“NÓS, OS JUSTOS”
ou
(COM QUEM
ESTÁ A RAZÃO?
A QUEM PERTENCE
A VERDADE?)
Voltei, recentemente, de mais uma
incursão na programação teatral da cidade de São Paulo, quando
assisti a seis espetáculos em quatro dias, todos de excelente
qualidade. Vou escrever sobre os seis, já iniciando por um
especialíssimo, que ficará indelével na minha mente e no meu coração. O
espetáculo em tela chama-se “NÓS, OS JUSTOS” e está em cartaz no Teatro
Itália, somente até o próximo domingo, 26 de abril de 2026.
Também não creio que fará outras temporadas, embora o merecesse imensamente, e,
muito menos, que venha para o Rio de Janeiro, o que, se
acontecesse, me faria, com muito prazer e interesse, assistir novamente a ele.
Os
três principais elementos de sustentação de uma montagem teatral
são, simplesmente, fascinantes: texto, direção e interpretação,
não me ocorrendo condições de estabelecer uma escala de valores do melhor
para o menos ótimo. Acumula a dramaturgia e a direção
o talentosíssimo KIKO RIESER; o elenco, da Companhia Colateral,
o qual, por falta de oportunidade, eu ainda não conhecia, é formado por um
quarteto de brilhantes atores, com um destaque maior, a meu
juízo, para MARCO ANTÔNIO PÂMIO, o único dos quatro com quem eu já havia
assistido a outros ótimos trabalhos. Os demais são CAMILA DOS ANJOS, LUCIANO
GATTI e THAMIRIS MANDÚ. Na sessão em que estive presente, CAMILA
foi, brilhantemente, substituída por NATÁLIA MOÇO, a quem dirijo meus
mais efusivos aplausos.
SINOPSE
LONGA:
Em
uma grande empresa, rumores sobre a conduta de um funcionário passam a circular
entre os colegas, provocando um clima crescente de desconfiança e hostilidade.
Diante
da pressão interna, a direção instaura uma sindicância, para apurar os fatos.
O
processo, no entanto, revela-se tudo, menos objetivo.
Cada
depoimento carrega ambiguidades, silêncios e interesses ocultos e escusos, alguns.
As
versões não se contradizem frontalmente, mas divergem em intenções,
interpretações e motivações.
À
medida que a investigação avança, torna-se, cada vez mais, difícil separar
fatos de narrativas, convicções de conveniências.
Pequenos
detalhes ganham peso desproporcional, informações do passado ressurgem e
relações pessoais interferem nas decisões.
Todos
acabam envolvidos em um processo que foge ao controle, no qual são tragados por
uma bola de neve de consequências imprevisíveis.
SINOPSE
CURTA:
Em
uma grande empresa, rumores sobre a conduta de um funcionário se espalham e
fazem com que seus colegas exerçam forte pressão por sua demissão.
É
instaurada uma sindicância, onde nada do que é revelado é absoluto, tornando-se
impossível tomar partido de qualquer lado, sem possibilidade de erro.
Todos
os personagens são tragados por uma bola de neve que trará consequências
imprevisíveis.
Neste espetáculo, em que o autor
do texto traça um retrato contundente da
cultura do “cancelamento”, por demais reconhecida nos dias de hoje,
muitas vezes baseada em informações falsas ou distorcidas, que nos levam a
ilações sem fundamentos que possam ser confirmados por qualquer um ser humano
cético, o espectador, sem querer, é levado à condição de “juiz”, aceitando
o que bem lhe for à cabeça, para estabelecer a “sua” verdade, “condenando”
o/a(s) culpado/a(s) e “inocentando” a(s) vítima(s). Há situações
em que julgar é extremamente perigoso, visto que se forma uma tênue linha
entre o ser e o parecer ser.
A
trama se inicia num ritmo “normal”, que vai acelerando, à medida
que novos elementos são agregados a uma investigação, de lados opostos, fazendo
com que, ora o espectador se posicione de uma forma; ora, de outra. Comigo,
confesso, a “verdade”, desde o início – a minha verdade –
esteve sempre ao lado do personagem Toni (LUCIANO GATTI),
que me passou maior confiabilidade, não só em função da perfeita interpretação
do ator, como também pela forma como ele ia descrevendo seus gestos, atitudes e
palavras. Tudo me fez acreditar nele, na sua inocência. Não sei se, realmente, Toni
seria a vítima, mas assim me pareceu, ainda que a intenção do autor do
texto seja, exatamente, provocar decodificações diferentes, lançando-as
à plateia. Sem dúvida, uma grande jogada de mestre. RIESER consegue transformar
rumores, dentro de uma grande empresa, em uma parábola sobre o justiçamento e a
cultura do cancelamento, na contemporaneidade. Quantas “condenações”
temos visto por aí, que, mais tarde, se revelaram erros de julgamento, quando
um possível mal já se tenha instaurado e prejudicado a vida de alguém, tudo por
conta de uma precipitação?
É
enorme a preocupação do executivo-chefe, o personagem Mendonça (MARCO
ANTÔNIO PÂMIO), para não se arrepender de qualquer que seja sua decisão, se
bem que a trama só se estabeleça depois que Toni tenta demonstrar
e provar que estava sendo vítima de uma injustiça, após receber, do chefe, a
notícia de que estava sendo demitido. Aos poucos Mendonça vai se deixando
envolver numa trama de fios diversos, num festival de acusações, defesas e
ilações. Isso vai fazendo com que o espectador mais se projete ao palco e
procure tomar algum partido. É impossível piscar e, muito menos, cochilar,
diante de uma trama tão bem engendrada, um texto tão, dramaturgicamente,
perfeito, dos melhores que conheci na minha longa jornada de mais de 60
anos de “rato de TEATRO”.
