sexta-feira, 15 de maio de 2015


INFÂNCIA, TIROS E PLUMAS
 
 
(SERIA CÔMICO, SE NÃO FOSSE SERIÍSSIMO.)
 
 
 
 
           
Não existe fórmula para o sucesso, em qualquer área ou setor, mas ele pode ser alcançado pela conjunção de alguns fatores. 
Em TEATRO, por exemplo, juntar, num só espetáculo, o texto de um grande (jovem) dramaturgo, como JÔ BILAC, o trabalho de uma brilhante diretora, como INEZ VIANA, e os fantásticos atores da Cia OmondÉ já representa 99,9% de aceitação, do público e da crítica.  Só não arrisco 100%, porque sempre haverá quem vai apontar uma pequena falha qualquer, para criticar, negativamente, o espetáculo, o que deve ser respeitado, obviamente.
Ninguém é genial sempre.  Nenhum criador, nenhum artista nasce gênio e assim se comporta em tudo o que faz.  Este não é, a meu juízo, o melhor texto de , que, para mim, brilha muito mais em Conselho de Classe, Beije Minha Lápide, Os Mamutes, Savana Glacial, O Matador de Santas, Cachorro e Cucaracha, o que não quer dizer que eu não goste de INFÂNCIA, TIROS E PLUMAS.  Pelo contrário; gosto, e gosto muito, mas não tanto quanto os anteriormente citados. 
Há, no texto em análise, personagens e/ou conflitos presentes em obras anteriores do grande dramaturgo?  Sim. 
E isso é algum problema?  Deprecia ou compromete a obra do autor?  Claro que não!!! 
Se assim fosse, quantos grandes escritores, brasileiros e estrangeiros, que fazem parte da galeria dos consagrados literatos, não deveriam ser “criticados”?  Se isso devesse ser levado em consideração, Shakespeare e Nélson Rodrigues, por exemplo, deveriam ser execrados.
 

 
“Eu vou indo, correndo, buscar meu lugar no futuro.  E você?”
 
 
O espetáculo, que está em cartaz no Teatro SESC Ginástico, encerra, infelizmente, uma curta temporada neste final de semana, dia 17, é ótimo e não encontrei, nele, nada que o desabone.  Vi-o duas vezes e, certamente, voltarei a ter esse prazer, em julho/agosto, quando a Cia OmondÉ apresentará seus quatro trabalhos, todos sucessos, em pouco mais de cinco anos de existência, em repertório, no Teatro Dulcina, a saber:
 
- de 16 a 19/7 – As Conchambranças de Quaderna, de Ariano Suassuna
- de 22 a 24/7 – Os Mamutes, de Jô Bilac
- de 25 a 26/7 – Nem Mesmo Todo o Oceano, adaptação de Inez Viana, para o romance homônimo de Alcione Araújo
- de 30/7 a 2/8 – Infância, Tiros e Plumas, de Jô Bilac
 
 
 
O magnífico elenco:
Em cima (da esquerda para a direita): Zé Wendell, Carolina Pismel e Juliane Bodini.
No centro (idem): Leonardo Brício, Débora Lamm e Jéffersom Schroeder.
Embaixo (idem): Júnior Dantas, Luís Antônio Fortes e Iano Salomão.
 
