terça-feira, 17 de março de 2026

“HÉTERO SIGILO”

ou

(A HOMOSSEXUALIDADE RETRATADA SEM APELAÇÃO E COM MUITO TALENTO, SERIEDADE 

E BOM GOSTO.)

 

 


         Dependendo do momento, determinados temas começam a pulular, chegando a cansar. Já de algum tempo, no TEATRO, surgem, de todos os lados, a toda hora, peças com temas ligados ao universo LGBTQUIAPN+. Absolutamente, nada contra - seria um enorme desacerto de minha parte -, porém seria preciso que as peças se apresentassem com um mínimo de qualidade e dignidade, o que, infelizmente, não é o que observamos na maioria das vezes. O que vemos, sim, são espetáculos “caça-níqueis”, insipientes e com forte apelo erótico, recorrendo, muitas vezes, a cenas “quentes” e ao nu frontal explícito, o que satisfaz bastante, naturalmente, aos falsos produtores, os quais sorriem com as casas lotadas por um público específico para esse tipo de “espetáculo”.



         Quando ouvi falar da peça “HÉTERO SIGILO”, em cartaz no Teatro Laura Alvim (Casa de Cultura Laura Alvim) (VER SERVIÇO.), deixei aflorar a minha porção “desconfiado”. Seria mais uma coisa apelativa e mal encenada, em todos os aspectos? Era ver, para conferir e tirar a dúvida. E se for ruim? Estarei perdendo o meu tempo, podendo tê-lo deslocado para uma produção que valesse a pena. Quando, depois, o convite para assistir à peça me chegou às mãos, via assessoria de imprensa PAULA CATUNDA -, comecei a me interessar pela montagem, por conta do teor do “release”. Mas sempre seria uma incógnita. Agendamos a data do último sábado, 14 de março de 2026. Poucos dias antes, tive a oportunidade de assistir a uma entrevista, num programa de TV, de BERNARDO DUGIN, o ator do monólogo, cujo trabalho eu conhecia muito pouco e não como pessoa, também seu idealizador e autor do texto. A partir daquele momento, passei a desejar que chegasse logo o dia agendado para eu assistir ao solo. O rapaz deixou passar, em suas respostas, sensibilidade, inteligência, doçura e muita verdade. Senti que valeria a pena assistir ao espetáculo; e não me enganei.




 

SINOPSE:

Vivendo anos sob a máscara de um personagem "hétero", que ele mesmo criou, BERNARDO DUGIN constrói um relato íntimo e potente, calcado em sua experiência pessoal, sobre os pactos que fazemos para caber na sociedade.

A peça expõe como a heteronormatividade ensina a mentir, a performar, a se aprisionar e aponta caminhos possíveis de coragem, pertencimento e libertação.


 


 

            Antes de mais nada, é preciso dizer que a peça surgiu a partir de um fato real, muito desagradável e totalmente inadmissível. Trata-se de um ataque homofóbico, sofrido por BERNARDO e seu namorado, durante uma missa de sétimo dia, em 2023, em Nova Friburgo, da parte de quem oficiava a cerimônia religiosa. Pasmem os que me leem!  O episódio teve repercussão nacional e tornou o padre agressor réu, em um processo judicial que discute os limites entre religiosidade, liberdade de expressão e discurso de ódio. Embora não apague os danos morais e psicológicos, causados pelo “religioso”, em sua nefasta atitude, cumpre dizer que o Ministério Público do Rio de Janeiro solicitou indenização, por danos morais coletivos à causa LGBTQIAPN+, reconhecendo o impacto simbólico e social da violência.




  No palco, BERNARDO é tudo aquilo que demonstrou ser, na referida entrevista, e muito mais: conheci sua capacidade de interpretar um texto teatral, com profunda naturalidade e competência. E nem poderia ser diferente, pois falava, como se estivesse conversando com o público, sobre si mesmo. Uma delícia de ser ouvido.



          O consagrado diretor JOÃO FONSECA é o “maestro” desta encenação, repetindo os resultados bons, como, praticamente, consegue em tudo em que põe as mãos. Talvez um leigo não perceba, mas um olhar técnico permite descobrir que JOÃO deixou BERNARDO bem à vontade, para ser “confessar”, explorando o talento do ator. Uma direção simples e harmoniosa. Uma interpretação assaz convincente e emocinante.



