terça-feira, 21 de abril de 2026

 

“NÓS, OS JUSTOS”

ou

(COM QUEM

ESTÁ A RAZÃO?

A QUEM PERTENCE

A VERDADE?)



         

     Voltei, recentemente, de mais uma incursão na programação teatral da cidade de São Paulo, quando assisti a seis espetáculos em quatro dias, todos de excelente qualidade. Vou escrever sobre os seis, já iniciando por um especialíssimo, que ficará indelével na minha mente e no meu coração. O espetáculo em tela chama-se “NÓS, OS JUSTOS” e está em cartaz no Teatro Itália, somente até o próximo domingo, 26 de abril de 2026. Também não creio que fará outras temporadas, embora o merecesse imensamente, e, muito menos, que venha para o Rio de Janeiro, o que, se acontecesse, me faria, com muito prazer e interesse, assistir novamente a ele.



Os três principais elementos de sustentação de uma montagem teatral são, simplesmente, fascinantes: texto, direção e interpretação, não me ocorrendo condições de estabelecer uma escala de valores do melhor para o menos ótimo. Acumula a dramaturgia e a direção o talentosíssimo KIKO RIESER; o elenco, da Companhia Colateral, o qual, por falta de oportunidade, eu ainda não conhecia, é formado por um quarteto de brilhantes atores, com um destaque maior, a meu juízo, para MARCO ANTÔNIO PÂMIO, o único dos quatro com quem eu já havia assistido a outros ótimos trabalhos. Os demais são CAMILA DOS ANJOS, LUCIANO GATTI e THAMIRIS MANDÚ. Na sessão em que estive presente, CAMILA foi, brilhantemente, substituída por NATÁLIA MOÇO, a quem dirijo meus mais efusivos aplausos.


 

   

SINOPSE LONGA:

Em uma grande empresa, rumores sobre a conduta de um funcionário passam a circular entre os colegas, provocando um clima crescente de desconfiança e hostilidade.

Diante da pressão interna, a direção instaura uma sindicância, para apurar os fatos.

O processo, no entanto, revela-se tudo, menos objetivo.

Cada depoimento carrega ambiguidades, silêncios e interesses ocultos e escusos, alguns.

As versões não se contradizem frontalmente, mas divergem em intenções, interpretações e motivações.

À medida que a investigação avança, torna-se, cada vez mais, difícil separar fatos de narrativas, convicções de conveniências.

Pequenos detalhes ganham peso desproporcional, informações do passado ressurgem e relações pessoais interferem nas decisões.

Todos acabam envolvidos em um processo que foge ao controle, no qual são tragados por uma bola de neve de consequências imprevisíveis.


 



 

SINOPSE CURTA:

Em uma grande empresa, rumores sobre a conduta de um funcionário se espalham e fazem com que seus colegas exerçam forte pressão por sua demissão.

É instaurada uma sindicância, onde nada do que é revelado é absoluto, tornando-se impossível tomar partido de qualquer lado, sem possibilidade de erro.

Todos os personagens são tragados por uma bola de neve que trará consequências imprevisíveis.


 

 


         Neste espetáculo, em que o autor do texto traça um retrato contundente da cultura do “cancelamento”, por demais reconhecida nos dias de hoje, muitas vezes baseada em informações falsas ou distorcidas, que nos levam a ilações sem fundamentos que possam ser confirmados por qualquer um ser humano cético, o espectador, sem querer, é levado à condição de “juiz”, aceitando o que bem lhe for à cabeça, para estabelecer a “sua” verdade, “condenando” o/a(s) culpado/a(s) e “inocentando” a(s) vítima(s). Há situações em que julgar é extremamente perigoso, visto que se forma uma tênue linha entre o ser e o parecer ser.



Kiko Rieser.


         A trama se inicia num ritmo “normal”, que vai acelerando, à medida que novos elementos são agregados a uma investigação, de lados opostos, fazendo com que, ora o espectador se posicione de uma forma; ora, de outra. Comigo, confesso, a “verdade”, desde o início – a minha verdade – esteve sempre ao lado do personagem Toni (LUCIANO GATTI), que me passou maior confiabilidade, não só em função da perfeita interpretação do ator, como também pela forma como ele ia descrevendo seus gestos, atitudes e palavras. Tudo me fez acreditar nele, na sua inocência. Não sei se, realmente, Toni seria a vítima, mas assim me pareceu, ainda que a intenção do autor do texto seja, exatamente, provocar decodificações diferentes, lançando-as à plateia. Sem dúvida, uma grande jogada de mestre. RIESER consegue transformar rumores, dentro de uma grande empresa, em uma parábola sobre o justiçamento e a cultura do cancelamento, na contemporaneidade. Quantas “condenações” temos visto por aí, que, mais tarde, se revelaram erros de julgamento, quando um possível mal já se tenha instaurado e prejudicado a vida de alguém, tudo por conta de uma precipitação?



         É enorme a preocupação do executivo-chefe, o personagem Mendonça (MARCO ANTÔNIO PÂMIO), para não se arrepender de qualquer que seja sua decisão, se bem que a trama só se estabeleça depois que Toni tenta demonstrar e provar que estava sendo vítima de uma injustiça, após receber, do chefe, a notícia de que estava sendo demitido. Aos poucos Mendonça vai se deixando envolver numa trama de fios diversos, num festival de acusações, defesas e ilações. Isso vai fazendo com que o espectador mais se projete ao palco e procure tomar algum partido. É impossível piscar e, muito menos, cochilar, diante de uma trama tão bem engendrada, um texto tão, dramaturgicamente, perfeito, dos melhores que conheci na minha longa jornada de mais de 60 anos de “rato de TEATRO”.