 
O texto, como outros do , foi escrito em processo colaborativo, com a Cia OmondÉ. 
O ponto de partida para a trama foi um laboratório de dez meses, de treinamento e pesquisa, quando foram gerados jogos, estudos e composições.  
Um projeto distinto, quanto ao seu formato e percurso de pesquisa da Cia, pois, a partir da colaboração dos atores, relembrando sua vivências infantis, para a escaleta e sinopse do autor do texto, foi se formando a redação final.  Se não estou equivocado, assim também aconteceu no excelente Conselho de Classe, por exemplo.
Embora demos boas gargalhadas, durante os 80 minutos de duração da peça, fruto do humor negro, que não tem a menor intenção de esconder, não se trata de uma comédia.  É, antes, um drama, que fala da decadência humana, da total degradação do Homem e seus valores éticos e morais, a partir de trajetos que se cruzam, gerando uma série de incidents, envolvendo crianças.  
Tudo se potencializa no ar, a bordo de uma aeronava, de maneira irreversível, modificando, para sempre, a vida daquelas pessoas, que, em comum, só têm o desejo de vingança e a vontade de terem uma outra vida.
Num texto de JÔ BILAC, nada aparece do nada, nada está ali por acaso; tudo é extraordinariamente necessário e mesmo o que possa parecer mais descartável, na trama, nos remete a reflexões profundas, até aquelas que nos revelam quão ridículos, passivos e patéticos somos todos nós. 
Ele conhece o caminho que leva o dedo às feridas, como disse INEZ, e não se contenta em apenas tocá-las (digo eu); comprime-o, com força, de preferência, até sangrar.  É só conferir na sua vasta obra.
Notável, neste texto, é sua dinâmica, na costrução da urdidura da trama, característica marcante na carpintaria presente em suas peças, aqui, ampliada (a dinâmica) pelo trabalho de direção de INEZ VIANA.  A ação já começa pelo alto e, daí por diante, o elevador só faz subir, andar por andar, até atingir o terraço, que proporciona, ao “voyeur”, uma visão panorâmica do universe do autor.
Digna de um comentário é a maneira como constrói seus diálogos, aproveitando-se de jogos de palavras, que prendem e estimulam a atenção do espectador, assim como cria seus petrsonagens.  Os desta peça são quase surrealistas.
 
 
 
Instruções.
 
 
 
INEZ VIANA vem se revelando, a cada nova direção, uma profissional que merece todo o meu respeito e admiração.  Como acompanho, de perto, seu trabalho como atriz, cantora e diretora, posso afirmar, categoricamente, que sempre me surpreendo, positivamente, a cada nova assinatura de direção dela.  Saio de seus espetáculos, sempre, achando que seria difícil ela se superar no próximo projeto, porém isso não me parece tarefa difícil para a INEZ. 
Seu trabalho, como diretora, valoriza qualquer texto e dá, aos atores, a oportunidade de mostrar seu potencial. 
É emocionante, comovente, ouvi-la falar de seus atores, do quanto ela é apaixonada por eles e por seu trabalho, do quanto ela acredita na Cia OmindÉ!  (Eu também, INEZ!) 
Ela transpira paixão pelo TEATRO, é capaz de, simultaneamente, dar conta de vários projetos, com competência e dignidade.  É uma profissional com a qual todo ator deseja trabalhar.  Já ouvi isso da boca de muita gente “boa”. 
Gosto da ideia de pôr todos os personagens, lado a lado, logo no início da peça, com detalhes que servem de identificação de cada um deles, para a plateia.
 
 
 
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“Cada um no seu quadrado”.

 
 
Idem.
 
 
Também me agradam certos “pequenos detalhes” de sua direção, que podem passar despercebidos, para muitos, mas são imprtantes, quando a diretora “diz, sugerindo”, como é o caso de um rápido beijo na boca, entre pai e filho (HENRIQUE e JÚNIOR), o que, a princípio, é intrigante e nos faz pensar numa relação homoafetiva e incestuosa, o que não é verdade; nada mais é do que um beijo ingênuo e afetivo, indício do que será revelado posteriormente, quando o menino diz preferir ficar com o pai, quando a separação do casal se concretizar. 
Da mesma forma, quando SUZANINHA e JÚNIOR se afastam de JUANITO e não se mostram receptivos à participação deste na brincadeira dos dois, tudo leva a crer que a rejeição, de acordo com a reação daqueles, se dá por conta de flatos produzidos por este ou de uma possível fralda suja; entretanto, parece que o motivo é outro: um cheiro desagradável da “geleca” - citada pela menina, quase ao final da peça - que estava dentro da mochila do outro.  O contrabando (tráfico) seria de um órgão humano, dentro de uma pequena caixa de isopor, que CHEVAL colocara na mochila de JUANITO, o qual, dificilmente, a largava, não evitando, porém, que ela fosse trocada, acidentalmente, com a de SUZANINHA, já que as duas, propositalmente, eram iguais.
 É muito interessante a cena em que, enquanto, num dos cantos do praticável, há uma conversa entre MARÍM e SÂNGELA, no outro, os demais passageiros, antes da entrada na aeronave, mostram seus celulares ao funcionário da companhia de aviação, para que possam ter seus embarques permitidos.  A princípio, não entendi a cena, porém, depois, levado à reflexão (Adoro isso!), compreendi que os celulares substituíam os passaportes e/ou identidades, impressos em papel.  O celular é a tecnologia que substitui todas.  Ele contém a identidade, a vida, das pessoas. 
Gosto de que testem a minha inteligência.  Obrigado, INEZ!  Espero ter passado no teste.  Se for “viagem” da minha parte, mesmo assim, valeu a instigação.
Fico muito feliz, a cada sua nova vitória, como é o caso do trabalho ora analisado.
 
