“34º FESTIVAL DE CURITIBA”
“JONATHAN”
ou
(SOBRA
TALENTO POR
TODOS
OS LADOS.)
ou
(A
TRADIÇÃO ORAL NO TEATRO.)
(ESTA CRÍTICA TEM COMO BASE A QUE ESCREVI, NO DIA 20 DE JULHO DE 2023,
QUANDO ASSISTI À PEÇA, NO RIO DE JANEIRO, COM POSSÍVEIS ALTERAÇÕES.
Tenho por hábito assistir, pelo menos uma vez mais, a espetáculos
que muito me agradam e, ultimamente, venho fazendo isso com uma certa
regularidade, em função da uma considerável quantidade de bons espetáculos em
cartaz no Rio de Janeiro, ainda que muitos outros, de
qualidade bastante discutível, também venham sendo oferecidos. Há público para
todos os gostos, e não acho que essas produções, que jamais contarão comigo
numa poltrona, não devam existir. Eu não gosto delas, não me interessam, mas há
quem as aprove e as aplauda. Tudo bem! “Tudo certo, como dois e dois
são cinco”. Depois de ter me deliciado com “JONATHAN”, por duas
vezes, no Rio de Janeiro, ainda assisti ao solo mais uma, no “FESTIVAL
DE CURITIBA”.
Na
onda das montagens que procurei rever, nos últimos tempos, está “JONATHAN”,
um solo, escrito e interpretado por RAFAEL SOUZA-RIBEIRO, o RAFUDA,
para os íntimos e os seus admiradores (Incluo-me na última rubrica.). O
espetáculo é dirigido por DULCE PENNA e cumpriu uma primeira
temporada de sucesso, no Teatro Ipanema, e, atualmente, está
em cartaz no Teatro Glaucio Gill.
Só encontrei disponibilidade, na agenda, para assistir ao espetáculo na
última semana da primeira temporada e, como gostei muito do que vi, senti o
desejo de escrever uma crítica sobre ele, o que não foi possível à época. Torci
muito, então, para que houvesse uma segunda temporada e o meu desejo pudesse
ser concretizado.
SINOPSE:
A vida de JONATHAN se transforma,
a partir do momento em que ele se vê impelido a cuidar da tartaruga mais velha
do mundo e ter que zelar por sua vida, numa ilha perigosamente reacionária.
O monólogo parte da história real daquela
tartaruga, para abordar, com acidez e lirismo, temas como colonialismo,
intolerância, moralidade e, sobretudo, a passagem do tempo.
Na peça, a vida da tartaruga JONATHAN cruza
com a vida de outro JONATHAN, o tratador de animais, que herdou o
nome do bicho e o ofício do avô, ainda que contra sua vontade.
Enquanto passa a limpo a história da ilha onde
vivem, da tartaruga e da família, ele se vê às voltas com os próprios sonhos e
a chegada da vida adulta.
Sobre a tartaruga
JONATHAN, a verdadeira, um quelônio gigante, estima-se que tenha nascido
em 1832, nas Ilhas Seychelles,
entretanto alguns estudiosos acreditam que o animal já tenha alcançado a marca
dos 200 anos, porque as
informações relativas à sua chegada ao local onde hoje se encontra não são
exatas e não há nenhum registo real do seu nascimento. Ela foi
oferecida, como presente da Coroa Britânica, ainda no século
XIX, à Ilha de Santa Helena. De acordo com o “Livro
dos Recordes”, JONATHAN detém o título de a
tartaruga mais velha do mundo e o mais longevo testudine, grupo que inclui
todas as tartarugas, cágados e jabutis, já registrado na história. Desde seu nascimento, o mundo mudou imensamente, em
quase dois séculos, porém, para ele, isso pouco importa. “Seus
principais interesses continuam a ser dormir, comer e acasalar. Jonathan é
alimentado a mão, pois a velhice deixou-o cego e sem olfato, de modo que
desconhece a comida, se esta for, simplesmente, colocada no chão. A sua
audição, porém, é excelente, e responde bem ao som da voz do seu veterinário,
segundo o ‘Guinness’”. Seu tratador afirma que apesar da sua
idade, JONATHAN ainda tem uma boa libido e é visto,
frequentemente, acasalando com duas tartarugas companheiras, Emma e,
por vezes, Fred (?), visto que “os animais,
muitas vezes, não são, particularmente, sensíveis ao gênero”.
A tartaruga JONATHAN.
