“COYOTE”
ou
(O QUE OS OLHOS
NÃO VEEM
O CORAÇÃO SENTE.)
A
temporada teatral de 2026, no Rio de Janeiro,
começou com o sarrafo colocado a uma altura muito elevada e expressiva. Ratifica
essa observação o espetáculo “COYOTE”, em cartaz no Teatro
Poeirinha, no Rio de Janeiro.
A
peça chega ao Rio depois de algumas apresentações na capital
paulista, como uma espécie de “esquenta”, onde foi muito bem
recebida, o mesmo acontecendo desde sua recém-estreia na temporada carioca. E
tudo indica quer se tornará um dos maiores sucessos teatrais desta temporada.
SINOPSE:
Dois
jovens solitários, em uma grande metrópole, narram como tiveram suas vidas
profundamente transformadas, após a misteriosa aparição de um animal selvagem
na escadaria do prédio onde vivem.
Sem
qualquer entusiasmo, Melinda (KAREN COELHO) trabalha,
durante a madrugada, em uma fábrica de impressão e segue sua rotina mecânica,
sem muita interação social.
Já Tony
(RODRIGO PANDOLFO) está desempregado e desiludido, mal consegue arcar
com as contas da casa e questiona sua motivação para viver.
Certa
madrugada, os dois vizinhos avistam, a partir de diferentes pontos de vista, um
coiote na escadaria do prédio e ficam, absolutamente, fascinados.
Os dois
esperam, noite após noite, que o animal reapareça, até que, alguns dias depois,
Tony observa Melinda levando carne crua para o
visitante.
A
partir de então, eles se tornam cúmplices e parceiros dessa experiência
peculiar, enquanto tentam compreender por que um animal selvagem estaria
invadindo a área urbana.
O
original do texto, em inglês (“MY BARKING DOG”),
é do premiado dramaturgo escocês ERIC COBLE, autor, até então,
inédito no Brasil, muito bem traduzido, por DIEGO TEZA,
tendo recebido a direção da própria dupla de intérpretes,
KAREN COELHO e RODRIGO PANDOLFO.
Tenho
um interesse especial por textos como o desta peça, que flerta com o realismo
fantástico e o “non sense”, misturando humor
e absurdo, em situações improváveis e poéticas. Estamos,
portanto, diante de um texto nada convencional, que convida o espectador a refletir sobre a
urgência de repensar nossa relação com a natureza, sendo, portanto, uma
proposta bastante em consonância com a atualidade. Um fato improvável e o saber
como conviver com ele disparam o gatilho para uma deliciosa narrativa,
obrigando o público a perder o vínculo com o real e se deixar levar por uma “fantasia”
utópica, distópica e alegórica.
O espetáculo poder ser dividido em duas
partes. A primeira, bem mais curta que a outra, em que os dois personagens se
deixam conhecer ao público, para que possamos entender o que vem depois, e a
segunda, durante a qual Melinda (KAREN COELHO) e Tony
(RODRIGO PANDOLFO) contam à plateia o seu comportamento e
relacionamento, os passos que deram, na tentativa de atrair um animal selvagem
que foi encontrá-los, furtivamente, num corredor de um prédio numa “urbis”.
“Diante de uma sociedade
hiperconectada e, cada vez mais, predatória, “COYOTE” propõe uma discussão
sobre as consequências danosas do capitalismo e da devastação do meio ambiente
para a saúde física e mental das pessoas.” A maneira como a história é contada vem plena de um potencial de divertir -
por suas situações absurdas – e, também, de sensibilizar para a
urgência de “repensar nossa relação com a natureza”.
A
força de 25 anos de uma estreita relação de amizade e de trabalho
entre KAREN e PANDOLFO, alicerçada por um talento ímpar da dupla,
é de suma importância nesta peça, visto que é precioso mesmo algo muito forte
para fazer gerar a cumplicidade que existe entre os dois no palco, mais ainda
reforçada por um trabalho mútuo de direção. É um texto de difíceis
resoluções cênicas, mas que, pelas mãos do casal de artistas, parece ter sido
muito fácil. Tudo flui com naturalidade e vigor, além de criatividade, e o
espectador se sente atraído pela narrativa, da primeira à última cena.
A
montagem sustenta-se, principalmente, pela solidez das duas interpretações
brilhantes para um texto inquietante e muito inteligente, que fala da “necessidade
de criação de um novo mundo, no qual a natureza possa ocupar, novamente, seu
lugar entre os humanos”. Esse é um tema urgente, que cai como uma luva,
quando pensamos nos desacertos e descaminhos que o ser dito “humano”
vem cometendo contra o planeta, em forma de uma gratuita agressão. “‘COYOTE’
nos traz questionamentos a respeito da direção que esse sistema nos tem
conduzido. (...) O que estamos fazendo, ao longo da evolução humana, é
justamente nos afastar da natureza. E as consequências disso são devastadoras,
tanto para o meio ambiente, quanto para a nossa saúde física e mental”,
comenta a atriz e codiretora KAREN COELHO.
Como
se não bastasse, a peça ainda joga bastante luz sobre o problema da solidão,
ideia passada pelo teor do texto e, também, pela interessante cenografia,
assinada por CASSIO BRASIL, que, a princípio, parece ser, praticamente,
inexistente, mas que nos reserva uma agradável surpresa, a qual vai se descortinando
a partir da primeira metade da peça (“Cada um no seu quadrado.” – Quem assistir
à peça irá me entender.). Os demais elementos plásticos do espetáculo não
chamam muito a atenção, embora cumpram, com louvor, seu propósito: figurinos,
também de CASSIO BRASIL, e iluminação, de NEY BONFANTE.
Um destaque também vai para a sonoplastia / direção musical, mais
um brilhante trabalho de um craque no ramo: MARCELO H.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Eric Coble
Tradução: Diego Teza
Direção e Atuação: Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo
Interlocução Artística: Jefferson Miranda
Cenário e Figurino: Cassio Brasil
Iluminação: Ney Bonfante
Direção Musical: Marcello H.
Direção de Movimento: Toni Rodrigues
“Design” Gráfico: Patricia Cividanes
Fotos: Victor Pollak e Rodrigo Pandolfo
Vídeos: @icarus.filmes
Operador de Luz: Bruno Araújo
Operador de Som: Gabriel Lagoas
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
Produção Executiva: João Eizo Y. Saboya
Coordenação de Produção: Ártemis
Direção de Produção: Sergio Saboya e Silvio Batistela
SERVIÇO:
Temporada: de 08 de janeiro a 01 de março de 2026.
Local: Teatro Poeirinha.
Endereço: Rua São João Batista, nº 104 – Botafogo – Rio de Janeiro.
Tefefone: (21) 2537-8053.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Valor dos ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada).
Ingressos à venda pela plataforma SYMPLA (com taxa de serviço) – www.sympla.com.br - ou na bilheteria do Teatro (sem taxa de serviço.), de 3ª feira a sábado, das 15h às 20h, e domingo, das 15h às 19h.
Duração: 70 minutos.
Classificação Indicativa: 14 anos.
Capacidade: 50 espectadores.
Gênero: Comédia.
Parabenizo KAREN COELHO e RODRIGO
PANDOLFO pela coragem de se jogar neste projeto e levá-lo adiante, empreitada
que resultou num esplêndido espetáculo, o qual engrandece a atual temporada de TEATRO,
no Rio de Janeiro, e que eu RECOMENDO
COM TODO O MEU EMPENHO!
FOTOS: VICTOR POLLACK
e
RODRIGO PANDOLFO
(a partir de “frames”)
GALERIA PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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