“34º
FESTIVAL DE CURITIBA”
“A MÁQUINA”
ou
(É OBRA-PRIMA
QUE SE DIZ?)
(ESTA CRÍTICA TEM COMO BASE A QUE ESCREVI, NO DIA 10 DE DEZEMBRO DE 2025,
QUANDO ASSISTI À PEÇA, EM SÃO PAULO, COM POSSÍVEIS ALTERAÇÕES.
Há 25
anos, na virada do século, uma peça de TEATRO chegou
ao Rio de Janeiro, como um divisor de águas entre um tipo de
espetáculos “comuns”, para o grande público, e uma nova
proposta estética, que logo tomou de assalto os amantes do bom TEATRO e
se tornou o maior sucesso, de público e de crítica, naquele ano 2000.
Falo de “A MÁQUINA”, que apresentou aos cariocas quatro novos e
geniais atores, então desconhecidos da mídia, os quais se tornaram, depois, e
assim se mantêm até hoje, exemplos da maior importância como atores de sua
geração. Eram eles Wagner Moura, Lázaro Ramos, Vladimir
Brichta e Gustavo Falcão. O quarteto dividia o
palco com Karina Falcão. A icônica montagem era dirigida por JOÃO FALCÃO, baseada no
romance homônimo de ADRIANA FALCÃO. A encenação, no palco do
antigo Teatro Casa Grande, antes do incêndio, que deu origem
a uma nova e moderna construção, contava com um notável palco giratório,
simbolizando a “roda da vida”, pesando mais de 600
quilos, “para dar ritmo à narrativa circular, inspirada na
literatura de cordel”.
Passado um quarto de século, esse mesmo texto, das coisas mais
lindas e poéticas do TEATRO brasileiro, do que conheço até hoje, que
não é pouco, volta a ser encenado, novamente adaptado e dirigido por JOÃO
FALCÃO, trazendo, em revezamento, no papel de Antônio, um jovem simples e simplório, apaixonado pela
mocinha sonhadora, Karina, interpretada por AGNES
BRICHTA, quatro fabulosos atores, do Coletivo paulistano “Ocutá”: ALEXANDRE AMMANO, BRUNO
ROCHA, MARCOS OLI, e VITOR BRITTO. AGNES é atriz convidada, que merece os mesmos aplausos que
os quatro atores, por sua vibrante atuação. Que bela presença feminina em cena!
SINOPSE:
O enredo convida
o espectador a imaginar e adentrar a pacata e fictícia cidade de Nordestina,
um lugar comum, sem recursos, como tantas pequenas cidades do interior do Brasil, na qual o jovem Antônio (ALEXANDRE AMMANO, BRUNO
ROCHA, MARCOS OLI e VITOR BRITTO) decide mudar seu destino —
e o do mundo —, para impedir a partida de sua amada Karina (AGNES
BRICHTA).
Em Nordestina,
a esperança de uma vida melhor é quase nula, além da simples vontade de sair de
lá, e muitos habitantes, como tantos nordestinos, buscam novas perspectivas de
vida em outras paragens.
Essa
é a fixação de Karina, telespectadora assídua
de novelas, que, por isso mesmo, deseja ser atriz, como tantas moças que
ela vê nos folhetins da telinha.
Assim,
a jovem sonhadora vive seus dias ensaiando diferentes cenas de amor, treinando
beijos técnicos com Antônio, acreditando que deve estar
preparada para a hora em que aparecer a grande chance de sua vida.
Ela
deseja ganhar o mundo e conseguir desvendar os mistérios da vida, e o rapaz,
para não perder a namorada, resolve “viajar” na “‘sua’
máquina do tempo”, sair de Nordestina, a fim
de conhecer o mundo e trazê-lo ao encontro de Karina.
Dessa
forma, muito dentro do universo cordelista, estamos diante de um mundo fabuloso,
descomprometido com a unidade de tempo.
Nesta montagem, JOÃO FALCÃO lança mão de algo já experimentado, com bastante sucesso, em espetáculos seus anteriores, ou seja, uma abordagem do tempo não cronológico, mas psicológico, amalgamando as três unidades temporais: passado, presente e futuro, uma de suas esplêndidas digitais.