 
 
 
SINOPSE:
 
A peça, que está focada na decadência humana, na falência do ser humano, na condição de “soberano”, por ser “racional”, na Terra, conta três histórias:
MARÍM (DÉBORA LAMM), mulher desequilibrada e bipolar, está num processo litigioso de separação com HENRIQUE (LEONARDO BRÍCIO), médico famoso, por ter inventado um antidepressivo que cura traumas de infância.  Porém, mesmo nessa situação, resolvem comemorar o aniversário, de 9 anos, de JÚNIOR (LUÍS ANTÔNIO FORTES), numa  viagem à Disney.  
Enquanto isso, SUZANINHA (CAROLINA PISMEL), garota mimada e arrogante, que além de “miss mirim”, é campeã de tiros, está a caminho de uma competição, acompanhada de seu segurança, ARGOS (IANO SALOMÃO), que, por medo de voar, se embebeda, deixando vir à tona toda a sua violência.  
No mesmo voo, ainda viajam os traficantes PITIL (ZÉ WENDELL) e FERNANDO CHEVAL (JÚNIOR DANTAS), que são funcionários da companhia aérea responsável pelo voo, os quais sequestram JUANITO (JÉFFERSON SCHROEDER), a terceira criança a bordo, um “cucaracho” de 4 anos, para fazê-lo de “mula”. 
Contribui para a complicação, na trama, SÂNGELA (JULIANE BODINI), comissária de bordo e amante do DR. HENRIQUE, de quem está grávida.
            Aos poucos, cada um dos personagens vai revelando o seu lado “dark” e não se respira, no interior daquele avião, nada, além de muita mágoa, ódio, intolerância e, acima de tudo, sede de vingança, e as situações que vão sendo criadas, entrelaçando todos os personagens, convergem para um final trágico e, até mesmo, surrealista, patético, como, aliás, parecem ser os personagens e as situações criadas por , ainda que todas presentes no nosso cotidiano, de forma mais parcimoniosa, talvez.
 
 
 
 
 
 
A Cia OmondÉ surgiu, em 2009, da vontade da diretora e atriz INEZ VIANA em formar um grupo com atores, vindo de várias partes do Brasil, para o aprofundamento de uma pesquisa cênica, em que a diversidade brasilidade e o diálogo com a cena mundial contemporânea fossem, concomitantemente, estudados.  
Trata-se de uma busca aos signos do TEATRO, infinitos, se pensarmos na precisão de um gesto ou na magia do aparecimento de um objeto em cena, levando o espectador a ser cúmplice, e não passivo; co-autor, e não somente “voyeur” do espetáculo.
Atualmente, a Cia OmondÉ é formada por um mineiro, um potiguar, um paraibano, um paranaense e cinco cariocas.
 
 
 
 
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Diz INEZ VIANA, a diretora do espetáculo, sobre o autor da peça:
 
“Mais um Jô Bilac na Cia OmondÉ.  Que furor!  
Ele tem se especializado em colocar o dedo nas nossas feridas e, assim como em Os Mamutes (Cia OmondÉ) e Conselho de Classe (Cia dos Atores), continua inconformado com as injustiças sociais.  
De sua pena, o sangue jorra, diante de nossos olhos, perplexos, como se nossas vidas não fizessem parte deste mundo inacreditável, sem caráter e sem ética que estamos vivendo.
E o pior é que estamos acostumados a viver.
Seu característico tom crítico, sua sutil ironia e, sobretudo, sua poesia nos fazem delirar, como seus personagens descontrolados, normativos, discriminados, avessos à sociedade castradora, lobotomizados, manipuladores. 
E  mais: faz-nos rir e perceber quão ridículos somos.
E acho que é para isso que o teatro serve e que me basta.”
 
