sexta-feira, 7 de junho de 2024

 

“32º FESTIVAL DE CURITIBA”

“SAGRAÇÃO”

ou

(NÃO TINHA 

NEM ROUPA

PARA ASSISTIR A

ESTE ESPETÁCULO,

MAS FUI E ME SENTI

“CON‘SAGRADO’”.)

 



         Sou um amante de dança, em qualquer de suas manifestações - clássica, popular, folclórica... -, mas um zero à esquerda no que diz respeito a entender do assunto. Quando assisto a um espetáculo coreográfico, só me deixo emocionar pelo que vejo no geral, pela beleza estética, que enchem meus olhos e os tornam encharcados, quando se trata de uma “OBRA-PRIMA”, sem querer nem tentar saber se tal técnica foi executada “comme il fault” ou não, se tal detalhe está correto ou não; nem entendo, às vezes, uma narrativa, ou parte dela, que é contada apenas por movimentos; a história pode até passar ao largo, porém as imagens ficam, indeléveis. Terminada, todavia, a apresentação, curiosamente, expresso meu sentimento por meio do meu corpo. O exterior reflete o que me vai na alma. Quanto mais leve me sinto, “flutuando nas nuvens”, é sinal de que mais me deixei tocar pelo me foi oferecido. Deixo o local onde o espetáculo foi apresentado em estado eufórico, via de regra, com a sensação de ter perdido alguns quilos. Raríssimas vezes deixei de gostar de algum espetáculo de dança. E, em algumas ocasiões, a alegria é tamanha, que, como diz a letra de Zeca Baleiro, na canção “Telegrama”, de 2002, sinto “...uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar ‘bom dia’, de beijar o português da padaria.”.

 

 



  Foi assim que cumpri o pequeno percurso do Teatro Guaíra ao meu hotel, naquela noite de 07 de abril passado (2024), último dia do “32º Festival de Curitiba”. Poderia até chover, naquele momento, que baixaria em mim o espírito de Gene Kelly e eu dançaria, ao som de “Singin’ in the Rain”. Mas não dancei, de verdade, por falta de condições físicas; por fora, porque, por dentro, fui saltitando para o meu quarto. E tive que esperar, pacientemente, o nível de adrenalina ganhar proporções normais, para conseguir dormir. O espetáculo que eu acabara de aplaudir, até ficar com as palmas das mãos vermelhas e doloridas, havia estreado dias antes, no Rio de Janeiro, mas apenas com meia dúzia de apresentações, no Theatro Municipal, uma espécie de “esquenta” (A partir da próxima semana, estará em cartaz em São Paulo, no Teatro Santander.), mas eu estava viajando, se não me engano. Alguma coisa me impediu de assistir à montagem logo na sua estreia carioca.



 


         Não tenho o hábito de escrever sobre espetáculos de dança, como um crítico, que não sou, entretanto, como um espectador privilegiado, não perco nada de bom, em se tratando de dança e, sendo assim, jamais poderia deixar de assistir – e escrever sobre (a) - à mais recente obra da “COMPANHIA DE DANÇA DEBORAH COLKER”, “SAGRAÇÃO”, criada a partir do clássico “Sagração da Primavera” (“Le Sacre du Printemps”, no original francês), a bela partitura escrita pelo compositor, pianista, e maestro russo Igor Stravinsky, considerado, por muitos, um dos compositores mais importantes e influentes do século XX. O balé foi coreografado, pela primeira vez, por Vaslav Nijinsk, para a companhia "Ballets Russes", tendo estreado Théâtre Champs- Elysées, de Paris, em 29 de maio de 1913. Feitas essas considerações, peço-lhes que não tomem por uma “crítica” estes escritos, mas, sim, espero que os recebam como uma apreciação de alguém que se encantou pelo balé. O espetáculo encerra uma trilogia, iniciada por “Cão sem Plumas” (2017), seguida de “Cura” (2021).

