“CÃO”
ou
“O QUE JÁ ERA BOM
SE TORNA AINDA
MELHOR.)
Se eu tivesse que organizar uma lista
com as melhores companhias de TEATRO do Brasil, certamente, a “Clowns
de Shakespeare”, de Natal (RN) e a “Magiluth”,
de Recife (PE), fariam parte dela, por tudo quanto já assisti de
trabalhos das duas, todos de excelente qualidade. E, se ambas, separadamente,
são de uma potência incomparável, imaginem quando se juntam, para apresentar um
espetáculo, “CÃO”, em cartaz no Teatro I, do CCBB –
RJ, até o dia 15 de março (2026) (Ver SERVIÇO.). Trata-se de uma fábula
contemporânea sobre relações de trabalho, poder e precarização, que
encanta o público durante 120 minutos (No SERVIÇO, consta a
informação de 90 minutos.) de um excelente humor e muito dinamismo. O
tempo cronológico “não bate” com o psicológico, visto que a qualidade
do espetáculo é tão superlativa, que não sentimos o tempo passar.
SINOPSE:
“CÃO”
é uma colaboração entre os grupos “Clowns de Shakespeare” (RN) e “Magiluth”
(PE), que nasceu de uma pesquisa sobre o Brasil
contemporâneo, suas contradições, afetos e resistências, com foco na questão do
trabalho precário em suas diversas facetas.
Um grupo de trabalhadores de eventos —
mestres de cerimônia, técnicos de som e luz, cenógrafos, figurinistas, músicos,
maquiadores, produtores, seguranças e outros —, após trabalharem,
ininterruptamente, por 48 horas, para garantir que o Teatro
estivesse impecável, para a posse do recém-eleito líder da jovem república do Lácio,
recebe uma notícia que interrompe toda a programação e os coloca em uma
situação de extremo estresse e submissão aos interesses de pessoas poderosas,
cujas motivações lhes são incompreensíveis.
Tal revelação desmonta toda a cerimônia e os coloca
num vertiginoso jogo de pressões, ordens e urgências incompreensíveis: a morte
do novo governante.
A partir dessa situação fabular, “CÃO”
lança luz sobre o lugar do trabalhador no Brasil contemporâneo,
na América Latina e no mundo.
O TEATRO, mais uma vez, empresta o seu palco, para que seja
representada uma luta de classe bem alegórica, que pode ser
aplicada aos trabalhadores do próprio TEATRO, como também a
qualquer outro setor laboral. Essa luta, que, via de regra, acontece nos
campos, nas fábricas, em várias outras divisões, até mesmo no TEATRO,
se insere no ambiente de uma sala de espetáculos no Centro do Rio de
Janeiro. Aqui, fica claro como o esforço de muitos sustenta o poder de
poucos. É a partir daí que se desenrola o enredo de “CÃO”.
A
montagem, com brilhante direção, a quatro mãos, de FERNANDO YAMAMOTO e LUIZ
FERNANDO MARQUES (LUBI), foi criada a partir de cinco residências
artísticas, realizadas entre Natal, Recife e Rio
de Janeiro. “Embora inspirado na tragédia shakespeariana ‘Coriolano’,
a peça não busca adaptá-la. O que se vê em cena é uma fábula contemporânea,
atravessada por elementos do realismo fantástico, comicidade e música, marcas
que se entrelaçam nas linguagens do ‘Clowns’ e do ‘Magiluth’”, tão bem
exploradas em suas produções anteriores e imensamente aplaudidas por mim.
É
preciso que o espectador se distancie da realidade que o cerca e se deixe levar
pelo tom da proposta, permitindo-se abraçar pelo realismo fantástico
e conseguir perceber todas as críticas sociais e políticas, muito próximas a
nós, exploradas nas duas horas de duração do espetáculo, marcado por um humor
cáustico e, por vezes, propositalmente, exagerado e circense.