 

Alguns comentários, que julgo importantes, sobre a peça:
 
            1) Em comum, entre os três personagens infantis, há a triste e cruel condição de abandono e desrespeito como são tratadas as crianças, até violentadas, física e moralmente, por adultos. 
JUANITO é enganado, o tempo todo, e submetido a chantagem emocional, por parte de seus sequestradores. 
SUZANINHA tem, como companhia, naquela viagem, um segurança, já que os pais devem estar muito ocupados em... (O que, mesmo?). 
JÚNIOR viaja contrariado, triste e preocupado com a separação dos pais, que o usam como moeda de troca, para que atinjam seus objetivos fúteis, em seu mundo “materia/capita/lista.”
 
2) Como em peças anteriores, JÔ BILAC não poupa crítica à sociedade de consumo, aqui mais focada no que representa, para essa sociedade, a Disney, o verdadeiro Shangri-La: asséptico, totalmente livre de toda e qualquer contaminação negativa, o verdadeiro paraíso, onde todos os sonhos se tornam realidade, e os que conseguem chegar lá estão protegidos contra tudo o que representa o mal.
 
3) Uma excelente ideia da direção foi colocar, em “off”, para os habituais avisos e informações, antes do início da peça, a voz marcante e inimitável de Íris Lettieri, a famosa locutora dos aeroportos, dizendo o texto com a mesma entonação e inflexão que utiliza nos seus comunicados aos “senhores passageiros”.
 
4) Para mostrar a “turbulência” que marca a vida dos personagens, ou, pelo menos, aquele determinado momento na vida daqueles personagens, JÔ BILAC não poderia ter escolhido melhor ambientação, que não fosse o interior de um avião, que passa, inclusive, no decorrer da trama, por turbulências. 
Talvez, a história pudesse se passar, também, num transatlântico, durante um cruzeiro pelo Caribe, com direito a uma “esticadinha à Disney”, com um naufrágio, esperando pelos passageiros e tripulantes.
 
5) Um dos pontos altos do espetáculo é o fantástico cenário, de MINA QUENTAL (Atelier Na Glória). 
Ao entrar, o espectador se depara com um palco nu, contando apenas com um tablado, baixo, um pouco inclinado para a frente, onde será concentrada a ação.  Ele é bem menor que a totalidade do palco do Teatro SESC Ginástico, e esse detalhe, paradoxalmente, vai dar destaque às cenas. 
O que ninguém pode imaginar é o grande elemento surpresa que será extraído dele.  Em determinado momento, “brotam”, do chão, as cadeiras dos passageiros, todas dobráveis e não perceptíveis antes.  Surge o interior de um avião.  Um grande achado.
Nas duas laterais, tapadeiras móveis, giratórias, que reproduzem os quadros de avisos, de chegadas e partidas, dos aeroportos.  Outra genial sacada da cenografia. 
Também há tapadeiras, igualmente móveis, mas não giratórias, ao fundo, mas essas só servem para dar, aos atores, acesso ao palco e para controlar a entrada de luz.
 
 
 
Olhando os avisos de voos.
 
 
 
Idem.
 
 
6) E, por falar em luz, RENATO MACHADO e ANA LUZIA DE SIMONI souberam, muito bem, apresentar uma excelente proposta de iluminação, dividida entre dois espaços: o interno, na aeronave, e o externo, o espaço para o voo. 
Em ambas as situações, o visual agrada muito. 
Em determinadas cenas, a iluminação é um elemento de relevada importância, por causa das bruscas mudanças (Não pode haver falhas.), o que, para valorizar tais cenas e fazer com que tudo funcione 100%, precisa, também, da ótima direção musical de MARCELO ALONSO NEVES.  É excelente a reprodução dos ruídos ouvidos nos aeroportos e dentro dos aviões em voo.
 
 
 
Detalhe da ótima iluminação.
 
   
7) A cena inicial apresenta um funcionário do aeroporto, de costas para a plateia, na pista, com dois sinalizadores, iluminados, executando aqueles movimentos que estamos acostumados a ver, na orientação dos pilotos.  (Quem sabe, também, na nossa, no papel de espectadores?)
É um elemento que já prende a atenção da plateia, valorizado pela atuação de JÚNIOR DANTAS.
 