 

 



 O balé nos chega para comemorar os 30 anos de atividades ininterruptas, apenas com o hiato compulsório, imposto pela pandemia de COVID-19, da consagrada “COMPANHIA DE DANÇA DEBORAH COLKER” e traz, como importante inovação, um desafio muito grande e uma estupenda ideia de mesclar a música clássica de Stravinski com ritmos brasileiros, inspirados por visões ancestrais sobre a origem do mundo. Esse amálgama é fascinante.

 

 


 

SINOPSE:

O enredo nos conduz por um caminho sinuoso, entrelaçando mitos antigos com eventos históricos significativos.

Criado a partir do clássico “A Sagração da Primavera”, o espetáculo adiciona sons e ritmos brasileiros à partitura de Igor Stravinsky e conta, com a energia, vigor e originalidade da linguagem que DEBORAH COLKER desenvolve desde o início da companhia (1994).

Em único ato, “SAGRAÇÃO” mergulha numa reflexão sobre nossa origem, evolução e continuidade no planeta Terra.

A encenação tem início com a evocação da “avó do mundo”, figura venerada em algumas culturas indígenas.

Logo em seguida, a proposta do espetáculo mergulha em um universo microscópico, passando por bactérias e criaturas primitivas, até alcançar a descoberta do fogo.

No meio dessa linha do tempo complexa, surge Abraão, em um barco, não apenas como um viajante comum, mas como um símbolo de fé e coragem.

No entanto, em vez de seguir uma narrativa convencional sobre as origens, somos confrontados com a representação de uma Eva negra, uma provocação intelectual proposta pelo rabino Nilton Bonder, dramaturgo, que desafia as convenções estabelecidas.

 

 


 

       Por achar que Stravinsky pensou (na) e escreveu “A Sagração da Primavera” como “uma obra para ser dançada”, montar o balé era um sonho antigo, acalentado pela consagrada bailarina e coreógrafa, responsável por uma das melhores companhias de dança do Brasil, não ficando, a meu juízo, nada a dever às grandes companhias internacionais. DEBORAH viu chegar o momento de concretizar seu desejo, depois de uma viagem ao Xingu, durante o ritual do Kuarup, que ocorre sempre um ano após a morte dos parentes indígenas. Nele, troncos de madeira representam cada homenageado e são colocados no centro do pátio da aldeia, ornamentados, como ponto principal de todo o ritual. Em torno deles, a família faz uma homenagem aos mortos, uma “sagração”. Foi na presença da cultura das aldeias indígenas Kalapalo e Kuikuro, que COLKER teve contato direto com músicas, danças, lutas, pinturas e histórias indígenas, elementos que foram fundamentais para a criação deste balé, cujo desenvolvimento se deu em dois anos e meio de um árduo trabalho de pesquisa e dedicação.

 

 


 

 

     Além do Xingu, a coreógrafa também esteve no Maranhão e, nesses dois lugares, buscou referências nos elementos da floresta e na nossa ancestralidade. DEBORAH estudou, a fundo, a obra do artista russo, para realizar a sua, a qual ela idealizava ser “uma ‘SAGRAÇÃO’ do ponto de vista do Brasil, da nossa floresta, da nossa sonoridade”, como ela mesma disse, durante uma entrevista coletiva, concedida a profissionais da imprensa que cobriam o “32º Festival de Curitiba”, na manhã do dia 06 de abril (2024). Eu estava lá. E, quando lhe perguntaram o que o público do “Festival” poderia esperar do seu trabalho, ela respondeu: “Uma composição incrível do Stravinsky com bordados da nossa sonoridade brasileira.”. E cumpriu a promessa.

 

 


 

 

          Tudo, ABSOLUTAMENTE TUDO, é destaque nesta obra, a começar pela ideia de realização do balé, que conta com uma instigante dramaturgia do rabino e escritor NILTON BONDER, originalíssima, a qual, dentro da concepção da coreógrafa, traz mitos e teorias “que refletem sobre a existência da vida no planeta”. Nela, cabe um espaço para a “avó do mundo”, personagem importante para os povos originários, que traz a luz para a Terra, representando, também, o mito da origem do fogo, não faltando um lugar para mitos bíblicos, como Abraão e Eva, esta totalmente subvertendo a ordem estabelecida, por ser negra e “transgressora”. Mas o a essência e o espírito irrequietos de DEBORAH não param aí, e ela põe em cena referências científicas, representadas por bactérias, herbívoros e quadrúpedes. Tudo cabe neste balé.

