“CREDORES”
ou
(UMA “DR” A TRÊS.)
ou
(O AMOR PASSADO
A LIMPO. SERÁ?!)
Sejam as minhas primeiras palavras uma
importantíssima recomendação que faço a todos os cariocas que amam,
profundamente, o bom TEATRO, chamado, por muitos, de “TEATRÃO”,
“TEATRO como se fazia antigamente”: Sempre que o Grupo TAPA
vier ao Rio de Janeiro, com alguma de suas montagens, não deixe de
assistir a ela, pois verá resgatado um tipo de TEATRO “puro”, no
qual predominam todos os valores positivos que cercam e garantem uma grande
produção teatral clássica: texto, direção e interpretação,
principalmente. Jamais me arrependi de ter assistido a alguma peça encenada
pelo Tapa e não seria agora que eu trairia meus princípios éticos
e estéticos, diante de um magnífico espetáculo como “CREDORES”, um
clássico da literatura dramática, escrito pelo dramaturgo sueco AUGUSTE
STRINDBERG, em 1987, com tradução, do original sueco, e
direção de EDUARDO TOLENTINO DE ARAUJO, um dos fundadores
do Grupo, interpretado por um trio de estupendos atores, em
cartaz no Teatro Poeira, até o dia 08 de março (2026)
(Ver SERVIÇO.).
O Grupo está completando 46
anos de profícuas atividades, seis no Rio de Janeiro e quarenta
em São Paulo. Reconheço-me um dos mais ardentes fãs dos trabalhos do Tapa,
que, embora fundado no Rio, por estudantes da PUC, se estabeleceu, há quatro décadas, na capital paulista e muito pouco vem para
cá. Já fazia oito anos que os cariocas não tinham a oportunidade de saborear
uma das montagens da companhia. Sempre que vou a São Paulo, a
cada dois meses, procuro assistir a algum espetáculo deles em cartaz naquele
momento. Dessa forma, mantenho-me bem atualizado com relação ao repertório da
trupe.
SINOPSE:
A peça gira em torno de um triângulo
amoroso e psicológico entre Adolfo (BRUNO BARCHESI), sua esposa Tekla
(SANDRA
CORVELONI)
e Gustavo (ANDRÉ GAROLLI), o primeiro marido de Tekla, que
retorna, buscando vingança.
Passando-se por amigo, Gustavo
sonda Adolfo sobre o casamento com Tekla e o
passado desconhecido da esposa.
Pouco a pouco, vai manipulando Adolfo
contra Tekla e propõe um plano para que ele conheça, de verdade,
a mulher com quem se casou.
Fragilizado e doente, Adolfo
morde a isca e aceita o tal plano, mas os acontecimentos saem do controle,
levando a um trágico desfecho.
Há
um quarto personagem em cena, o Encarregado (FELIPE SOUZA),
que executa, silenciosamente, as funções subalternas, limpando e arrumando os
ambientes, além de ajudar Adolfo a se locomover, por conta de um
problema nas pernas deste.
Johan August STRINDBERG (Estocolmo, 22 de janeiro de 1849 - Estocolmo, 14 de maio de 1912) foi um dramaturgo, romancista, ensaísta e contista sueco, tendo influenciado, profundamente,
o moderno TEATRO universal. Na verdade, é considerado um dos pais
do TEATRO moderno, sendo dos mais representativos autores escandinavos de todos os tempos. Os
estudiosos o classificam como pertencente aos movimentos literários naturalista e expressionista e apontam traços
autobiográficos em suas obras, sempre bastante dramáticas. Alguns dos mais
expressivos dramaturgos, como Eugene O’Neill, Tennessee
Williams, Harold Pinter e Edward Albee,
certamente, beberam na fonte de STRINDBERG, o qual escreveu mais
de sessenta peças teatrais. “CREDORES” (Fordringsägare, no original sueco.) foi escrita numa época de grande produção artística, entre os anos de 1886
e 1890, período durante o qual escreveu cinco de
suas peças mais conhecidas: “Camaradas”, “Pai”, “Senhorita
Júlia” (a mais popular e a mais montada no Brasil) e “A Mais
Forte”, além desta aqui comentada. Nesta, “os conflitos e as
contradições entre os três personagens são amplificados pela unidade de ação e
o complexo jogo de ironia dramática que se desenrola”.
