“SIDARTA”
ou
(O PURO E O BELO
QUE HÁ NA
NUDEZ INTERIOR.)
ou
(É “OBRA-PRIMA”
QUE SE DIZ?
É, SEM A MENOR
CONTESTAÇÃO.)
ou
(À PROCURA DE MIM MESMO -
QUEM SABE DE MIM SOU EU.
Sem que eu saiba o motivo,
o que, aliás não tem a menor importância para mim, e acho que para mais ninguém,
um determinado ator, ou melhor, um grande ator, mudou seu nome
artístico. Conhecido, por seu talento e grandes trabalhos nos palcos, IGOR ALGELKORTE assumiu, neste ano, há
bem pouco tempo, a personalidade artística de ANGEL FERREIRA. Acho que não seria o caso de iniciar uma crítica
teatral por aqui, falando sobre isso, mas me deu vontade, depois de constatar que nomes
são apenas nomes. O mais importante é que ele continua com seu
manancial artístico inabalável, se é que não está ainda melhor, o
que não seria nada de estranho, uma vez que a tendência do ser humano é melhorar,
evoluir, com o passar do tempo e o consequente acúmulo de experiências. Talvez
isso tenha acontecido ao IGOR – e eu
vou ter que me esforçar para passar a enxergar nele um ANGEL.
Há pouco tempo, questão de
meses, um querido ator amigo de São Paulo, utilizando as redes
sociais, anunciou, num tom melancólico, aceitável e compreensível, a meu juízo, que, depois
de fazer tanto sucesso, atuando em musicais que “bombaram” – e
ele é excelente naquilo que faz -, não estava mais encontrando empregos.
Completamente desiludido com a profissão, estava decidindo abandoná-la e voltar
para a sua cidade, no interior paulista, para “tocar a vida”, sabe-se
lá como. Aquilo me doeu fundo no coração, mas, infelizmente, é uma realidade do
Brasil.
Nada pude fazer, a não ser enviar-lhe, como amigo e fã, uma mensagem de
carinho, acolhimento e solidariedade. Espero que as coisas sejam revertidas
para ele.
Agora, há cerca de uma
semana, foi a vez de ANGEL FERREIRA
ocupar um espaço nessas mesmas redes sociais, para também fazer um desabafo, porém diferente do de seu colega, depois de representar o monólogo “SIDARTA”, em cartaz apenas por mais esta semana, no Teatro Ipanema (VER SERVIÇO.). O Teatro,
que ficou lindo, depois de uma recém-reforma, tem condições de receber até 169
pessoas, contudo, naquela sessão, estavam presentes apenas 12
espectadores. (Já vi muito isso acontecer, infelizmente. Mais
atores, no palco, do que público, na plateia, inclusive.) E, assim, o ator
externou sua frustração, com toda a emoção contida nas suas palavras: “Quando a gente está fazendo uma bomba, uma peça ruim, a
gente sabe que o boca a boca não rola. Mas, quando a gente está fazendo um
trabalho com muito amor, delicadeza e a gente sente a troca com o público, é
outra coisa. Não entendo.”.
A divulgação “boca
a boca” é, sem dúvida, a que melhor funciona; “para o bem e para o mal”.
Ou seja, quando o espetáculo não é bom, quem o viu não o divulga ou o faz desestimulando outrem a assistir a ele. Por outro lado, quando vale a pena
assistir à peça, como é o caso de “SIDARTA”,
as pessoas têm o hábito de divulgar o trabalho. Eu, por exemplo, sou daqueles que
gostariam de que todos os meus amigos tivessem o mesmo prazer que eu tive,
também vendo a peça, e saio divulgando-a aos quatro cantos do mundo. O que é curioso é que o público vibra com “SIDARTA”, aplaude, intensamente, o
espetáculo e sai do TEATRO fazendo os melhores comentários sobre a peça. E não
fazem favor algum.
(Foto: Gilberto Bartholo.)
ANGEL
FERREIRA está coberto de razão. Esta é a terceira temporada do solo, no
Rio
de Janeiro, e só pude assistir ao espetáculo no último sábado, dia 07 de
dezembro de 2024. A primeira aconteceu na Sede das Cias, na Lapa,
margeando a Escadaria Selarón, na Lapa, o que me impediu de ver a
peça, por falta de condição para eu ter acesso aquele agradável espaço, visto
que, atualmente, vivo sob mobilidade diminuída. A segunda também aconteceu no Teatro
Ipanema, mas eu estava fora do país, por um mês, e também perdi a
oportunidade de conhecer o trabalho. Finalmente, matei meu desejo, e agradeço
muito aos DEUSES DO TEATRO e a RENATO
LIVERA, pelo convite.