 

 


 

        A música, em “SAGRAÇÃO”, é, simplesmente, fascinante, criada pelo diretor musical ALEXANDRE ELIAS, que acrescentou, à partitura original, ritmos brasileiros, sons das florestas e sonoridades, criando timbres genuinamente em tons verde-amarelos, como o Boi Bumbá, o coco, o afoxé e o samba. À sonoridade dos instrumentos utilizados no todo original, ELIAS agregou, à parte musical, instrumentos artesanais e acústicos, como flauta de madeira, maracá, caxixi e tambores, tão utilizados na “música dos primitivos povos brasileiros”, assim como os “paus de chuva”, estes executados, ao vivo, pelos próprios bailarinos. Além dos elementos musicais, ALEXANDRE também utiliza, em sua trilha sonora, sons de animais, trechos unicamente com percussão e, até mesmo, uma curta fala numa língua indígena.

 

 

 

 

 

             Amigo e fiel colaborador de DEBORAH COLKER, GRINGO CARDIA, que sempre faz parte da FICHA TÉCNICA dos trabalhos da “COMPANHIA”, criou um cenário que nos leva ao delírio. Talvez inspirada pelo troncos de árvores utilizados na cerimônia do Kuarup, DEBORAH, que pensa alto e para quem não há desafios que ela não tope enfrentar, imaginou utilizar bambus, uma planta de origem asiática, mas também presente na flora brasileira. E eles estão em cena, cerca de 170, com 4m de altura cada. O cenário de GRINGO, que também assina a direção de arte do espetáculo, pode, facilmente, estar ligado à ideia das florestas brasileiras. É extremamente interessante perceber que o conjunto dos bambus, habilmente manuseados pelos bailarinos, se metamorfoseiam em vários elementos, como barcos, ocas, florestas, lanças, chão e céu, aguçando, sobremaneira, a imaginação do público.

 

 

 

 


   Outra parte que ganha relevo nesta obra são os figurinos, criados por CLAUDIA KOPKE, em seu terceiro trabalho na trilogia “Cão sem Plumas”/“Cura”/“Sagração”. As ideias para o desenho das vestimentas utilizadas pelo elenco surgiram durante as frequentes visitas da figurinista à sala de ensaios do balé e foram surgindo em consequência de observações, pesquisa e várias conversas com a coreógrafa.  Segundo um depoimento de CLAUDIA, suas peças são “bastante orgânicas e a execução do figurino de ‘SAGRAÇÃO’ foi feita artesanalmente, sendo grande parte confeccionada a mão”, o que, na minha compreensão, valoriza muito mais seu trabalho criativo. Peças são somadas às “segundas peles” que os bailarinos usam em todas as cenas, diferentes umas das outras, com pinturas que têm a ver com cada situação.

 

 

 

 

 

E o que dizer da iluminação do espetáculo? Faltam-me palavras para descrever a exuberância deste trabalho, pensado e criado pelo “mestre dos mestres”, o premiadíssimo, BETO BRUEL. Como uma rica embalagem para um presente muito valioso, BETO “embrulha”, com sua luz mágica e estupendamente linda, tudo o que há no palco. Por sugestão do próprio, a mim feita, pessoalmente, alguns dias antes, fiz questão de assistir ao espetáculo de um dos balcões do gigantesco Teatro Guaíra (2167 lugares), para poder observar melhor os desenhos que a luz faz no piso do palco. É, simplesmente, deslumbrante!!! Quem assiste da plateia só “saboreia o prato principal”, em termos de iluminação, o que já é um “manjar dos deuses”, entretanto que tem, como eu tive, a oportunidade de ver de cima vai “degustar entrada, prato principal e sobremesa, com direito a um bom vinho, para harmonizar o banquete”.  

 

 



 

(Debora Colker e Beto Bruel.)