O Grupo
Tapa cultiva o salutar hábito de sempre produzir montagens inéditas,
mas, também, de manter um repertório, que, frequentemente, é revisitado, como
no caso em tela, montagem de mais de dez anos. Podemos dizer que o texto
da peça, denso, mas de fácil assimilação pelo público, é universal
e atemporal, dialogando, indiscutivelmente, com os dias de hoje,
através de um acerto de contas entre um triângulo amoroso, permitindo que voltem à superfície temas como a “guerra dos sexos”, a
complexidade das relações conjugais, a manipulação e o poder
masculino. É ou não é atual?
A temática não é nada simples; pelo contrário,
é bem complexa, porque envolve sentimentos dentro de uma relação amorosa e
conflituosa. Na trama, dois homens e uma mulher se encontram, num hotel de um
balneário, para um acerto de contas. O encontro evidencia marcas que
nunca cicatrizaram. São palavras de EDUARDO TOLENTINO DE ARAUJO: “Essa
é uma peça que se aprofunda nos dilemas entre os personagens, que expõem seus
conflitos, questão longe de se resolver nos tempos contemporâneos. Escrita em 1887, o
texto projeta uma DR que atravessa dois séculos (sic) e, como diz a canção
popular, ‘ainda somos os mesmos como nossos pais’”.
Tão cirúrgica quanto parece ter
sido a escrita do texto, inchado de dramas, culpas e
desconfianças, mágoas e desacertos, recheado de tensão, é a direção
de TOLENTINO, muito comedida e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, expansiva,
pousada em marcações muito precisas, com um resultado estético deslumbrante. O
espetáculo é, sobejamente, “clean”, nas formas e na estética,
para o que contribuem os ajustados cenário e figurinos,
com total predominância do branco e tons pastéis afins, e a iluminação,
um formidável trabalho de criação coletiva.
Quantas boas lembranças de
atuações brilhantes anteriores me trouxe à mente o trio de excelentes
atores: SANDRA CORVELONE (Tekla), BRUNO BARCHESI (Adolfo) e ANDRÉ
GAROLLI (Gustavo)! Sem
titubear nem um pouco, vejo-os como postulantes a premiações de TEATRO,
referentes ao ano teatral de 2026, no Rio de Janeiro,
a prevalecer a meritocracia, é claro. Cada um dos três magníficos atores se
agarra, com unhas e dentes, à construção de seu personagem, e o resultado é
esplêndido: um Adolfo bastante fragilizado e inseguro, um Gustavo
bem maquiavélico e vingativo e uma Tekla perdida em seus
sentimentos. O trio soube assimilar todas as intenções do autor do texto no que
se refere à forma bem detalhada como este estabelece, com um olhar de lince, as relações entre os três.
Texto extraído do rico “release”,
que me chegou às mãos, via STELLA STEPHANY, assessoria de imprensa,
e que pode ser percebido por qualquer espectador atento à encenação: “A cena privilegia o trabalho e a
movimentação dos atores. Cenário, figurino e iluminação, criados coletivamente
pelo grupo, apenas sugerem uma temporalidade, remetendo a uma época passada,
não determinada.”
FICHA TÉCNICA:
Texto: August Strindberg
Direção: Eduardo Tolentino de Araujo
Elenco / Personagem: Sandra Corvelone / Tekla, Bruno Barchesi /
Adolfo, André Garolli / Gustavo e Felipe Souza / Encarregado
Cenário, Figurino e Iluminação: Criação Coletiva
Fotos: Ronaldo Gutierrez
Redes Sociais: Felipe Pirillo (Inspira Teatro)
Operação de Luz: Walace Furtado
Produção Executiva: Bárbara Montes Claros
Produção Local: Celso Lemos
Assessoria de Imprensa: JSPontes
Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
SERVIÇO:
Temporada:
De 08 de janeiro a 07 de março de 2026.
Local:
Teatro Poeira.
Endereço:
Rua São João Batista, nº 104 – Botafogo – Rio de Janeiro.
Telefone:
(21) 2537-8053.
Dias
e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Valor
dos Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia-entrada).
Ingressos
à venda na Bilheteria do Teatro (sem taxa de serviço) ou na plataforma SYMPLA
(com taxa de serviço) – www.sympla.com.br
Horário
de funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a sábado, das 15h às 20h; domingo,
das 15h às 19h.
Capacidade:
170 espectadores.
Duração:
90 minutos.
Classificação
Indicativa: 14 anos.
Gênero:
Drama.
Oxalá
tenham os cariocas a oportunidade de receber, mais amiúde, uma visita do Grupo
Tapa! RECOMENDO, COM O MÁXIMO DE
EMPENHO, “CREDORES”, que estou certo de que será uma das
grandes lembranças da temporada teatral do Rio de Janeiro, em 2026, como
uma das melhores peças encenadas nesse período.
FOTOS: RONALDO GUTIERREZ
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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