         O cenário foi idealizado por NELLO MARRESE e é bem simples: uma mesa e duas cadeiras de braço, que o ator muda de lugar com muita frequância. Ao alto, pendurado, um enorme espermatozoide, “gigantão”, elemento cuja presença na cenografia, confesso, não consegui entender bem, embora, em nada, a desabone. O simples e discreto figurino, em tons pastéis, também leva a assinatura de MARRESE. DANIELA SANCHES nos brinda com uma iluminação inteligente, ágil e variada, seguindo a intenção e o nível de tensão, ou não, de cada momento da peça.



  A trilha sonora original e a direção musical são de FEDERICO PUPPI, um magistral músico e compositor, “cuja música atua como uma camada dramatúrgica contínua, ampliando silêncios, tensões e estados emocionais da cena”.



   Neste monólogo, BERNARDO DUGIN responde pela idealização, a dramaturgia e a “performance”. O texto reflete sobre heteronormatividade, violência simbólica e o custo psicológico de viver sob pactos de silêncio. Sozinho em cena, o artista transita entre humor, dor e libertação, ao construir um relato íntimo e potente sobre os mecanismos sociais que exigem disfarce, “performance” e apagamento, como forma de sobrevivência.



    DUGIN faz, aqui, a sua estreia como dramaturgo e se sai muito bem, com um texto limpo, claro, de fácil compreensão e comunicação com o público, mormente os indivíduos “gays”, tanto os que assumem a sua orientação sexual quanto os que, por qualquer motivo, não o fazem. Com a peça, BERNARDO revisita uma experiência pessoal de violência LGBTQIAPN+, para construir uma reflexão íntima, sensível e contundente, que pode servir de catarse para muita gente.



    “O espetáculo não é sobre assumir uma orientação sexual. É sobre o que a gente precisa esconder para continuar existindo, sem ser punido por isso. A violência não começa no soco; começa no silêncio que a sociedade nos obriga a manter”, afirma, peremptoriamente, DUGIN. Mesmo assim, arrisco-me a dizer que, terminada a sessão a que estive presente, percebi que se trata de um texto didático, sem ser “chato”, e, até mesmo, de utilidade pública. No auditório, um silêncio sepulcral, de respeito e atenção. O ator não se coloca como um terapeuta nem aponta dedos; muito menos, se vitimiza. Mas, de forma corajosa e totalmente verdadeira, escancara as portas do seu coração, com seriedade, verdade, leveza e, até mesmo, boas pinceladas de humor. Apesar de ser baseada num fato negativo, o espetáculo é “para cima”, deixando, ao espectador, boas lições e ensinamentos, além de indicar, ou sugerir, caminhos e atitudes a serem seguidos.

 



 

FICHA TÉCNICA:

Idealização: Bernardo Dugin

Dramaturgia: Bernardo Dugin

Direção: João Fonseca

Assistência de Direção: André Celant

 

Atuação: Bernardo Dugin

 

Cenário: Nello Marrese

Figurino: Nello Marrese

Iluminação: Daniela Sanchez

Trilha Sonora Original: Federico Puppi

Direção Musical: Federico Puppi

Direção de Movimento: Vanessa Garcia

Identidade Visual: Loomi House

Assessoria de Imprensa: Catharina Rocha e Paula Catunda

Fotografia: Nil Caniné

Produção: O Delirante Produções

Assistência de Produção: Azul Scorzelli


 

 

 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 06 a 29 de março de 2026.

Local: Teatro Laura Alvim (Casa de Cultura Laura Alvim).

Endereço: Avenida Vieira Souto, nº 176, Ipanema – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Valor dos Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada).

Venda dos Ingressos: Bilheteria do Teatro Laura Alvim, de 3ª feira a domingo, das 16h às 20h (sem taxa de serviço), ou “on-line”: https://funarj.eleventickets.com (com taxa de serviço).

Duração: 75 minutos.

Classificação Etária: 18 anos.

Gênero: Monólogo Dramático.


 


 



          Não se verifica o menor grau de apelação, no espetáculo, e creio que a indicação etária poderia ser de 14 ou 16 anos. Afinal, estamos no segundo decênio do século XXIO sucesso da peça tem sido tão grande, com sessões de lotação esgotada, que já há desejo e estudos, por parte da produção, para próximas temporadas, no Rio e em São Paulo; quiçá, em outras praças também. Por sua comprovada qualidade, RECOMENDO O ESPETÁCULO.

 

 

 

 

 


FOTOS: NIL CANINÉ.

 

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!

 

 

 





































































































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