 

           Como não entendo do assunto, considero-me incompetente e incapaz, para avaliar, tecnicamente, o trabalho de DEBORAH. Basta, porém, dizer que tudo em que ela pensou, em se tratando de desenho coreográfico, é lindo, original, criativo, surpreendente, misturando movimentos e posições que, ora remetem a acrobacias circenses, ora a números de ginástica rítmica. Alguns deslocamentos dos seus bailarinos, pelo palco, lembram, um pouco, o dos povos originários na execução do Kuarup. DEBORAH COLKER não é, simplesmente uma magnífica bailarina e coreógrafa; ELA É UM “ACONTECIMENTO”, NO MUNDO DA DANÇA, PARA SER “SAGRADA” NÃO NUM ALTAR, MAS, SIM, EM QUALQUER PALCO DESTE PLANETA. DÉBORA É PARA SER CONTEMPLADA!!! Como costumam dizer os amigos baianos, “Ela não nasceu; estreou.”.

 

 


 

  A coreógrafa nos conta a trajetória humana por meio de 14 passos, 14 cenas, a saber: Avó do Mundo”; “Bactérias”Herbívoros”; “Quadrúpedes”Caça e Origem do Fogo”; “AbraãoO Viajante”; “Serpentes e Parto”; “Eva e Serpentes”Reconhecimento do Corpo”; “Agricultura”Conflito”Avó do Mundo”; “Destruição”; e “Sonho”. Tudo isso é dançado por 15 exímios bailarinos (Em ordem alfabética.): Alexsander Costa, Ana Livia Costta, Ana Silva, Angélica Bueno, Diego Endrigo, Jáde, Jean Valber, Jey Santos, Luan Batista, Marta Batista, Olivia Pureza, Paulo Wesley,  Phelipe Alves e Yasmin Mattos, além da estagiária SOFIA CAMARGO. O trabalho corporal deles desafia, até mesmo, as leis da Física. Além de terem que dançar, tiveram que aprender a manusear bambus e circular no meio deles, dando a impressão, em certos momentos, de se confundirem com estes. Na execução do que foi proposto por DEBORAH, em conjunto ou individualmente, eles nos hipnotizam de tal forma, que não conseguimos piscar, desviar os olhos de seus movimentos.

 

 

 

 

FICHA TÉCNICA (Completa):

 

Criação, Coreografia e Direção Artística: Deborah Colker

Direção Executiva: João Elias

 


Elenco (Bailarinos) (Em ordem alfabética.): Alexsander Costa, Ana Livia Costta, Ana Silva, Angélica Bueno, Diego Endrigo, Jáde, Jean Valber, Jey Santos, Luan Batista, Marta Batista, Olivia Pureza, Paulo Wesley,  Phelipe Alves e Yasmin Mattos

 

Estagiária: Sofia Camargo


Dramaturgia: Nilton Bonder​

Direção Musical: Alexandre Elias 

Direção de Arte e Cenografia: Gringo Cardia​

Figurinos: Claudia Kopke

Desenho de Luz: Beto Bruel​

 

Assistente de Direção e Coreografia: Mozart Mizuyama e Karina Mendes

Consultoria: Takumã Kuikuro e Angela Pappiani 

“Design” e Comunicação: Peu Fulgêncio

Fotografia: Flávio Colker (Fotógrafo Oficial da Companhia) e Humberto Araújo (Fotógrafo Oficial do Festival de Curitiba.)

Vídeos: Paulo Severo

Direção de Produção: Henrique Botkay

Gestão de Projetos: Carolina Tavares

Produção Internacional: Maria Rita Stumpf 

Financeiro e Administrativo: Miriam Furtado

Direção de Palco: Thiago Merij

Operador de Luz: Rodrigo Maciel

Cenógrafa Assistente: Renata Pittigliani

Figurinista Assistente: Julia Murakami 

Camareiro: José Alexandre Damasceno 

“Social Media”: Julia Pareto

Produção de Textos: Ventuna Digital + Rafael Ventuna + Bianca Damacena 

“Sound Designer”: Rossini Maltoni

 Assistente de Produção: Stephanie Miranda

Assistente de Iluminação: Rodrigo Maciel

Assistente de Figurino: Bernardo Gomes

Maquinista: Gilmar Rodrigues

Assistente Administrativo: Romário Souza

Arquivo e Enquadramentos de Projetos: Israel Oliveira

Manutenção: Isaías Lago Bastos

Consultoria Jurídica: Felipe Santa Cruz Advogados, Ernesto Paulozzi Jr. Advogados Associados 