“CÃO” revela a
capacidade de transformar o caos em comicidade. A partir daí, abre-se um
sem-fim de situações rocambolescas, desdobramentos absurdos e peripécias
hilárias, que incluem confusões políticas, protocolos impossíveis, desmandos
surrealistas e a necessidade de reorganizar tudo em poucas horas, absolutamente,
tão do nosso conhecimento, infelizmente. Isso abarca o conflito de
classes, a insatisfação do povo, a manipulação política e o jogo de forças, que
recai sempre sobre quem trabalha.
Se o espetáculo provoca o riso e muitas
gargalhadas no público, é bem verdade que, por vezes, esse comportamento é um
tanto uma maneira de reagir aos absurdos desfilados no palco, contra os quais
é, praticamente, impossível se lutar. Assim, às vezes, esse riso é bem “nervoso”,
fruto das reflexões que o texto provoca. O humor sempre
explorando a crítica ferina e o ridículo. Não é difícil – é até bem
fácil, na verdade - o espectador se enxergar na pele de algum daqueles
personagens, diante de temas urgentes e profundos, especialmente as relações de
trabalho, tão em voga no Brasil contemporâneo. O humor não serve,
aqui, para, simplesmente, aliviar a crítica, fazer o assistente extravasar, se
sentir mais leve, mas, isto sim, expõe tal observação crítica e joga luz sobre
ela, leva-a a uma potência exagerada. “Cada atropelo, cada falha de
comunicação, cada ordem descabida evidencia a precarização que, realmente, vem
atravessando as relações de trabalho no Brasil.”
São
palavras de um dos diretores, LUBI: “A cultura é um
campo em que a precarização aparece de maneira gritante. E é, justamente, nesse
campo que seguimos criando, resistindo e nos reinventando.”. E, se
assim não fosse, o TEATRO, talvez, já não existisse mais. Fica,
porém, a certeza de que ele, o fazer teatral, jamais deixará de
existir, graças à força e determinação dos artistas das tábuas, em qualquer
setor de atuação, quando se propõem a erguer um espetáculo teatral.
Perderá
seu tempo quem quiser “fabricar algum pretexto” para criticar,
negativamente, o espetáculo, porque tudo, nesta montagem, o descredibilizará. A
dramaturgia (GIORDANO CASTRO e FERNANDO YAMAMOTO) é uma
delícia, da mesma forma como souberam, como ninguém, trabalhar sobre ela os diretores
YAMAMOTO e LUBI.
O elenco que “dá corpo a
essa engrenagem” é formado, em ordem alfabética, por CAJU
DANTAS, DIOGO SPINELLI, ERIVALDO OLIVEIRA, GIORDANO CASTRO,
LUCAS TORRES, MÁRIO SERGIO CABRAL, OLIVIA LEÓN e PAULA
QUEIROZ. Um detalhe que muito me chamou a atenção, nesta montagem, é que
não consegui notar a presença de um ou mais protagonista(s), quer
como fruto da “arquitetura dramática”, quer em termos de “aparecer
mais que os outros”. Trata-se de um “elenco muito afinado pela
mesma nota do diapasão”, todos, sem exceção, com um justíssimo “timing”
de COMÉDIA, em excelentes participações, num único personagem ou se
revezando em outros.
Agradou-me, sobremaneira, a cenografia,
proposta por FERNANDO YAMAMOTO, LUIZ FERNANDO MARQUES e ROGÉRIO
FERRAZ, refletindo o caos da situação. Da mesma forma, são bem hilários,
criativos e ajustados aos personagens os figurinos, de MARIA
ESTHER. Também aprovo os adereços utilizados na encenação,
com destaque para uma “perna humana” (Isto não é “spoiler”),
trabalho bastante realista de MONA MAGALHÃES e RAILBOT, e a iluminação,
a cargo de RONALDO COSTA.
Vez por outra, somos surpreendidos, nas FICHAS
TÉCNICAS, por “nomenclaturas estranhas”, que nos obrigam
a exercitar a imaginação, para sabermos de que se trata ou fazer uma pesquisa
ao “Tio GOOGLE”. VITOR MARTINEZ assina uma certa “Taxidermia
Sintética”, que julguei ser algo relacionado a “pele” (“derme”).