Disse que o
ator está coberto de razão, no seu desabafo, e preciso justificar: Não
se trata de nenhuma montagem “chinfrim”. “SIDARTA”
É UMA OBRA-PRIMA”. Tão logo cheguei a casa, depois de
ter visto a peça, corri para uma rede social e não titubeei em escrever que “SIDARTA” É O MELHOR
MONÓLOGO A QUE ASSISTI ESTE ANO E UM DOS MELHORES DE TODA A MINHA VIDA, “uma OBRA-PRIMA, que me arrancou
lágrimas, o que não vem sendo muito comum acontecer comigo, de uns tempos para
cá, no TEATRO, e me fez voltar para casa em TOTAL ESTADO DE GRAÇA. QUE
TRABALHO DE INTERPRETAÇÃO TEATRAL!!! QUE
HARMONIA PLÁSTICA!!! QUE BELEZA DE ESPETÁCULO!!!”.
A atitude de ANGEL FERREIRA deu resultado, pois, na sessão em que estive
presente, o Teatro Ipanema já recebeu 12 espectadores multiplicados por algumas vezes; algumas
dezenas deles. Mas é preciso fazer com que os ingressos se esgotem e
que que haja uma prorrogação da temporada e/ou uma nova. É URGENTE!!!
E IGOR / ANGEL foi além – e também estava certo –, quando reclamou da falta de divulgação dos espaços cariocas. As pessoas sentem dificuldade em saber o que está em cartaz, e onde, em matéria de TEATRO. É A MAIS PURA VERDADE. Os veículos de imprensa, que faziam essa divulgação, estão desaparecendo, a cada dia, ou trocando os seus espaços por outras informações inúteis, mas “que vendem”.
Existe, no Brasil,
de uma forma geral, um certo preconceito, totalmente estúpido, absurdo e
inconsistente, contra monólogos. Se eu tivesse, porém, que
relacionar – DETESTO LISTAS, PRINCIPALMENTE AS LIMITADAS!!! – uma relação
de “TOP
10 ESPETÁCULOS DE TEATRO DE 2024”, garanto que cerca de a metade seria
composta de solos, e “SIDARTA” seria
um fortíssimo candidato a “o melhor”. Esse gênero teatral, via
de regra, oscila entre 50 e 70 minutos. Raros são os que
ultrapassam essa marca de tempo. Só que, para um
monólogo ser extenso, é preciso que ele seja muito bom, ótimo ou OBRA-PRIMA. É aí
que se enganam aqueles que pensam que o monólogo “é chato”. Qualquer espetáculo
ruim, que não se sustenta por sua qualidade, é “chato”, difícil de ser
assistido até o final. “SIDARTA” tem
a duração de 100 minutos, quase duas horas, tempo que passa,
se que o sintamos, e ainda ficamos com o gostinho de “quero mais”, quando a
peça termina.
SINOPSE:
Nesta história, acompanhamos Sidarta,
educado, bonito, inteligente e filho de um homem rico, de Brâmane, a deixar a casa
dos pais.
Seguido por seu melhor amigo, Govinda,
ambos aderem aos samanas, que viviam para pensar, esperar e jejuar, vertente
espiritual que busca a iluminação, através da mortificação do corpo.
Em seguida, desconfiado e desiludido
com o aprendizado com os samanas, Sidarta conhece o próprio Buda,
mas não aceita a sua doutrina e dele também se afasta, determinado a encontrar
seu próprio caminho ou a morte.
É iniciado nos jogos do amor, estabelecendo
relação com uma cortesã da cidade, Kamala, mas só encontra a
decadência e decide abandonar tudo, depois de ter se tornado comerciante.
Embrenha-se no vício e no
materialismo, para, novamente, deixar tudo para trás e retornar à simplicidade,
junto a um barqueiro, o sábio Vasudeva, que se revela um mestre e
amigo, e só então conhece a redenção.