Cenotecnia: Wilker Barros e Gilmar Rodrigues

Confecção e Modelagem: Ateliê Fátima Leo 

Crocheteira: Adriana Senna (“Dandi Crochê”)

Adereços: Arassari Patxon Pataxó

Maquinária Rede: Movecargas Equipamentos Industriais 

Consultoria Bambus: Mario Seixas – “Bambutec Design”

Confecção Bambus: Bambu Neves

Costura Rede: Nice Tramontin

Pintura de Arte: Equipe Clécio Régis Pintura de Arte

Bambu Iluminado: Equipe Leandro Assis, Le Arte Cenografia

Suportes Bambus: Camuflagem Cenografia 

Assessoria de Comunicação: Vanessa Cardoso - Factoria Comunicação 

Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti

Realização: Je Produções Ltda

 

 



         Um “batalhão” de profissionais (artistas e técnicos) se esmeraram, dando o melhor de si, para criar uma OBRA-PRIMA, uma verdadeira apoteose cênica, da primeira à última cena, um “canto de louvor” às nossas ancestralidades, por meio de rituais puramente brasileiros. Se me fosse perguntado o que mais me impactou neste balé, a resposta não poderia ser outra: TUDO, ABSOLUTAMENTE TUDO!!!.


 

 

           No léxico da língua portuguesa, “sagração” significa ato ou efeito de sagrar rei, bispo etc., em cerimônia religiosa; a própria cerimônia”. O substantivo feminino é formado, por processo de derivação sufixal, do verbo “sagrar”, o mesmo que “dedicar(se), consagrar(se)”. Nesta obra, ouso ampliar seu sentido para “tornar sagrado”. Na concretização de seu sonho, DEBORA COLKER levou o que há de mais “sagrado” da nossa cultura para um palco, valorizou o indígena brasileiro e “lacrou” (A escolha do verbo “lacrar” faz com que eu me sinta mais jovem, aos 74 anos de idade. Momento descontração.).

 

 

 

           De tão “formidável” – adjetivo do qual me aproprio, para homenagear duas figuras de ponta do TEATRO BRASILEIRO, uma que fazia e outra que, felizmente, ainda faz uso abundantemente dele, Nelson Rodrigues e Dona Fernanda Montenegro -, o espetáculo dura justos 70 minutos, os quais passam, como se fossem 7 e que, se durasse 7 horas, passariam como se fossem 70 minutos.

 

 


         Depois de tudo quanto escrevi, saído do fundo do meu coração, ninguém ousaria me perguntar se gostei do balé e se o recomendo. Para quem tiver essa coragem, a minha resposta será: Julgue você mesmo! Já espero, ansioso, por uma temporada anunciada no Rio de janeiro, a ser levada em cartaz de 19 de julho a 10 de agosto (curta, a meu ver), na Cidade das Artes.



 

FOTOS: FLÁVIO COLKER (oficial)

e

HUMBERTO ARAÚJO (Festival de Curitiba).

 

 

 

 

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segunda-feira, 3 de junho de 2024

 “O VAZIO NA MALA”

ou

(A ARTE 

NÃO IMITA A VIDA;

A ARTE É A 

PRÓPRIA VIDA.)

ou

(VAZIO “NA” OU “DA”?)

