC:
Carinne Namba
Produção
Executiva: Xandy
Direção
de Produção: Miçairi Guimarães e Sandro Chaim
Realização:
Magic Arts
SERVIÇO:
Temporada:
De 01 a 31 de maio de 2026.
Local:
Teatro dos 4 – Shopping da Gávea.
Endereço:
Rua Marquês de São Vicente, nº 52 – Gávea (2º piso do Shopping da Gávea) – Rio de
Janeiro.
Dias e Horários: 6ª feira
e sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Valor
dos Ingressos: R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia-entrada).
Vendas:
Sympla e Bilheteria do Teatro.
Informações: (21) 2239-1095 / (21) 97309-6234.
Antecipados: https://bileto.sympla.com.br/event/118586/d/375659/s/2506492
Duração:
75 minutos.
Classificação
Indicativa: 12 anos.
Gênero:
Comédia Dramática.
PELO
CONJUNTO DA OBRA, RECOMENDO ESTE ESPETÁCULO!!!
FOTOS: LEO AVERSA
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BRASIL!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI, SEMPRE; E SALVA!
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