8) Os figurinos, de FLÁVIO SOUZA, também ajudam na composição dos personagens, com destaque para o estilo retrô, utilizado nos uniformes da tripulação e dos funcionários da companhia aérea.  Hilários.
 
 

Os funcionários da companhia aérea: Zé Wendell, Juliane Bodini e Júnior Dantas.
 
 

9) O texto da peça exige que a encenação seja muito dinâmica, o que se dá, graças à brilhante direção de INEZ VIANA, e da direção de movimento, excelente, de DANI AMORIM.
 
10) Uma das melhores, e surpreendentes, cenas da peça é o momento da festa-surpresa em comemoração aos 9 anos de JÚNIOR, com as cadeiras voltando à posição de embutidas no praticável, o palco assumindo a cenografia como a peça é iniciada e se transformando numa pista de dança, numa discoteca.  Luzes frenéticas, piscando; um globo espelhado, descendo e girando, ofuscando os olhos; todos infantilizados, com chapeuzinhos de festa infantil; e o som do Abba, cantando (e eu junto) a deliciosa Dance Queen, dublada, genialmente, por CAROL PISMEL e dançada por todos, menos pelo aniversariante, que, ganhara uma guitarra de presente e se mantém, durante a comemoração, fora dela, afastado, num canto do praticável, chorando. 
Ainda sobre a “festa”, a decepção da mãe, ao ver que o primeiro pedaço do bolo seria destinado ao pai e o discurso desajeitado do DR. HENRIQUE, exigido (Como mais uma vingança?) por MARÍM merecem destaque.
E, para arrematar o brilho da cena, só mesmo DÉBORA LAMM “cantando”, em tom solene, completamente fora do ritmo e do clima da canção, destoando do “ambiente festivo”, o famoso “Com quem será...?”.  Profusão de gargalhadas e aplausos, merecidíssimos, em cena aberta. 
O retrato da hipocrisia!!!
 
 
 
A festa.  Destaque para o abraço entre pai e filho.
 
 
 
O solo dramático de MARÍM.
 
 
11) Sobre o magnífico elenco, sem o qual, certamente, o espetáculo não teria o mesmo brilho, só posso dizer que aplaudo, de pé, a todos, sem me cansar. 
Não há protagonistas, nesta peça, porém dois destaques, por unanimidade, inclusive por comentários de outros componentes do elenco (E isso é muito bonito!) vão para DÉBORA LAMM e CAROLINA PISMEL. 
As duas personagens ajudam, e as atrizes parecem estar no auge de suas atuações.  E olha que já vi as duas em excelentes trabalhos, em outros espetáculos.
 
DÉBORA, que também se sai bem em papéis dramáticos, rouba qualquer cena, quando o humor se faz presente.  É uma das melhores atrizes de sua geração e não seria de causar surpresa uma premiação por sua MARÍM. 
Mas não é só nos momentos “engraçados” da peça que ela se destaca; também sabe canalizar o público para provocar piedade por sua personagem.  Na verdade, ela mesma já pratica uma autopiedade, de forma brilhante, desde a cena em que simula passar mal, ou até estar morta, antes do início do voo, para testar até que ponto ia o mau-caratismo de SÂNGELA, amante de se marido, fato que ela não ignorava, e também na relação com o filho e com PITIL, seu “protetor”.
Sabendo do envolvimento amoroso entre HENRIQUE e SÂNGELA e de um possível plano do marido, para fazer a aeromoça matá-la, oferece dinheiro à rival, para que esta o mate, revertendo a proposta e dizendo-lhe que ele não iria cumprir as promessa que fizera à amante, caso esta levasse a cabo o seu plano de fazê-lo livrar-se da incômoda esposa.
Completamente louca, viciada em “tarja preta” e um poço de vingança, chantageia o marido, exigindo, ao se separar, levar o filho para Estocolmo, que até poderia ter sido outra cidade, mas que surgiu, no texto, a partir de um trocadilho dito em cena: “Estou calmo!”.  Além disso, para garantir uma boa vida, sem trabalhar, também impõe que o quase ex-marido lhe desse sociedade nos direitos de venda de Dorian (acho que é assim que se escreveria), o poderosíssimo antidepressivo infantil, inventado, e patenteado, por HENRIQUE.  Isso a título de “indenização” pelos anos de um casamento infeliz.
Como ninguém, sabe trabalhar as variações de entonação, as máscaras faciais e a exploração do corpo, ferramentais fundamentais ao trabalho de ator. 
E como, também, domina a técnica da gargalhada, o que não é fácil, para os atores!  Quando mal executada, soa falso, muito falso.  As gargalhadas de DÉBORA/MARÍM, revelando deboche e/ou vingança, são convincentes e contagiantes.  Provocam outras no público.
DÉBORA LAMM é uma atriz completa!!!
 