O
espetáculo volta ao cartaz guardando a aura da primeira montagem, porém,
visivelmente, renovada, com muito mais vigor, a meu juízo, e o resultado é
magnífico, forte e emocionante.
Trago, na memória afetiva, a sensação que experimentei, ao deixar o Teatro
Casa Grande, depois de ter assistido a “A MÁQUINA”,
querendo não acreditar no que havia visto, contudo arrisco-me até a receber
críticas pelo que passo a dizer, porém, preso à minha verdade, ouso registrar,
por escrito, que, a despeito do que representou, para mim, a peça, em sua
primeira versão, acho que prefiro esta, talvez porque o tempo amplie a
distância e o meu emocional recente pese mais.
Como no ano 2000,
o quinteto de atores é desconhecido do grande público, o que não tem
a menor importância. Todos são fantásticos. Tenho plena certeza de que,
muito em breve, os cinco estarão na mídia, expondo-se em outros trabalhos
importantes, como este. Um detalhe curioso – apenas isso – é
que, na primeira montagem, o elenco contava com um único ator negro e quatro
brancos. Hoje, dá-se exatamente o contrário. É apenas um detalhe, visto que um
bom profissional, competente, em qualquer setor, independe de sua cor e raça,
porém, do ponto de vista social, isso tem a maior importância. O quinteto se
apresenta no seu maior potencial interpretativo, jogando-se de cabeça em seus
personagens. Resolvi não escrever nada sobre o currículo de cada um do elenco,
mas sugiro uma pesquisa sobre eles. Quem o fizer ficará sabendo muito da
formação de cada um e de seus trabalhos anteriores, dentro do país ou
além-fronteiras.
Não tenho a menor condição de
eleger quem interpreta melhor o personagem Antônio, pois
todos estão nivelados na mesma altura do sarrafo, assim como não posso dedicar
à única atriz da peça um tratamento diferente do que atribuo ao quarteto
masculino. A proposta estética de JOÃO FALCÃO é assaz difícil
de ser posta em prática. O ritmo da encenação é super frenético, o que exige um
esforço físico hercúleo dos cinco. Como parte importantíssima da
encenação, os quatro atores, com o impulso de suas pernas e mãos, ao longo dos 70
minutos de duração da peça, fazem girar uma roda, como a da
primeira montagem, como se fosse a “roda da vida”, em
movimentos frenéticos, que marcam o intenso ritmo do espetáculo, como já dito.
Muita atenção e concentração são
exigidas do elenco, principalmente para atingir o grau de perfeição, em termos
de sincronismo, nos gestos e nas falas. Por muitas vezes, o texto é dado,
pelos quatro homens, em uníssono, sem a menor imperfeição, fazendo as vezes de
um bem ensaiado jogral, emoldurado por criativas marcações, bem ao feitio do
consagrado diretor, o qual, já na época da primeira montagem da peça, era
considerado um dos mais importantes do Brasil em sua função.
"Cada
um dá o que tem" –
já dizia a minha avó - e se expõe, assim, a receber uma resposta do
público. O elenco tem muito a dar, dizendo um texto inteligente e
poético, obedecendo às corretíssimas orientações da direção.
E, tendo muito a oferecer, o resultado vem em forma de muitos aplausos em cena
aberta, merecidíssimos, diga-se de passagem.
Não resta a menor dúvida de
que Nordestina, local onde se passa atrama, representa um
microcosmo do nordeste, e não são poucos aqueles que migram para outras regiões
do país, mormente o sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo),
por causa da falta de oportunidades de trabalho ou sobrevivência, em busca de
um mundo melhor. Karina representa o nordestino raiz,
principalmente do interior, que sonha com um novo “status”,
uma maneira mais digna de sobreviver.