 

 

           Os que me leem com uma certa frequência sabem que tenho o hábito de ir a São Paulo, a cada dois meses, em média, para assistir a espetáculos teatrais que não têm nenhuma ou pouca chance de vir para o Rio de Janeiro. E, para aproveitar a viagem, assisto a dois espetáculos no sábado e dois no domingo (Vou sempre numa 5ª feira e retorno a casa na 2ª, assistindo a seis espetáculos; às vezes sete.). É sempre um musical à tarde, leve e divertido, em geral, e, à noite, estendo o prazer a outro musical ou, em algumas ocasiões, o segundo é um TEATRO declamado, COMÉDIA ou drama, sempre voltado ao lazer, mas nem sempre, e ao divertimento. Na minha mais recente visita à capital paulista, há, exatamente, um mês, fiz algo que venho fazendo, há 11 anos, ou seja, ver alguma coisa em cartaz no teatro SESI-SP, desde quando lá assisti ao musical “A Madrinha Embriagada” (2013), uma excelente COMÉDIA, o primeiro de um projeto que oferece TEATRO da melhor qualidade com ingressos gratuitos. Desta vez, foi um drama: "O VAZIO NA MALA"

 

 


 

 

SINOPSE:

A trama, inspirada em eventos reais, leva o público a acompanhar a saga de uma família que escapou do Holocausto, atravessando a China, até chegar ao Brasil, em 1941

Em uma mistura de realidade e ficção, o espetáculo inédito traz à tona os segredos de uma família que sobreviveu a um dos maiores flagelos que assolaram a humanidade: a Segunda Guerra Mundial.

Em “O VAZIO NA MALA”, Samuel (EMÍLIO DE MELLO), jornalista de guerra, retorna ao Brasil, em 2005, para vender o apartamento dos pais, fechado desde a morte deles, havia mais de 5 anos.

Ao acessar, porém, as lembranças e objetos familiares, ele se depara com profundos conflitos e dolorosos segredos.

A avó, Esther (NOEMI MARINHO), guarda uma mala, fechada, com relatos e documentos da fuga da Alemanha nazista.

Em meio a revelações sobre o passado violento de seu pai, Franz (FÁBIO HERFORD), a cuidadora Ruth (DINAH FELDMAN) surge como elo de afeto e uma força propulsora do encontro entre Samuel e Esther, além das transformações necessárias a cada um.

 

 





 

         Se procura apenas se distrair num Teatro, a ARTE como mera forma de lazer, passe pela calçada oposta ao do icônico endereço Avenida Paulista, nº 1313, porém se está à busca de um TEATRO da melhor qualidade, que aborda um tema pesado, triste e que, sem muito esforço, mexe com o coração e alma das pessoas sensíveis e empáticas, é lá mesmo o lugar aonde você deve ir, porque vai assistir a uma peça que o leva a se lembrar de alguma história parecida que já lhe tenha chegado, num espetáculo cheio de verdade, dura e crua, uma ficção, sim, mas inspirada em eventos reais, explorando temas universais, como família, ciclos e a busca por significado, por uma identidade; pela razão da vida, em suma. O espectador entra em contato com temas “satélites” profundos, como o impacto do silêncio nas relações familiares e na sociedade, revelando como o afeto pode curar algumas feridas.




         Uma “MALA”, presente no título do texto, e símbolo central do espetáculo, via de regra, remete à ideia de algo que se presta a guardar objetos, os mais variados, mormente roupas, numa viagem, mas, simbolicamente, como nesta peça, ela também acumula e preserva o silêncio que testemunhou os pavores enfrentados por uma família judia, ante o horror praticado pelo cruel e monstruoso nazista Adolf Hitler e seus asseclas. “A exploração do vazio contido na mala revela uma história repleta de significado e emoção”.

 

 

 

       Além da, sempre, pertinente abordagem do tema, sinto que a grande originalidade do texto é tratar de um assunto denso ao extremo de uma forma linear, de fácil assimilação para um público “comum”, com diálogos expressivos, muito bem construídos, e, por incrível que possa parecer, sem causar confusão na cabeça dos menos “esclarecidos”, na utilização dos vários “flashbacks”. Ademais, é fabulosa a arquitetura dramática, que leva o público a acompanhar, num crescendo, as ações, as quais vão gerando um clima de suspense, capaz de manter uma plateia de 250 pessoas em silêncio sepulcral, acompanhando, “pari passu” tudo, na expectativa de um clímax, seja ele qual for. Destarte, só posso congratular NANNA DE CASTRO, pelo belo texto, uma rica dramaturgia.

