quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

 

“QUANDO AS

MÁQUINAS PARAM”

ou

(QUANDO A SIMPLICIDADE

É SUPERVALORIZADA

E FUNCIONA.)

 



         Na noite da última terça-feira (13/01/2026), mal terminei de aplaudir bastante a montagem de “QUANDO AS MÁQUINAS PARAM”, uma das mais magníficas e impactantes obras de PLÍNIO MARCOS, em cartaz, em curtíssima temporada, no Teatro Vannucci (Ver SERVIÇO.), veio-me à cabeça uma reflexão, que compartilho com quem me dá o prazer e a honra de ler estes comentários. Quantas vezes saio de casa, na zona sudoeste do Rio Janeiro, enfrento um trânsito caótico, desviando de motoqueiros alucinados e mal-educados, dirigindo por algumas dezenas de quilômetros (ida e volta), para assistir a uma peça muito “bem produzida” (Falo em termos de muito dinheiro.), com nomes respeitáveis, na FICHA TÉCNICA, e saio do Teatro totalmente arrependido por ter ido e lastimando o fato de não ter o dom de adivinhar, o que me teria feito ficar em casa... São, repetidas vezes, produções equivocadas, que deixam muito a desejar.



    Na mesma proporção como reajo a essas “enganações”, por vezes, até mesmo, muito honestas nas propostas, mas sem qualidade real, deixo, em “estado de graça”, o lugar onde assisti a uma peça de baixíssimo orçamento, feita por gente não famosa, que passa ao largo do “vip global”, porém na qual foi depositada uma dose incalculável de garra, determinação, talento, criatividade e amor e respeito ao TEATRO, como no espetáculo em tela.



 

SINOPSE:

     “QUANDO AS MÁQUINAS PARAM” é uma peça dramática, com uma pitada de comicidade da época, e que, infelizmente, ainda traduz o Brasil de hoje, mesmo se passando em meados dos anos 1960.

É, portanto, totalmente atemporal.

Nos cinco quadros em que a peça se divide, há um núcleo estrutural, que é mantido, praticamente, inalterado.

Nina (Bella Zafira), dona de casa e costureira, dá uma série de broncas no marido, (PEDRO DI CARVALHO), operário, desempregado, o qual se defende por meio de histórias que denunciam uma crise conjuntural cada vez mais grave e sem saída.

O macrocosmo interferindo e destruindo um microcosmo.

Juntos, o casal faz de tudo para sair da linha da miséria, mas com muitos desafios pelo caminho.





    Fazia bastante tempo, não assistia à encenação de um texto de PLÍNIO MARCOS, dramaturgo dos mais importantes para o TEATRO brasileiro, e gostei sobejamente do que vi. PLÍNIO, paulista, de Santos (1935), falecido em São Paulo (1999)foi um escritor, autor, ator, diretor de TEATRO e jornalista, embora tivesse concluído apenas o antigo curso primário, que escreveu cerca de 30 peças, especialmente durante o regime ditatorial militar, o qual sempre enfrentou corajosamente. PLÍNIO bebeu muito numa fonte considerada, por uma legião de admiradores, a mais expressiva no nosso TEATRONelson Rodrigues, tanto nos temas quanto na linguagem e no vocabulário. PLÍNIO MARCOS, autor de intensa produção escrita, também para jornais, definia-se como “repórter de um tempo mau”, registrando ou criando histórias sobre a parcela marginalizada da sociedade brasileira. Sempre perseguido pela censura, viveu sem fazer concessões, “sendo intensamente produtivo e norteado pela cultura popular”. Sempre deu voz à marginalidade, que conhecia como ninguém. Sugiro, principalmente para os mais jovens, uma pesquisa sobre o autor, cuja vida, cheia de altos e baixos, bem merecia um bom filme biográfico.



           Escrita em 1971, “QUANDO AS MÁQUINAS PARAM” é, talvez, uma das peças menos “barulhentas” de PLÍNIO MARCOS, embora bastante forte e instigante, com um final chocante e inesperado. “Os personagens Nina e Zé são caricaturas de um Brasil que, entre regimes ditatoriais e transformações econômicas, foi impossibilitado de acompanhar o próprio progresso em um sistema que faz de refém seus integrantes como ‘meros frutos do meio’. A história revela a alienação que a classe trabalhadora sofre intimamente, em silêncio, na impossibilidade de um grito por socorro, enquanto o vislumbre de uma nova realidade permanece em sussurros.” O casal, não tendo outra saída, se amolda à desgraça de que é vítima e, no caso de , estamos diante de um exemplo de como o “status quo” pode interferir na personalidade de alguém, transformando um ser “normal” num outro, brutalizado.



