“CARMEM”
OU
(UMA CARMEM DIFERENTE,
COM ‘M’ NO FINAL,
E BASTANTE MOLHO
BRASILEIRO
E LATINO.)
Começo
por dizer que, a despeito de adorar a arte da dança, como mero espectador
apenas, sem o menor conhecimento técnico do assunto, não me sustento como
crítico de dança nem me arvoro a tal pretensão, o que me leva a pedir,
aos meus leitores, que não considerem estes escritos como uma crítica
profissional. São apenas palavras com as quais posso tentar passar a
emoção que tomou conta de mim, no último domingo (15 de março de 2026),
quando, atendendo a um generoso convite de LIÈGE MONTEIRO e LUIZ
FERNANDO COUTINHO (assessoria de imprensa), fui ao Teatro
Municipal Carlos Gomes, no Centro do Rio de Janeiro,
para assistir ao espetáculo de dança “CARMEM”, apresentado pela “Cia
de Dança Thiago Soares”. Foi um dos mais agradáveis finais de tarde que
já experimentei.
O
programa é baseado numa obra de outro gênero artístico, a ópera. Uma
das mais lindas e festejadas obras do repertório operístico, com algumas árias
que se tornaram quase populares, é “Carmen”, de Georges
Bizet, compositor francês, em quatro atos, escrita no final do século XIX
(1875). Era um sonho antigo do grande bailarino e coreógrafo THIAGO
SOARES criar um espetáculo de dança sobre a trágica história de amor
entre uma cigana e um cabo do exército espanhol.
SINOPSE
(do original):
Ambientada em Sevilha, Espanha, no século
XIX, a ópera conta a história de Carmen, uma cigana
impetuosa e sedutora, “perigosamente livre” e indomável, que
trabalha em uma fábrica de cigarros e preza sua liberdade acima de tudo.
Ela seduz Dom José, um cabo do exército, romântico,
apaixonado e ingênuo, fazendo-o abandonar sua namorada de infância, Micaela,
e sua carreira militar, por amor.
Envolvido com o contrabando, por causa de Carmen, Dom
José se torna obcecado e possessivo, enquanto ela, seguindo sua
natureza livre, perde o interesse e se apaixona pelo toureiro Escamillo.
Incapaz de aceitar a rejeição e a independência de Carmen,
Dom José a confronta na saída de uma arena de touros.
Carmen, que se recusa a negociar sua autonomia e luta contra a opressão
passional, prefere a morte a se submeter ao amor possessivo de um homem, sendo
assassinada por Don José.
Como
temas principais, a obra contempla o amor, o ciúme,
a obsessão, a liberdade e a tragédia.
Trata-se o balé de uma releitura do original, combinando a ópera de Bizet
com elementos brasileiros e latinos, misturando neoclássico, danças urbanas e
populares – a energia das ruas, como o “breaking”, lembrando a origem do
coreógrafo - e acrobacias. O espetáculo foca na autonomia feminina, numa
genial junção da dança com o TEATRO, proposta que já marcou a primeira
montagem da jovem companhia, “Gala Brusco”. “CARMEM” é a
segunda produção, tão linda e significativa quanto a anterior.
Nesta
montagem, “CARMEM” é ambientada na América Latina e a
personagem-título tem características brasileiras. Na nova leitura de THIAGO
SOARES, o ator NELSON FREITAS, assume, com segurança e marcante
presença de palco, o papel de Narrador, apresentando a obra e ligando
cenas. É ele uma figura enigmática, que conduz a plateia pelos acontecimentos,
e que, para alguns, representa o touro, a força instintiva que ronda o destino
dos personagens. No lugar de um toureiro, THIAGO nos apresenta um vaqueiro,
típico personagem do interior do Brasil, representado pelo
bailarino JOÃO VICTOR, enquanto a protagonista é vivida por GABRIELA
MENDEZ. Tecnicamente, não tenho competência para aquilatar o trabalho dos bailarinos,
entretanto, na pele de um espectador sensível e exigente, senti-me, excessivamente,
sensibilizado e emocionado com a execução das coreografias traçadas por THIAGO
SOARES. A propósito, os “deuses da dança”, já que existem os “do
TEATRO”, me privilegiaram com o que jamais esperava que acontecesse naquele
fim de tarde de domingo. O bailarino turco ALIJAN GÜÇOĞLU, coprotagonista
e titular do papel de Dom José, foi substituído pelo próprio THIAGO
SAOARES, o que jamais esquecerei. É sublime vê-lo no palco e acabei
deixando o Teatro em total estado de graça.
