“QUANDO AS
MÁQUINAS PARAM”
ou
(QUANDO A SIMPLICIDADE
É SUPERVALORIZADA
E FUNCIONA.)
Na noite da última terça-feira (13/01/2026),
mal terminei de aplaudir bastante a montagem de “QUANDO AS MÁQUINAS PARAM”,
uma das mais magníficas e impactantes obras de PLÍNIO MARCOS, em cartaz,
em curtíssima temporada, no Teatro Vannucci (Ver SERVIÇO.), veio-me
à cabeça uma reflexão, que compartilho com quem me dá o prazer e a honra de ler
estes comentários. Quantas vezes saio de casa, na zona sudoeste do Rio
Janeiro, enfrento um trânsito caótico, desviando de motoqueiros
alucinados e mal-educados, dirigindo por algumas dezenas de quilômetros (ida e
volta), para assistir a uma peça muito “bem produzida” (Falo
em termos de muito dinheiro.), com nomes respeitáveis, na FICHA
TÉCNICA, e saio do Teatro totalmente arrependido por ter
ido e lastimando o fato de não ter o dom de adivinhar, o que me teria feito
ficar em casa... São, repetidas vezes, produções equivocadas, que deixam muito
a desejar.
Na
mesma proporção como reajo a essas “enganações”, por vezes, até
mesmo, muito honestas nas propostas, mas sem qualidade real, deixo, em “estado de graça”,
o lugar onde assisti a uma peça de baixíssimo orçamento, feita por gente não
famosa, que passa ao largo do “vip global”, porém na qual foi
depositada uma dose incalculável de garra, determinação, talento, criatividade
e amor e respeito ao TEATRO, como no espetáculo em tela.
SINOPSE:
“QUANDO AS MÁQUINAS PARAM” é uma peça
dramática, com uma pitada de comicidade da época, e que, infelizmente, ainda
traduz o Brasil de hoje, mesmo se passando em meados dos anos 1960.
É,
portanto, totalmente atemporal.
Nos
cinco quadros em que a peça se divide, há um núcleo estrutural, que é mantido,
praticamente, inalterado.
Nina (Bella Zafira), dona de
casa e costureira, dá uma série de broncas no marido, Zé (PEDRO
DI CARVALHO), operário, desempregado, o qual se defende por meio de
histórias que denunciam uma crise conjuntural cada vez mais grave e sem saída.
O
macrocosmo interferindo e destruindo um microcosmo.
Juntos,
o casal faz de tudo para sair da linha da miséria, mas com muitos desafios pelo
caminho.
Fazia bastante tempo, não assistia à encenação de um texto de PLÍNIO MARCOS, dramaturgo dos mais importantes para o TEATRO brasileiro, e gostei sobejamente do que vi. PLÍNIO, paulista, de Santos (1935), falecido em São Paulo (1999), foi um escritor, autor, ator, diretor de TEATRO e jornalista, embora tivesse concluído apenas o antigo curso primário, que escreveu cerca de 30 peças, especialmente durante o regime ditatorial militar, o qual sempre enfrentou corajosamente. PLÍNIO bebeu muito numa fonte considerada, por uma legião de admiradores, a mais expressiva no nosso TEATRO, Nelson Rodrigues, tanto nos temas quanto na linguagem e no vocabulário. PLÍNIO MARCOS, autor de intensa produção escrita, também para jornais, definia-se como “repórter de um tempo mau”, registrando ou criando histórias sobre a parcela marginalizada da sociedade brasileira. Sempre perseguido pela censura, viveu sem fazer concessões, “sendo intensamente produtivo e norteado pela cultura popular”. Sempre deu voz à marginalidade, que conhecia como ninguém. Sugiro, principalmente para os mais jovens, uma pesquisa sobre o autor, cuja vida, cheia de altos e baixos, bem merecia um bom filme biográfico.
Escrita em 1971, “QUANDO AS MÁQUINAS
PARAM” é, talvez, uma das peças menos “barulhentas”
de PLÍNIO MARCOS, embora bastante
forte e instigante, com um final chocante e inesperado. “Os
personagens Nina e Zé são caricaturas de um Brasil que, entre regimes
ditatoriais e transformações econômicas, foi impossibilitado de acompanhar o
próprio progresso em um sistema que faz de refém seus integrantes como ‘meros frutos
do meio’. A história revela a alienação que a classe trabalhadora sofre
intimamente, em silêncio, na impossibilidade de um grito por socorro, enquanto
o vislumbre de uma nova realidade permanece em sussurros.” O
casal, não tendo outra saída, se amolda à desgraça de que é vítima e, no caso de Zé,
estamos diante de um exemplo de como o “status quo”
pode interferir na personalidade de alguém, transformando um ser “normal” num outro, brutalizado.
