quarta-feira, 18 de março de 2026

                                            “CARMEM”

OU

(UMA CARMEM DIFERENTE,

COM ‘M’ NO FINAL,

E BASTANTE MOLHO

BRASILEIRO

E LATINO.)

 


          



     

 

Começo por dizer que, a despeito de adorar a arte da dança, como mero espectador apenas, sem o menor conhecimento técnico do assunto, não me sustento como crítico de dança nem me arvoro a tal pretensão, o que me leva a pedir, aos meus leitores, que não considerem estes escritos como uma crítica profissional. São apenas palavras com as quais posso tentar passar a emoção que tomou conta de mim, no último domingo (15 de março de 2026), quando, atendendo a um generoso convite de LIÈGE MONTEIRO e LUIZ FERNANDO COUTINHO (assessoria de imprensa), fui ao Teatro Municipal Carlos Gomes, no Centro do Rio de Janeiro, para assistir ao espetáculo de dança “CARMEM”, apresentado pela “Cia de Dança Thiago Soares”. Foi um dos mais agradáveis finais de tarde que já experimentei.




O programa é baseado numa obra de outro gênero artístico, a ópera. Uma das mais lindas e festejadas obras do repertório operístico, com algumas árias que se tornaram quase populares, é “Carmen”, de Georges Bizet, compositor francês, em quatro atos, escrita no final do século XIX (1875). Era um sonho antigo do grande bailarino e coreógrafo THIAGO SOARES criar um espetáculo de dança sobre a trágica história de amor entre uma cigana e um cabo do exército espanhol.


 

 

SINOPSE (do original):

Ambientada em Sevilha, Espanha, no século XIX, a ópera conta a história de Carmen, uma cigana impetuosa e sedutora, “perigosamente livre” e indomável, que trabalha em uma fábrica de cigarros e preza sua liberdade acima de tudo.

Ela seduz Dom José, um cabo do exército, romântico, apaixonado e ingênuo, fazendo-o abandonar sua namorada de infância, Micaela, e sua carreira militar, por amor.

Envolvido com o contrabando, por causa de Carmen, Dom José se torna obcecado e possessivo, enquanto ela, seguindo sua natureza livre, perde o interesse e se apaixona pelo toureiro Escamillo.

Incapaz de aceitar a rejeição e a independência de Carmen, Dom José a confronta na saída de uma arena de touros.

Carmen, que se recusa a negociar sua autonomia e luta contra a opressão passional, prefere a morte a se submeter ao amor possessivo de um homem, sendo assassinada por Don José


 

 

 

         Como temas principais, a obra contempla o amor, o ciúme, a obsessão, a liberdade e a tragédia. Trata-se o balé de uma releitura do original, combinando a ópera de Bizet com elementos brasileiros e latinos, misturando neoclássico, danças urbanas e populares – a energia das ruas, como o “breaking”, lembrando a origem do coreógrafo - e acrobacias. O espetáculo foca na autonomia feminina, numa genial junção da dança com o TEATRO, proposta que já marcou a primeira montagem da jovem companhia, “Gala Brusco”. “CARMEM” é a segunda produção, tão linda e significativa quanto a anterior.



Nesta montagem, “CARMEM” é ambientada na América Latina e a personagem-título tem características brasileiras. Na nova leitura de THIAGO SOARES, o ator NELSON FREITAS, assume, com segurança e marcante presença de palco, o papel de Narrador, apresentando a obra e ligando cenas. É ele uma figura enigmática, que conduz a plateia pelos acontecimentos, e que, para alguns, representa o touro, a força instintiva que ronda o destino dos personagens. No lugar de um toureiro, THIAGO nos apresenta um vaqueiro, típico personagem do interior do Brasil, representado pelo bailarino JOÃO VICTOR, enquanto a protagonista é vivida por GABRIELA MENDEZ. Tecnicamente, não tenho competência para aquilatar o trabalho dos bailarinos, entretanto, na pele de um espectador sensível e exigente, senti-me, excessivamente, sensibilizado e emocionado com a execução das coreografias traçadas por THIAGO SOARES. A propósito, os “deuses da dança”, já que existem os “do TEATRO”, me privilegiaram com o que jamais esperava que acontecesse naquele fim de tarde de domingo. O bailarino turco ALIJAN GÜÇOĞLU, coprotagonista e titular do papel de Dom José, foi substituído pelo próprio THIAGO SAOARES, o que jamais esquecerei. É sublime vê-lo no palco e acabei deixando o Teatro em total estado de graça.




Influenciado pela história original, THIAGO usa a sua experiência internacional, como primeiro bailarino do “Royal Ballet der Londres”, e constrói uma Carmem a qual reafirma a força da mulher que se recusa a negociar sua liberdade. Mais do que um drama passional, o espetáculo mergulha no veneno do ciúme, na opressão que atravessa relações e na luta íntima por autonomia. A personagem surge sensual, magnética, indomável e perigosamente livre. Sob esse aspecto, considero o espetáculo muito mais que pertinente, já que, infelizmente, estamos passando por uma violenta onda de feminicídios, num momento em que as mulheres exigem seu protagonismo na sociedade. Mulher é o que deseja ser; onde e quando o deseja. Assim tem que ser, a despeito dos homens fracos e covardes, que não se conformam com o fim dos relacionamentos.




Nesta versão, THIAGO SOARES reafirma sua assinatura artística e a linguagem de sua companhia carioca, com rigor técnico, teatralidade e uma leitura que aproxima o clássico ao nosso tempo e à nossa identidade brasileira. Sua proposta estética cria um vocabulário corporal potente e contemporâneo. “A teatralidade atravessa a dança e transforma o espaço cênico em território de afirmação, onde tradição e presente se encontram.”. Embora eu tenha tido um enorme apreço pelo espetáculo, sugiro ao THIAGO ter, ao pé de si, um profissional de direção de TEATRO, para auxiliá-lo no que diz respeito à representação teatral.

 



 

FICHA TÉCNICA:

Idealização: Thiago Soares

Coreografia: Thiago Soares

Direção: Thiago Soares

Música: Georges Bizet e Franz Liszt

 

Elenco:

Cia. de Dança Thiago Soares: Gabriela Mendez (Carmem), Cecília Almeida, Jéssica Ramos, Maria Rianelli, Déborah Simonian, Laura Vieira, Mariana Fialho, João Victor (Vaqueiro) e Guilherme Saab

Ator convidado: Nelson Freitas (Narrador)

Bailarinos convidados: Alijan Güçoğlu (Dom José), Antônio Júlio, Mikael David, João Aguiar, Pablo Pacífico, Gisele Christiny e Joylson

 

Cenário: Thiago Soares

Figurino: Cinttya D. e Jussara Pereira

Iluminação: Maneco Quinderé

Sonoplastia: Luciana S.

Técnico de Iluminação: Moisés

Fotos: Cainã Dittrich

Assessoria de Imprensa: Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho

Produção Executiva: Lídia R.

Produção: Levitar Produções


 




A criação de uma companhia de dança com residência no Rio de Janeiro representa, para THIAGO, a conclusão de um ciclo artístico e emocional: depois de uma carreira internacional consagrada, ele retorna à sua cidade natal. Para os cariocas, e brasileiros, em geral, essa nova companhia, que já nasceu vitoriosa, é motivo de muito orgulho. Já aguardo, ansiosamente, sua próxima produção, esperando que “Gala Brusco” e “CARMEM” ainda façam muitas apresentações Brasil afora. E por que não no exterior também?

 

 

Thiago Soares.

 

 


FOTOS: CAINÃ DITTRICH.

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!

 

 

 







 


































































































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