Influenciado
pela história original, THIAGO usa a sua experiência internacional, como
primeiro bailarino do “Royal Ballet der Londres”, e constrói uma Carmem a qual reafirma a força da
mulher que se recusa a negociar sua liberdade. Mais do que um drama passional,
o espetáculo mergulha no veneno do ciúme, na opressão que atravessa relações e
na luta íntima por autonomia. A personagem surge sensual, magnética, indomável
e perigosamente livre. Sob esse aspecto, considero o espetáculo muito mais que
pertinente, já que, infelizmente, estamos passando por uma violenta onda de
feminicídios, num momento em que as mulheres exigem seu protagonismo na
sociedade. Mulher é o que deseja ser; onde e quando o deseja. Assim tem que ser, a despeito dos homens fracos e covardes, que
não se conformam com o fim dos relacionamentos.
Nesta
versão, THIAGO SOARES reafirma sua assinatura artística e a linguagem de
sua companhia carioca, com rigor técnico, teatralidade e uma leitura que
aproxima o clássico ao nosso tempo e à nossa identidade brasileira. Sua
proposta estética cria um vocabulário corporal potente e contemporâneo. “A
teatralidade atravessa a dança e transforma o espaço cênico em território de
afirmação, onde tradição e presente se encontram.”. Embora eu tenha tido
um enorme apreço pelo espetáculo, sugiro ao THIAGO ter, ao pé de si, um profissional de direção
de TEATRO, para auxiliá-lo no que diz respeito à representação teatral.
FICHA
TÉCNICA:
Idealização:
Thiago Soares
Coreografia:
Thiago Soares
Direção:
Thiago Soares
Música:
Georges Bizet e Franz Liszt
Elenco:
Cia.
de Dança Thiago Soares: Gabriela Mendez (Carmem), Cecília Almeida, Jéssica Ramos, Maria Rianelli, Déborah Simonian,
Laura Vieira, Mariana Fialho, João Victor (Vaqueiro) e Guilherme Saab
Ator
convidado: Nelson Freitas (Narrador)
Bailarinos
convidados: Alijan Güçoğlu (Dom José), Antônio Júlio, Mikael David, João Aguiar, Pablo Pacífico, Gisele
Christiny e Joylson
Cenário:
Thiago Soares
Figurino:
Cinttya D. e Jussara Pereira
Iluminação:
Maneco Quinderé
Sonoplastia:
Luciana S.
Técnico
de Iluminação: Moisés
Fotos:
Cainã Dittrich
Assessoria
de Imprensa: Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho
Produção
Executiva: Lídia R.
Produção:
Levitar Produções
A
criação de uma companhia de dança com residência no Rio de Janeiro
representa, para THIAGO, a conclusão de um ciclo artístico e emocional:
depois de uma carreira internacional consagrada, ele retorna à sua cidade
natal. Para os cariocas, e brasileiros, em geral, essa nova companhia,
que já nasceu vitoriosa, é motivo de muito orgulho. Já aguardo, ansiosamente,
sua próxima produção, esperando que “Gala Brusco” e “CARMEM”
ainda façam muitas apresentações Brasil afora. E por que não no
exterior também?
Thiago Soares.
FOTOS: CAINÃ DITTRICH.
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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