O título da peça é muito bem atribuído ao texto, mostrando que, “quando as máquinas param”, param, também, a dignidade e a esperança, num drama atemporal que ainda ressoa na atualidade brasileira sobre as mazelas sociais e o sistema capitalista. Dando vez e voz à classe trabalhadora e marginalizada, a seres humanos transformados em “trastes”, por falta de recursos para sobreviver dignamente, PLÍNIO MARCOS retrata a dura realidade de um casal enfrentando o desemprego e a precariedade, que vive a questionar o sistema que os descarta. É uma típica obra de cunho social e humano.
“QUANDO AS MÁQUINAS PARAM” é, em suma “uma peça que aborda o colapso de vidas e sonhos,
quando o trabalho cessa, um espelho das dificuldades enfrentadas por muitos no
Brasil”.
Trata-se o espetáculo de uma montagem
assaz modesta, de baixo orçamento, porém totalmente acertada, no que diz
respeito a todos os itens que devem entrar numa produção teatral. O cenário,
de MAURO SOH, simples e realista, contando com o inestimável reforço de
uma magnífica direção de arte (MAURO SOH, HEITOR MARTINEZ e
PEDRO DI CARVALHO) e os figurinos, de ANA LISBOA não
poderiam ser mais adequados, o mesmo acontecendo com a modesta e acertada iluminação,
a cargo de ADRIANA ORTIZ. HEITOR MARTINEZ, cônscio da
preciosidade de texto de que dispunha, assim como a dupla de formidáveis
atores, procedeu com muita parcimônia, na sua direção, acertando
no resultado final.
PEDRO DI CARVALHO, cujo trabalho
(o primeiro de sua carreira profissional) conheci, pela primeira vez, em 2019
(“Sangue”, com direção de Bruce Gomlevsky.) é um magnífico
profissional das tábuas e, mais uma vez, ratifica seu enorme talento, numa
representação supernatural e verdadeira. O mesmo posso dizer com relação a BELLA
ZAFIRA, que me confessou ser, também, seu primeiro trabalho como
profissional, o que, certamente, a credencia a enfrentar outros grandes
desafios, como este. Ambos são pródigos em nos entregar dois excelentes
trabalhos de interpretação teatral.
FICHA
TÉCNICA:
Texto:
Plínio Marcos
Direção:
Heitor Martinez
Assistência
de Direção: Caio Paranaguá e Ilo Rafael
Elenco:
Bella Zafira e Pedro Di Carvalho
(Voz
“off”): Ricardo Juarez
Cenografia:
Mauro Soh
Figurinos:
Ana Lisboa
Iluminação:
Adriana Ortiz
Direção
de Arte: Mauro Soh, Heitor Martinez e Pedro Di Carvalho
Direção
Musical e Trilha Sonora: Caio Paranaguá
Programação
Visual: Ilo Rafael
Preparação
Corporal: Clara Francis
“Designer” Gráfico:
João Miller e Nando Motta
Fotos:
Helena Markum e Pedro Dias Lemos
Produção:
Bella Zafira e Pedro Di Carvalho
SERVIÇO:
Temporada:
De 13 de janeiro a 03 de fevereiro de 2026.
Local:
Teatro Vannucci.
Endereço:
Rua Marquês de São Vicente, nº 52 – 3º piso do Shopping da Gávea – Gávea – Rio de
Janeiro.
Dia
e Horário: 3ªs feiras, às 20h (Apenas 04 apresentações.)
Valor
dos Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada).
Vendas
na bilheteria do Teatro ou no totem fora da bilheteria (sem taxa de serviço)
ou pela plataforma SYMPLA https://bileto.sympla.com.br/event/114832
Duração:
70 minutos.
Indicação
Etária: 14 anos.
Gênero:
Drama.
Termino esta modesta e sincera crítica por RECOMENDAR MUITO ESTE ESPETÁCULO e
reproduzindo palavras de PEDRO DI CARVALHO, um dos corajosos produtores da
peça, ao lado de BELLA ZAFIRA: “Venha
se emocionar e embarcar nessa história com a gente! Nossa peça é sem
patrocínio, e toda ajuda é bem-vinda. Foi erguida por amigos e pessoas que
acreditaram no nosso projeto, e traremos, aos olhos do público, essa história
comovente que precisa ser contada.”
FOTOS: HELENA MARKUM
e
PEDRO DIAS LEMOS.
GALERIA PARTICULAR:
Com Bella Zafira e Pedro di Carvalho.
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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