Diante
de tão fabulosa direção, coloco-me como alguém que pensa que o
trabalho de distribuir as peças do xadrez no tabuleiro – os atores no
palco, orientando-os – tenha sido pensada, à medida que KIKO RIESER
ia dando forma ao seu fabuloso texto, o que, de certa forma, pode facilitar o
seu tão magnífico trabalho de direção. Pode ser que eu esteja errado, mas, afinal
de contas, o diretor sabe, melhor que ninguém, o que o autor
deseja que passe aos espectadores, neste caso.
A
química que existe entre o quarteto de esplêndidos atores é total. O
elenco, em muito, valoriza o brilhantismo do texto. Fica difícil
estabelecer protagonismos e coadjuvâncias, tal é a magnitude do trabalho de interpretação,
embora, tecnicamente falando, toda a trama gire em torno do personagem Toni
(LUCIANO GATTI), que poderia ser considerado o protagonista,
nesse sentido. Jamais me esquecerei dos irretocáveis trabalhos, além da atuação
de LUCIANO, de MARCO ANTÔNIO PÂMIO (Mendonça), NATHÁLIA
MOÇO (Milena) e THAMIRIS MANDÚ (Shirley). Todos
estão credenciados a disputar premiações, ao final da temporada teatral de 2026.
Quanto
aos artistas criativos, cada profissional deixa sua boa marca presente na
obra, de forma corretíssima: cenografia (BRUNO ANSELMO), figurinos
(MARICHILENE ARTISEVSKIS), desenho de luz (RODRIGO
PALMIERI), trilha sonora original (MARCELO PELLEGRINI).
Como diz o diretor, “Vivemos
um tempo em que a linha entre fazer justiça e praticar o justiçamento tornou-se
perigosamente tênue. Diante de acusações, boatos e versões conflitantes, o
veredito costuma chegar antes das provas, impulsionado pela pressão coletiva e
pela necessidade imediata de apontar culpados”. (Extraído do “release” da peça,
a mim enviado por M.
FERNANDA TEIXEIRA, da assessoria de imprensa do espetáculo - ARTEPLURAL).
A peça, escrita, originalmente,
em 2018, quando a “cultura do cancelamento”
começava a se desenhar, atravessou quase uma década sem modificações
substanciais, exceto pela incorporação do conceito de “compliance”,
hoje central no mundo corporativo. É, pois, um espetáculo totalmente atemporal
e universal. O autor põe em cena a percepção de um tribunal, o cerne da montagem. “A
gente tem a alegoria, na peça, dos quatro componentes principais do tribunal: o
juiz, a acusação, a defesa e a testemunha. A encenação foi pensada, para que
cada um cumpra esse papel simbólico, transformando o palco nesse espaço de
julgamento, que não oferece saída fácil ao público.” - são palavras do autor e diretor.
“Um
ponto importante da peça é a presença, invisível, de um quinto personagem: uma
espécie de coro, formado pelos demais funcionários da empresa. Apelidados,
ironicamente, de ‘a manada’, eles representam a força coletiva que pressiona,
vigia, comenta, julga e exige punições. Mesmo sem aparecerem em cena, são eles
que alimentam rumores, vazam informações e mudam de lado, conforme a
conveniência, atuando como um tribunal informal, que se forma nos corredores e
salas para moldar decisões e destinos”. (Também pinçado do "release".) São os verdadeiros agentes da chamada “rádio
corredor”.
FICHA
TÉCNICA:
Texto:
Kiko Rieser
Direção:
Kiko Rieser
Elenco:
Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú.
“Stand-in”:
Natália Moço
Assistência
de Direção: Letícia Calvosa
Cenografia:
Bruno Anselmo
Figurino:
Marichilene Artisevskis
Desenho
de Luz: Rodrigo Palmieri
Trilha
Sonora Original: Marcelo Pellegrini
Preparação
Corporal: Bruna Longo
Consultoria
de Queda e Dublê: Aline Abovsky
Cenotecnia:
Casa Malagueta, Alício Silva, Danndhara Shoyama, Igor b. Gomes, Larissa
Baldissera, Shampzss e André Souza
Costura:
Judite Gerônimo de Lima
Operador
de Som e Luz: Rodrigo Palmieri
Fotografia:
Ronaldo Gutierrez
“Designer”
Gráfico: Lucas Sancho
Assessoria
de Imprensa: Arteplural – M Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira
Gestão
de Mídias Sociais e Tráfego Pago: CulturaLab
Produção:
Rieser Produções e Rodri Produções
Direção
de Produção: Jessica Rodrigues
Coordenação
de Produção: Carolina Henriques
Produção
Executiva: Diego Andrade e Julia Terron
Assistência
de Produção: Diego Leo
Realização:
Companhia Colateral.
SERVIÇO:
Temporada: De 06 de março a 26 de abril de 2026.
Local: Teatro Itália.
Endereço: Avenida Ipiranga, nº 344 – Centro – SP.
Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h;
domingo, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$ 90 (inteira) e R$ 45
(meia-entrada).
Link
de vendas:
https://bileto.sympla.com.br/event/116694
Classificação
Indicativa: 14 anos.
Duração:
90 minutos.
Gênero:
Drama.
Sem pestanejar, afirmo que
“NÓS, OS JUSTOS” é um dos melhores espetáculos a que assisti até hoje e
ratifico que é uma pena que não faça novas temporadas nem viaje Brasil
afora. RECOMENDO MUITO esta OBRA-PRIMA!!!
FOTOS: RONALDO GUTIERREZ
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e
constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta
crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO
BRASILEIRO!
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