A cenografia da peça, criada por JOÃO FALCÃO e VANESSA POITENA, é, por demais, simples, mas não menos importante, restrita a uma roda giratória. Encantei-me pelos criativos figurinos, que saíram da imaginação de CHRIS GARRIDO. A luz (CÉSAR DE RAMIRO) é um elemento que me leva a pensar que contracena com os atores; ou vice-versa. É precisa e serve, totalmente, à proposta da direção. O desenho de luz é dos elementos de criação mais importantes nesta obra e das melhores que já vi, criadas pelo grande profissional que é DE RAMIRO. Achei preciosíssima a ideia de transformar o gigantesco palco da Ópera de Arame numa arena em que se passa a encenação, comportando mais de 400 espectadores, que muito aplaudiram o espetáculo, nas quatro sessões (duas extras) que aconteceram.
FICHA
TÉCNICA:
Idealização:
Clayton Marques e João Falcão
Baseado
no livro homônimo de Adriana Falcão
Adaptação
e Direção: João Falcão
Elenco (por
ordem alfabética): Agnes Brichta, Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli
e Vitor Britto
Codireção
e Preparação Corporal: Gustavo Falcão
Assistente
de Direção e Comunicação: Duda Martins
Assistente
de Direção e Produção: Jofrancis
Oficina
de Danças Populares: Alisson Lima
Cenografia:
João Falcão e Vanessa Poitena
Cenografia
Original: João Falcão e Denis Nascimento
Assistente
de Cenografia: Renata Garcia
Figurino:
Chris Garrido
Assistentes
de Figurino: Maria Helena Alcântara e Valquíria Reducino
Desenho
de Luz: César de Ramires
Visagismo: Louise Helène
Música
Original: DJ Dolores
Trilha
Sonora: Ricco Viana e João Falcão
Direção
Musical: Ricco Viana
Desenho
de Som: Raul Teixeira, Edézio Aragão e Thiago Schin
Direção
de Palco: Luis Felipe Machado
“Hair Style”: Steffone
Operação
de Som: Edézio Aragão e Thiago Schin
Operação
de Luz: Daniel Galván
“Designer” e
Comunicação Visual: Helbert Rodrigues
Fotos: Annelize Tozetto, Humberto Araújo e Luísa Vieira
Redes
Sociais: Alexandre Ammano e Caroli
“Videomaker”: Daniel Bianchi, Victor
Canhada e Davi Gambra
Assessoria
de Imprensa: Factoria Comunicação – Vanessa Cardoso e Daniella Cavalcanti
Financeiro:
Nicole Bitu
Equipe
Cenotécnica: Cia Malagueta - Alício Silva, Giorgia Massetani, Joana Pegorari,
Igor B. Gomes, Danndhara Shoyama, Shampzs, Luna Costa, André Costa, João
Chiodo, Matheus Muniz, Beatriz Leandro e Júlia Leandro.
Anexo
de Arquibancadas: Jamelão - Cinecidade
Aderecista:
Ricardo Costa
Assessoria
Jurídica: Rafael Novaes e Amanda Mayumi
Assessoria
Contábil: Fratem
Gerente
de Projetos: David Henrique França
Direção
de Produção: Clayton Marques e Marlene Salgado
Produção: Daniel Bianchi e
Margarete Calgaro
Correalização:
TeatroIquè
Realização:
MaquinaMaquina Produções e Jacaracica Produções
O espetáculo, que marcou a história da dramaturgia brasileira,
esteve, com a primeira versão, no “FESTIVAL DE CURITIBA, em 2000
e continua tão atual, ou mais, quanto há 25 anos.
Tudo, em “A MÁQUINA” é
fabuloso, é intenso, é formidável, é superlativo... "VISCERAL" resume tudo! Assistir
a esta montagem é participar de uma experiência inesquecível. RECOMENDO, INTENSAMENTE, O ESPETÁCULO e aguardo, com muita ansiedade, sua vinda
para o Rio de Janeiro, o que deve acontecer este ano. Classifico este espetáculo como uma OBRA-PRIMA!!!
FOTOS: ANNELIZE TOZETTO, HUMBERTO ARÁUJO
e LUÍSA VIEIRA.
GALERIA PARTICULAR
(Foto: Carlos Sabag)
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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