 

 

 

 

       Numa montagem como esta, em que o texto, a direção e o elenco, praticamente, se bastariam, os elementos de apoio poderiam até ficar num plano inferior, contudo a produção é muito bem cuidada e se cercou de profissionais criativos e competentes, os quais só fizeram somar valores substanciais à ótima qualidade do espetáculo. Uma dessas pessoas é MÁRCIO MEDINA, que, na cenografia, houve por bem dividir o espaço cênico em dois setores, um servindo de “set” para as ações presentes e outro para as que estão na memória e são representadas na forma de lembranças, recordações, mergulho no passado. O artista utiliza poucos elementos cenográficos, todos, porém, de apurada escolha. Entre os dois espaço, um “VAZIO”, destinado à “MALA”, ao final da peça, a qual continha um/o “VAZIO”.


 


 

            Por oportuno, pinço o título da peça, para, talvez, divagar um pouco nele, o que, para mim, pelo menos neste momento, não me parece bobagem, tempo perdido. Inclusive, no último subtítulo destes escritos, já fiz alusão àquilo sobre o que passo a discorrer. “NA” remete à ideia de “contenção”, aquilo que “está contido, guardado em, dentro de”. “DA” encaminha-nos a um conceito que pode sugerir a consequência do que aquilo que ela guarda pode causar em vidas já “vazias”, quer o percebam, ou não, as pessoas envolvidas no drama.  

 

 

 

 

 

         JOÃO PIMENTA, um figurinista premiado, reconhecido por uma de suas digitais, que é o bom gosto, criou trajes elegantes e totalmente em afinidade com os personagens. Seu trabalho ganha, ainda, maior relevo, porque é reforçado pelo ótimo visagismo, assinado por LOUISE HELÈNE, para a composição exterior dos personagens.

 

 

         O espetáculo ganhou uma luz muito bem desenhada por WAGNER PINTO, a qual me pareceu bem em consonância com a proposta geral do espetáculo e, em particular, de cada cena. Uma luz ajustada à carga de emoção que envolve cada diálogo. Uma luz adequada para emoldurar cada momento de maior ou menor tensão.

  

 

         Julgo ter sido bastante feliz GREGORY SLIVAR, na escolha das músicas e na concepção sonora do espetáculo. Esse elemento colabora muito na criação do clima requerido por cada cena. Às vezes, o silêncio é o melhor som.

 

 

          A pujança do texto ajuda a direção, até mesmo, a ser econômica, nas ideias e marcações, colocando sua generosidade a serviço de um destaque para o dramaturgo. Creio que foi assim que trabalhou KIKO MARQUES, extraindo o melhor que cada um do seu quarteto de intérpretes tinha a oferecer, guiando-os a uma interpretação bem realista e comovente. O âmago do texto e o que ele pode causar de dano ao espírito humano poderiam fazer deste espetáculo uma obra arrastada, monótona, entretanto o talento do diretor e o peso justo de sua mão são responsáveis por uma condução incapaz de fazer com que o espectador possa não se interessar pelo que vê e ouve, vindo do palco.

 

 



            Em qualquer premiação de TEATRO em que haja uma categoria que vise a valorizar a homogeneidade de um elenco, a integração de todos em prol de um objetivo único, uma boa representação, certamente, o quarteto que protagoniza esta peça, formado por DINAH FELDMAN, EMÍLIO DE MELLO, FÁBIO HERFORD e NOEMI MARINHO deveria ser nomeado. Tecnicamente falando, o protagonismo recai sobre neto e avó, não necessariamente nessa ordem, entretanto o envolvimento dos quatro personagens na trama e a atuação de todos fazem com que a mesma intensidade de luz e quantidade de refletores, a meu juízo, ilumine cada um deles igualmente. Além de parabenizar DINA FELDMAN, por seu trabalho de interpretação, aplaudo-a de pé pela idealização e concepoção do projeto e, mais ainda, pela coragem de trazer à tona uma temática tão provocativa e que, por isso mesmo, merece sempre estar em evidência. Fiquei feliz por ter tido a oportunidade meio rara, para mim, de rever, em cena, uma dupla que tanto admiro: um ator do quilate de EMÍLIO DE MELLO, impecável na sua composição, e NOEMI MARINHO, uma dama do TEATRO, interpretando, com tanta dignidade, firmeza e elegância sua personagem. Quanto a FÁBIO HERFORD, se a minha memória não me trai, creio só tê-lo visto em cena em apenas um espetáculo, além deste, e também muito me agradou sua atuação.