Sempre admirei o trabalho de RAFAEL
SOUZA-RIBEIRO como dramaturgo, principalmente por conta de quatro de
seus textos: “Homem Feito”, “Gisberta” (o
melhor de todos, a meu juízo), “Tá Com Medo De Quê? (infantojuvenil)
e “Cerca Viva”. Não sabia que ele também era ator. E dos
bons! Na verdade, este é o primeiro texto que ele escreve para o próprio interpretar. Além de querer checar o mais recente texto de um autor que tanto admiro,
havia, também, uma enorme curiosidade para conhecer o seu lado intérprete, que,
de saída, já vou logo dizendo que aprovo, sem pestanejar.
Lendo a SINOPSE, dentro
do “release” que me foi enviado por LYVIA
RODRIGUES (“Aquela que Divulga” – Assessoria de imprensa”),
fiquei tentando imaginar como o tema poderia render uma história interessante,
e para ser representada, que não fizesse com que eu me arrependesse de ter
aceitado o convite. Mas acontece que RAFUDA é um sujeito
privilegiado, em inteligência e criatividade, e fui, com muita curiosidade,
reforço, mas achando que ficaria satisfeito com a peça. Fiquei, e muito!
Com o texto, a direção, de DULCE PENNA, e
a interpretação. Valeu muito a pena!
No já mencionado “release”, há um trecho que diz como, para o RAFUDA, surgiu a ideia de escrever esta peça de TEATRO. Num determinado dia, em 2017, lendo um jornal, o autor tomou conhecimento da história de uma tartaruga, o mais velho animal terrestre do planeta, então somando 185 anos de vida. Chamava-se JONATHAN e vivia na Ilha de Santa Helena, um território ultramarino britânico, no meio do Atlântico Sul, situada bem no meio da distância entre a África e a América do Sul, considerado um dos locais mais ermos do mundo. Hoje, aos 191 anos, a tartaruga é tida como uma “celebridade” e, por décadas, vem sendo o “garoto-propaganda” da ilhota, com, aproximadamente, 4500 habitantes. Sua imagem estampa camisetas, bonés, bem como a moeda de 5 centavos da libra local e os selos do órgão de imigração. Se não me engano, o jornal em que o autor leu sobre JONATHAN foi "O Estado de São Paulo", que estampou como manchete: "MAIS VELHA TARTARUGA DO MUNDO É GAY".
Prossegue o material de
divulgação da peça: “Quando leu o perfil de JONATHAN, traçado pelo
jornal, do temperamento agressivo, em jogos de críquete, à pacificação, após a
chegada de uma parceira da mesma espécie, passando pela voraz indústria do
turismo desenvolvida ao redor do animal e todo o panorama histórico em que ele
se insere, RAFAEL pensou: ‘Tem TEATRO aí!’”. Um estalo o despertou
para a criação de seu mais recente texto teatral. Conquanto haja algo concreto
como gatilho que fez disparar a criação do texto, o dramaturgo trabalhou da
forma mais livre e independente possível, criando personagens, locais e situações
diversas, numa obra de ficção com começo, meio e fim definidos. E como voa a
sua imaginação! RAFUDA criou uma dramaturgia documental, mas,
ao mesmo tempo, também fantástica, fabular, alegórica, em forma de TEATRO.
Nessa linha, o autor criou Frederica,
uma fêmea (?) para JONATHAN, com a qual o
quelônio “matusalém” praticava o “cruzo” (relação
sexual) todas as sextas-feiras, às vistas de qualquer um,
escandalizando a população local. Criou, também, uma mocinha, que seria o
primeiro amor de JONATHAN; o rapaz, evidentemente. E vieram, ainda,
o avô do jovem, que era o tratador do animal, função que foi passada ao neto, e
o “Intendente”, o “ditador” da ilha,
com sotaque de português (Precisa desenhar?). E muitas
outras deliciosas “viagens”.
Toda a narrativa, uma
verdadeira saga, demora, cronologicamente, 80 minutos, o que, para
um solo, é considerada uma duração excessiva, entretanto a história vai se
desenvolvendo de forma tão agradável, curiosa e engraçada, que o tempo se torna
mais etéreo do que, normalmente, é. O ator vai ligando uma ação à outra como se
a estivesse inventando na hora, improvisando, tão natural é sua interpretação.
Quem conhece o palco
do Teatro Ipanema e o espaço cênico do Teatro
Glaucio Gill sabe que há uma grande diferença entre eles, no
tocante às suas dimensões. Isso implica dizer que a mesma peça ganha notas
diferentes, quando é levada de um local, o “Ipanema”, para
outro, o “Glaucio Gill”, este mais amplo. Se lá, RAFUDA,
sozinho, já ocupava o espaço por inteiro, aqui, ele domina, com muito mais
propriedade o chão em que pisa, da mesma forma como o fez no Teatro do
SESC da Esquina, na capital paranaense.