 
 
Trabalho irrepreensível de Débora Lamm.
 
 
CAROLINA PISMEL é outra que, embora jovem, já reúne uma galeria de personagens interessantes, tão bem interpretados por ela, como esta SUZANINHA, mimada, egoísta, egocêntrica, cruel...
São muitas as cenas em que se destaca, como a do ensaio do discurso de “miss mirim”.  Engraçadíssimo, reunindo todos os pensamentos e chavões presentes nos vazios discursos de misses, ufanistas e desprovidos de bom senso.
Outro momento de brilho da atriz, contando com a corretíssima atuação de LUÍS ANTÔNIO FORTES, é quando as duas crianças discutem, enquanto praticam, sobre jogos eletrônicos, principalmente, e outros assuntos.  É impressionante a rapidez, o ritmo como os dois dizem o texto, sem comprometer a sua compreensão, por causa da excelente dicção dos dois, fruto de muito exercício.
Embora já mencionada, a cena em que CAROL/SUZANINHA dubla Dance Queen também é marcante.
 
 
 
Carol Pismel, brilhando em cena.
 
 
LEONARDO BRÍCIO, outro ótimo ator, confirma isso, na pele de HENRIQUE, o adúltero, trapaceiro, ardiloso, “pai de fachada”.  É ele quem injeta veneno numa maçã, que deveria envenenar a mulher.  É o arquiteto do plano para se ver livre dela.  O mesmo caráter que inventa algo “benéfico”, para a salvação dos deprimidos infantis, é capaz de matar.  Mais um elemento contraditório na trama.
 
JÉFFERSON SCHROEDER dá um verdadeiro “show” de interpretação, como JUANITO, o ingênuo/chato/teimoso/curioso “cucaracho” de 4 anos. 
Para um adulto interpretar uma criança, o ridículo é quase iminente.  De acordo com a proposta do texto, isso não é importante e, talvez, poucos atores dessem conta dessa tarefa tão bem, como o faz o JÉFFERSON. 
A composição do personagem se mantém inalterada, do princípio ao fim da peça, no mesmo tom e na mesma intensidade, provocando, na plateia, muitas gargalhadas.  É muito bom o trabalho deste talentoso ator.
 
 
 
Juanito é uma pedra no sapato de seus sequestradores.
 
 
 
A atuação de JULIANE BODINI valoriza sua personagem, em todas as cenas de que participa.  Correto o trabalho da atriz.
 
 
 
Juliane Bodine e Débora Lamm.
 
 
IANO SALOMÃO é outra marcante presença na trama.  O acentuado contraste entre o machão, o poderoso segurança de SUZANINHA, e o covarde, que tem medo de andar de avião, é mais um traço do paradoxo humano. 
Por conta dessa fobia, ele, que se sente “poderoso”, por ter conseguido embarcar armado, depois de humilhar e ameaçar CHEVAL, o funcionário da empresa aérea, que tentava apenas fazer cumprir a lei, faz uso desse pretenso poder para subornar PITIL, “responsável pelo bar do avião” (Existe isso?  Claro que não!  Mais uma provocação de JÔ BILAC.), no sentido de lhe fornecer muita bebida alcoólica, para enfrentar o seu pavor por voos.  O excesso de álcool o leva a passar muito mal.  É excelente a coreografia marcada para essa cena.
 
JÚNIOR DANTAS, a meu juízo, faz o melhor personagem de sua carreira.  O ator sabe, muito bem, dosar a emoção nas cenas em que “domina” ou “é dominado”.  Boa a composição do personagem.
 