Recorrendo a uma ligeira pesquisa, verifiquei que o termo, também conhecido
como “fake taxiderme” “refere-se à criação de réplicas de
animais, usando-se materiais artificiais, como resinas, espumas e tecidos, em
vez de peles reais, para fins decorativos, artísticos ou de estudo...”.
TEATRO sempre é muito mais cultura.
E não para por aí. Ainda temos o nome de ERNANI MALETTA, responsável por uma “Dramaturgia Sonora”, que julgo se referir à trilha sonora e à sonoplastia, muito boas, diga-se de passagem.
FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia: Giordano Castro e Fernando Yamamoto
Direção: Fernando Yamamoto e Lubi (Luiz Fernando
Marques)
Elenco (por ordem alfabética): Caju Dantas, Diogo
Spinelli, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio
Cabral, Olivia León e Paula Queiroz
(“Stand-in”): José Medeiros
Cenário: Fernando Yamamoto, Luiz Fernando Marques e
Rogério Ferraz
Figurino: Maria Esther
Projeto de iluminação: Ronaldo Costa
Adereços: Boneca: Carlos Alberto Nunes, Mona
Magalhães e Raibolt; Perna: Mona Magalhães e Raibolt
Taxidermia Sintética: Vitor Martinez
Dramaturgia Sonora: Ernani Maletta
Colaboração em Palhaçaria: Ésio Magalhães
Engenharia de Som: Gabriel Gianni
Coordenação Geral e Produção Executiva: Renata
Kaiser
Direção de Produção: Talita Yohana
“Design” Gráfico: Bruno Parmera
Fotos de Divulgação: Rogério Alves
Assessoria de Imprensa: Prisma Colab (Mario Camelo)
Consultoria e Desenho de Projeto para Lei: Ana
Paula Medeiros
Realização: Ministério da Cultura e Centro
Cultural Banco do Brasil e Governo Federal
Patrocínio: Banco do Brasil
SERVIÇO:
Temporada: De 15 de janeiro a 15 de março de 2026.
Local: Centro Cultural Banco do Brasil – RJ (CCBB –
RJ) – Teatro I.
Endereço: Rua Primeiro de Março, nº 66, Candelária –
Centro – Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 3808-2020.
Dias e Horários: De 5ª freira a sábado, às 19h;
domingo, às 18h.
Valor dos Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada).
(Estudantes, maiores de 65 anos e Clientes Ourocard pagam meia entrada,)
Ingressos adquiridos na bilheteria do CCBB ou,
antecipadamente, pelo site https:/bb.com.br/cultura
Duração: 90 minutos (?).
Classificação Etária: 16 anos.
Gênero: COMÉDIA.
Não
posso deixar de registrar uma certa “frustração”, que me leva a um
“desabafo”, ao constatar que, apesar de uma plateia boa, em
quantidade e qualidade, que aplaudiu, efusivamente e durante muito tempo, os
artistas, não havia uma lotação esgotada, como bem merece o espetáculo. Isso, a
meu juízo, é fruto de uma ignorância, que leva o grande público a eleger o eixo
Rio de Janeiro / São Paulo como o único a erguer grandes produções
teatrais. Isso é uma mentira e um verdadeiro absurdo, dado que conheço
magníficas companhias, de norte a sul e de leste a oeste deste imenso país, que
não ficam nada a dever aos artistas do sudeste. É preciso
que assistam a este espetáculo, por exemplo, para que essa minha afirmação seja
ratificada.
Encerro esta modesta crítica com um trecho,
bem elucidativo, que extraí do “release”, a mim enviado por MARIO
CAMELO, da assessoria de imprensa da peça: “Entre
tropeços, correrias, confusões e descobertas, ‘CÃO’ celebra aquilo que o TEATRO
tem de mais vivo: rir da própria tragédia e seguir em frente, mesmo quando o
protagonista morre antes mesmo de entrar em cena. O espetáculo também revela,
ao público, o movimento dos bastidores e as urgências de quem precisa fazer
tudo acontecer e, ainda assim, inventar poesia, em meio ao caos.”
RECOMENDO MUITO O ESPETÁCULO e vou me empenhar para que consiga um novo espaço na minha agenda, a
fim de poder rever a peça.
FOTOS: ROGÉRIO ALVES
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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