         Diante de tão fabulosa direção, coloco-me como alguém que pensa que o trabalho de distribuir as peças do xadrez no tabuleiro – os atores no palco, orientando-os – tenha sido pensada, à medida que KIKO RIESER ia dando forma ao seu fabuloso texto, o que, de certa forma, pode facilitar o seu tão magnífico trabalho de direção. Pode ser que eu esteja errado, mas, afinal de contas, o diretor sabe, melhor que ninguém, o que o autor deseja que passe aos espectadores, neste caso.



         A química que existe entre o quarteto de esplêndidos atores é total. O elenco, em muito, valoriza o brilhantismo do texto. Fica difícil estabelecer protagonismos e coadjuvâncias, tal é a magnitude do trabalho de interpretação, embora, tecnicamente falando, toda a trama gire em torno do personagem Toni (LUCIANO GATTI), que poderia ser considerado o protagonista, nesse sentido. Jamais me esquecerei dos irretocáveis trabalhos, além da atuação de LUCIANO, de MARCO ANTÔNIO PÂMIO (Mendonça), NATHÁLIA MOÇO (Milena) e THAMIRIS MANDÚ (Shirley). Todos estão credenciados a disputar premiações, ao final da temporada teatral de 2026.



         Quanto aos artistas criativos, cada profissional deixa sua boa marca presente na obra, de forma corretíssima: cenografia (BRUNO ANSELMO), figurinos (MARICHILENE ARTISEVSKIS), desenho de luz (RODRIGO PALMIERI), trilha sonora original (MARCELO PELLEGRINI).   



Como diz o diretor,Vivemos um tempo em que a linha entre fazer justiça e praticar o justiçamento tornou-se perigosamente tênue. Diante de acusações, boatos e versões conflitantes, o veredito costuma chegar antes das provas, impulsionado pela pressão coletiva e pela necessidade imediata de apontar culpados”. (Extraído do “release” da peça, a mim enviado por M. FERNANDA TEIXEIRA, da assessoria de imprensa do espetáculo - ARTEPLURAL).



A peça, escrita, originalmente, em 2018, quando a “cultura do cancelamento” começava a se desenhar, atravessou quase uma década sem modificações substanciais, exceto pela incorporação do conceito de “compliance”, hoje central no mundo corporativo. É, pois, um espetáculo totalmente atemporal e universal. O autor põe em cena a percepção de um tribunal, o cerne da montagem. “A gente tem a alegoria, na peça, dos quatro componentes principais do tribunal: o juiz, a acusação, a defesa e a testemunha. A encenação foi pensada, para que cada um cumpra esse papel simbólico, transformando o palco nesse espaço de julgamento, que não oferece saída fácil ao público.” - são palavras do autordiretor.



Um ponto importante da peça é a presença, invisível, de um quinto personagem: uma espécie de coro, formado pelos demais funcionários da empresa. Apelidados, ironicamente, de ‘a manada’, eles representam a força coletiva que pressiona, vigia, comenta, julga e exige punições. Mesmo sem aparecerem em cena, são eles que alimentam rumores, vazam informações e mudam de lado, conforme a conveniência, atuando como um tribunal informal, que se forma nos corredores e salas para moldar decisões e destinos”. (Também pinçado do "release".) São os verdadeiros agentes da chamada “rádio corredor”.

 


 

FICHA TÉCNICA: 

Texto: Kiko Rieser

Direção: Kiko Rieser

 

Elenco: Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú.

“Stand-in”: Natália Moço

 

Assistência de Direção: Letícia Calvosa

Cenografia: Bruno Anselmo

Figurino: Marichilene Artisevskis

Desenho de Luz: Rodrigo Palmieri

Trilha Sonora Original: Marcelo Pellegrini

Preparação Corporal: Bruna Longo

Consultoria de Queda e Dublê: Aline Abovsky

Cenotecnia: Casa Malagueta, Alício Silva, Danndhara Shoyama, Igor b. Gomes, Larissa Baldissera, Shampzss e André Souza

Costura: Judite Gerônimo de Lima

Operador de Som e Luz: Rodrigo Palmieri

Fotografia: Ronaldo Gutierrez

“Designer” Gráfico: Lucas Sancho

Assessoria de Imprensa: Arteplural – M Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira

Gestão de Mídias Sociais e Tráfego Pago: CulturaLab

Produção: Rieser Produções e Rodri Produções

Direção de Produção: Jessica Rodrigues

Coordenação de Produção: Carolina Henriques

Produção Executiva: Diego Andrade e Julia Terron

Assistência de Produção: Diego Leo

Realização: Companhia Colateral.


 



 

SERVIÇO:

Temporada: De 06 de março a 26 de abril de 2026.

Local: Teatro Itália.

Endereço: Avenida Ipiranga, nº 344 – Centro – SP.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Valor dos Ingressos: R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia-entrada).

Link de vendas: https://bileto.sympla.com.br/event/116694

Classificação Indicativa: 14 anos.

Duração: 90 minutos.

Gênero: Drama.


 


 

         Sem pestanejar, afirmo que “NÓS, OS JUSTOS” é um dos melhores espetáculos a que assisti até hoje e ratifico que é uma pena que não faça novas temporadas nem viaje Brasil afora. RECOMENDO MUITO esta OBRA-PRIMA!!!










FOTOS: RONALDO GUTIERREZ

 

 


É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!

 

 

 

 














 






























































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