DULCE PENNA,
que também é atriz, depois de ter se exercitado bastante, como assistente de
direção de alguns dos melhores diretores do Brasil e de
ter feito um ou outro trabalho, assinando sua própria direção, assume as rédeas
desta montagem com lucidez e competência, cônscia de que tinha, nas mãos, uma
ótima história, assim como uma dramaturgia bem “redonda” e
um ator de muitas possibilidades. Assim, soube aproveitar o que estrava à sua
disposição, incluindo os parcos recursos para os elementos de criação (cenário,
figurino, luz etc...), e pensou numa direção bem simples, sem
querer “inventar a roda”, em que o ator, bem solto, se torna
um “amigo” de quem está na plateia, a contar, a estes,
suas peripécias. Um bom trabalho de direção, que valoriza o conceito de
que “menos é mais”.
Dulce Penna (Foto: Fonte Desconhecida.)
Um palco nu, com uma
construção, em madeira, em forma de um praticável, bem rústico, à esquerda, e ao
fundo, é o que temos como cenário, contudo RAFUDA vai
descrevendo, com tanta verdade, os locais por onde passa o personagem e o seu
conteúdo cenográfico, que é fácil “ver” tudo em cena.
Foto: Gilberto Bartholo.
Como figurino, JONATHAN,
o homem, veste roupas simples, despojadas, coloridas, adaptadas à nossa
cultura. Para completar a composição do personagem, vale o registro do
interessante visagismo.
Gostei bastante dos recursos, que não
são sofisticados, mas funcionam muito bem, utilizados por PAULO DENIZOT,
um ótimo profissional da iluminação.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Rafael Souza-Ribeiro
Direção: Dulce Penna
Atuação: Rafael Souza-Ribeiro
Cenografia: Dulce Penna e Dodô
Giovanetti
Cenotecnia: Dianny Pereira e Dodô Giovanetti
Figurino: Carla Ferraz
Desenho de Estampa: Verônica Bechara
Costura: Ateliê das Meninas
Iluminação: Paulo Denizot
Trilha Sonora: Arthur Ferreira
Operação de Som: Eder Martins de Souza
Preparação Corporal: Luciano
Caten
Visagismo e Maquiagem: Diego Nardes
Cabelo / Corte: Kauã Guimarães
Direção de Produção: Damiana
Inês
Assistência de Produção: Denie Oliveira
Arte Gráfica: Ludmila Valente (“Brainstorm Design”)
Assessoria
de Imprensa: Lyvia Rodrigues ("Aquela Que Divulga")
Fotografia: Renato Mangolin
Gosto muito, quando sou
surpreendido, indo a um Teatro com uma expectativa,
mesmo que já seja boa, e volto para casa com a certeza de que ela foi bastante
ampliada, como ocorreu com esta peça. Chamou-me muito a atenção uma frase, que
é dita, mais de uma vez, no texto, a qual existe para que reflitamos sobre seu
conteúdo. É possível que algumas pessoas não consigam mergulhar no seu
significado, mas, para mim, pelo menos, ela é de grande importância: “Não
é porque você nasceu numa ilha, que não pode sair dela”. Devia ser
repetida, por todos, como um mantra, no sentido de que não devemos nos acomodar
e, sim, pensar em “voos” mais altos. O homem JONATHAN tinha
tudo para se tornar um “herpetólogo”, profissional que se
dedica ao estudo de anfíbios e répteis e permanecer na ilha, mas ele não cuidava da tartaruga
por prazer ou vontade própria. Havia sido nomeado, pelo “Intendente”,
o opressor, após o avô ter ficado cego. Seus planos eram outros, voos mais ousados.
Tanto na primeira noite em que
assisti à peça quanto na segunda vez e na terceira, voltei para casa com uma
canção na cabeça, “Avec Moi” – que não faz parte
da trilha sonora da peça –, a qual diz, num certo trecho: “Se
arruma, amor, vamo sair / Nós vamo por aí / Sair da ilha, cê precisa me ouvir”.
Seu intérprete, o “rapper” Froid, naqueles três momentos,
repetia uma espécie de desafio que RAFUDA me fazia, no palco.
Eu estava precisando ouvir que “é preciso sair da ilha”. Recomendo, com o maior empenho o espetáculo!
FOTOS: ANNELIZE TOZETTO
GALERIA PARTICULAR
Com Rafael Souza-Ribeiro.
VAMOS AO TEATRO!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS
DE ESPETÁCULO
DO BRASIL!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI,
SEMPRE!
RESISTAMOS, SEMPRE MAIS!
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O QUE HÁ DE MELHOR
NO TEATRO
BRASILEIRO!
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