           O título da peça é muito bem atribuído ao texto, mostrando que, “quando as máquinas param”, param, também, a dignidade e a esperança, num drama atemporal que ainda ressoa na atualidade brasileira sobre as mazelas sociais e o sistema capitalista. Dando vez e voz à classe trabalhadora e marginalizada, a seres humanos transformados em “trastes”, por falta de recursos para sobreviver dignamente, PLÍNIO MARCOS retrata a dura realidade de um casal enfrentando o desemprego e a precariedade, que vive a questionar o sistema que os descarta. É uma típica obra de cunho social e humano.



          “QUANDO AS MÁQUINAS PARAM” é, em suma “uma peça que aborda o colapso de vidas e sonhos, quando o trabalho cessa, um espelho das dificuldades enfrentadas por muitos no Brasil”



           Trata-se o espetáculo de uma montagem assaz modesta, de baixo orçamento, porém totalmente acertada, no que diz respeito a todos os itens que devem entrar numa produção teatral. O cenário, de MAURO SOH, simples e realista, contando com o inestimável reforço de uma magnífica direção de arte (MAURO SOH, HEITOR MARTINEZ e PEDRO DI CARVALHO) e os figurinos, de ANA LISBOA não poderiam ser mais adequados, o mesmo acontecendo com a modesta e acertada iluminação, a cargo de ADRIANA ORTIZ. HEITOR MARTINEZ, cônscio da preciosidade de texto de que dispunha, assim como a dupla de formidáveis atores, procedeu com muita parcimônia, na sua direção, acertando no resultado final.



          PEDRO DI CARVALHO, cujo trabalho (o primeiro de sua carreira profissional) conheci, pela primeira vez, em 2019 (“Sangue”, com direção de Bruce Gomlevsky.) é um magnífico profissional das tábuas e, mais uma vez, ratifica seu enorme talento, numa representação supernatural e verdadeira. O mesmo posso dizer com relação a BELLA ZAFIRA, que me confessou ser, também, seu primeiro trabalho como profissional, o que, certamente, a credencia a enfrentar outros grandes desafios, como este. Ambos são pródigos em nos entregar dois excelentes trabalhos de interpretação teatral.

 

 


 

FICHA TÉCNICA:

Texto: Plínio Marcos

Direção: Heitor Martinez

Assistência de Direção: Caio Paranaguá e Ilo Rafael

 

Elenco: Bella Zafira e Pedro Di Carvalho

(Voz “off”): Ricardo Juarez

 

Cenografia: Mauro Soh

Figurinos: Ana Lisboa

Iluminação: Adriana Ortiz

Direção de Arte: Mauro Soh, Heitor Martinez e Pedro Di Carvalho

Direção Musical e Trilha Sonora: Caio Paranaguá

Programação Visual: Ilo Rafael

Preparação Corporal: Clara Francis

“Designer” Gráfico: João Miller e Nando Motta

Fotos: Helena Markum e Pedro Dias Lemos

Produção: Bella Zafira e Pedro Di Carvalho


 


 


 

SERVIÇO:

Temporada: De 13 de janeiro a 03 de fevereiro de 2026.

Local: Teatro Vannucci.

Endereço: Rua Marquês de São Vicente, nº 52 – 3º piso do Shopping da Gávea – Gávea – Rio de Janeiro.

Dia e Horário: 3ªs feiras, às 20h (Apenas 04 apresentações.)

Valor dos Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada).

Vendas na bilheteria do Teatro ou no totem fora da bilheteria (sem taxa de serviço) ou pela plataforma SYMPLA https://bileto.sympla.com.br/event/114832

Duração: 70 minutos.

Indicação Etária: 14 anos.

Gênero: Drama.


 


 

         Termino esta modesta e sincera crítica por RECOMENDAR MUITO ESTE ESPETÁCULO e reproduzindo palavras de PEDRO DI CARVALHO, um dos corajosos produtores da peça, ao lado de BELLA ZAFIRA: “Venha se emocionar e embarcar nessa história com a gente! Nossa peça é sem patrocínio, e toda ajuda é bem-vinda. Foi erguida por amigos e pessoas que acreditaram no nosso projeto, e traremos, aos olhos do público, essa história comovente que precisa ser contada.”

 

 

 

 

FOTOS: HELENA MARKUM

e

PEDRO DIAS LEMOS.

 

 

GALERIA PARTICULAR:

 

Com Bella Zafira e Pedro di Carvalho.



 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!

   












 

















































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