LUÍS ANTÔNIO FORTES também executa, com perfeição, sua função em cena, no desafio de, também, interpretar uma criança, de 9 anos.  O retrato da infelicidade, muito bem interpretado por ele. 
 
ZÉ WENDELL, da mesma forma que os demais companheiros de cena, dignifica o elenco desta peça.  Mantém, na trama, uma relação muito íntima com MARÍM (Seriam amantes também?).  PITIL, seu personagem, e CHEVAL são os mentores do golpe do tráfico, um dos assuntos explorados na peça. 
Sempre o admirei, como ator, e o vejo, neste espetáculo, mais uma vez, marcando presença.  Creio tê-lo visto em todos os seus trabalhos em palcos cariocas.  Gosto de tudo o que já fez e comparo o seu PITIL, em qualidade, com os personagens que interpretou em Arresolvido, espetáculo que deixou muita saudade e boas lembranças, a partir do qual travamos uma boa amizade.
 
12) É bastante impactante a cena em que, em meio a uma turbulência desmedida, ao final da peça, pendem, do teto do palco (do avião), máscaras de oxigênio.  Excelente cena, em termos de plasticidade.
 
13) Ouvi, na saída do espetáculo, numa das duas vezes em que a ele assisti, um comentário muito interessante, vindo de um desconhecido, para mim, que dizia ser a “turbulância” um outro, o décimo, personagem na peça. 
Confesso que pensei muito sobre aquilo e cheguei à conclusão de que não chega a tanto (É um exagero e não encontro elementos para tal afirmação.), mas, metaforicamente, não tenho a menor dúvida de que representa o interior de cada um daqueles personagens bilaquianos.
 
 
 
O início do fim.  O caos.
 
 
 
Depois de ter assistido ao espetáculo pela segunda vez, em conversa com INEZ VIANA, chegamos a um simples e fácil raciocínio, se analisado, com cuidado e detalhes, o texto: Rir de quê? 
É o riso do nervoso.  O riso da culpa.  O riso da inércia.  O riso para disfarçar o choro, a pena que temos de todos os personagens e, talvez, com os quais (um ou outro) nos identificamos, totalmente ou em frações.
 
            INFÂNCIA, TIROS E PLUMAS é um dos melhores espetáculos em cartaz e daqueles a que assisti, este ano, até o presente momento.
 
Recomendo-o com empenho!!!
 
 
 
A peça, em quatro momentos.
 
 
 
 
FICHA TÉCNICA
 
Texto:  Jô Bilac
Direção: Inez Viana
Assistente de Direção: Marta Paret
Direção de Produção: Claudia Marques - Fábrica de Eventos
 
ELENCO (em ordem alfabética): CIA OMONDÉ: CAROLINA PISMEL / STAND-IN KARINA RAMIL (SUZANINHA), DÉBORA LAMM (MARÍM), IANO SALOMÃO (ARGOS), JÉFFERSON SCHROEDER (JUANITO), JULIANE BODINI (SÂNGELA), JÚNIOR DANTAS (FERNANDO CHEVAL), LEONARDO BRÍCIO (HENRIQUE), LUÍS ANTÔNIO FORTES (JÚNIOR) E ZÉ WENDELL (PITIL).
 
Cenário: Mina Quental (Atelier Na Glória)
Iluminação: Renato Machado e Ana Luzia de Simoni
Figurino: Flávio Souza
Direção Musical: Marcelo Alonso Neves
Direção de Movimento: Dani Amorim
Visagismo: Márcio Mello
Produtores Executivos: Rafael Faustini e Jéssica Santiago
Assistente de Produção: Maíra Zago
Programação Visual: Felipe Braga
Fotos de Divulgação: Elisa Mendes e Cabéra
Fotos Para Material Gráfico: Nana Moraes
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
 
 
 
 
Os amantes se beijam em pleno voo.
 
 
 
SERVIÇO:
 
Local: Teatro Sesc Ginástico.  Av. Graça Aranha 187, Centro do Rio de Janeiro.
Tel. 2279-4027
Capacidade de público: 513 lugares
Temporada: De 10 de abril a 17 de maio/2015.  De 5ª feira a domingo, às 19h.
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 80 minutos
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 5,00 (associado do Sesc)
Gênero: Drama