 

 


 

 

FICHA TÉCNICA: 

Idealização e Concepção: Dinah Feldman

Texto: Nanna de Castro  

Direção: Kiko Marques  


Elenco: Dinah Feldman, Emílio de Mello, Fábio Herford e Noemi Marinho

 

Cenografia: Márcio Medina  

Figurino: João Pimenta

Desenho de Luz: Wagner Pinto 

Visagismo: Louise Helène  

Música e Concepção Sonora: Gregory Slivar  

Assistência de Direção: Matilde Mateus Menezes

Assistentes de Iluminação: Gabriel Greghi e Gabriela Cezario  

Assistência de Desenho de Som e Operação: Edézio Aragão  

Microfonista: Adriana lima 

Direção de Imagem e “Videomapping”: André Grynwask e Pri Argoud (Um Cafofo)

“Designer” Gráfico: Murilo Thaveira  

Assessoria de Imprensa: Arteplural - Fernanda Teixeira

Mídias Sociais: Foyer - Isabel Branquinha e Pedro Amaral

Cenotecnia: Sergio Sasso  

Contrarregras: Sergio Sasso e Guilherme Alves  

Camareira: Angela Lima

Fotos: João Caldas Fº  

Filmagem da Peça: Bruno Favery - Favo Produções Cinematográficas  

Assessoria Contábil: Central Contábil  

Assessoria Jurídica: Myrna Malanconi

Assistente de Produção: Alice Mogadouro  

Produção Executiva: Vivian Vineyard  

Coordenação de Projeto: Dinah Feldman  

Direção de Produção: Marcela Horta  

Realização: SESI-SP e CULTURAS EM MOVIMENTO

 


 


 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 21 de março a 30 de junho de 2024.

Local: Teatro do Sesi-SP (Centro Cultural Fiesp Ruth Cardoso).  
Endereço: Avenida Paulista, nº 1313, Bela Vista - São Paulo (Centro Cultural FIESP - Em frente à estação Metrô Trianon-MASP).
Dias e Horários: De quinta-feira a sábado, às 20h; aos domingos, às 19h. 
Acessibilidade: Sessões com interpretação em Libras e audiodescrição, aos sábados e domingos.
Valor dos Ingressos: GRATUITOS.
Reservas antecipadas pelo site: 
sesisp.org.br/eventos (As reservas abrem todas as segundas-feiras, a partir das 8h, para as apresentações que acontecem na mesma semana. Verifique a disponibilidade.)
Capacidade do Teatro: 250 lugares.

Duração: 90 minutos.

Classificação Indicativa: 14 anos.

Gênero: Drama.
Mais Informações:
centroculturalfiesp.com.br.

 

 

 


 

           Não tenham a menor dúvida de que “O VAZIO NA MALA” garante, ao espectador, muita emoção, provocando-lhe reflexões sobre memória, história e conexões humanas. E como há coisas escondidas e quase sepultadas no nosso interior que precisam aflorar, para que possamos expurgar dores e tentar melhorar como seres humanos! A peça nos mostra as relações estabelecidas pelo silêncio e apagamento na família e na sociedade, todavia também revela como o afeto pode regenerar feridas e se manifestar de maneiras inusitadas.

 

 


Louvo, com bastante entusiasmo, a proposta do Sesi-SP, por seus 60 anos de tradição cultural, continuando a oferecer uma programação diversa e gratuita, proporcionando, ao público, sem qualquer tipo de distinção ou discriminação, experiências enriquecedoras, como “O VAZIO NA MALA”.

 

 

 

 

 

 

FOTOS: JOÃO CALDAS Fº

 

 

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