Continuamente, encontramos, ao longo
do texto, dramaturgias de aprisionamento e libertação, que descortinam suas
ilusões e aprofundam sua subjetividade.
O espetáculo,
que levou 5 anos de preparação, foi inspirado numa das grandes obras da
literatura universal, o romance “Sidarta” (“Sidharta), escrito por
um dos maiores escritores alemães, Hermann Hesse, vencedor do Prêmio
Nobel de Literatura de 1946. A sua
primeira publicação foi em 1922 e conta passagem da sua vida e
pensamento durante a sua estada na Índia, em 1910, inspirado na
tradição contada de Siddhartha Gautama, o Buda.
E
o que significa a palavra “Sidarta”? Em sânscrito, “Sidarta” significa “aquele
que encontrou o caminho”. O Buda encontrou o caminho da
autolibertação. “Sidarta” é um romance filosófico, que exalta a busca pela sabedoria e é
inspirado na vida de Siddartha Gautama, fundador do
budismo. Assim
como na peça, o livro narra a busca de Sidarta pela iluminação, na Índia.
As histórias de Sidarta e de Buda se confundem.
Nascido na Índia,
no século
6º a.C., filho da aristocracia religiosa dos brâmanes, “Sidarta
passa a infância e a juventude isolado das misérias do mundo, gozando a
existência calma e contemplativa que sua condição de casta lhe permitia. A
certa altura, porém, abdica da vida luxuosa, protegida, e parte, em
peregrinação, pelo país, onde a pobreza e o sofrimento eram regra. Em sua longa
parábola existencial, Sidarta experimenta de tudo, usufruindo tanto as
maravilhas do sexo e da carne quanto a ascese e o jejum absolutos. Entre os
intensos prazeres e as privações extremas, termina por descobrir ‘o caminho do
meio’, libertando-se dos apelos dos sentidos e encontrando a senda da
iluminação interior.”.
O romance tornou-se “livro de cabeceira” de várias gerações, principalmente durante os anos 1960 e 1970. Eu sou testemunha disso. Era comum, na Faculdade de Letras, da UFRJ, onde me graduei, a gente encontrar dezenas de colegas com o livro debaixo do braço. Não escapei a essa tentação; para alguns, “modismo de jovens”. O meu exemplar também me servia para que eu, dentro dele, camuflasse, bem clandestinamente, “O Capital”, de Marx, numa versão em espanhol, adquirida num “sebo”, caindo aos pedaços, de tão velha.
A despeito da simplicidade que
envolve a encenação, há uma grande quantidade de competentes profissionais por
trás de tudo, para que cada sessão possa acontecer a contento, a começar pela
corretíssima supervisão artística, de BETH MARTINS e RENATO LIVERA. Seguem os seus passos THATYANE CALANDRINI, que assume a assistência de direção; WALTER DAGUERRE, responsável por uma interlocução
dramatúrgica (Ele é muito bom nisso.); JOÃO GIOIA e RENATO LIVERA, que criaram uma belíssima e expressiva iluminação,
que dialoga, “full time”, com o ator; e a luxuosa colaboração artística, de
LAVINIA BIZZOTTO. Na FICHA
TÉCNICA, não aparecem as rubricas cenografia e figurino. Aquela se
resume a um tapete persa, estendido no centro do palco; este é apenas uma calça
e uma camisa, bem simples, em tons pastéis, que o ator veste durante um tempo
do espetáculo. Durante uma outra parte, apenas um “blazer” amarelo,
simbolizando o “estar vestido”. No mais do tempo, ANGEL se apresenta totalmente despido, sem que haja, da parte da iluminação,
qualquer preocupação em “cobrir-lhe as vergonhas”. “Vergonha”
de quê? Toda a nudez exterior é apresentada da forma mais natural
possível. E necessária, dentro da trama. Nu, de vestimentas, por fora, e,
elegantemente, vestido, em “gala”, por dentro. Com um olhar de “raio
X”, conseguimos enxergar cada milímetro da esplendorosa beleza de sua
nudez interior.
Assim como é
dito que o “o cinema é a arte do diretor”, “o TEATRO é a arte do ator”.
Aqui, eu vou muitíssimo além: “‘SIDARTA’ É A ARTE DE ANGEL FERREIRA.”.
De onde o ator tira tanta força, tanta naturalidade, tanto carisma, tantos
mínimos detalhes gestuais, tantas nuances para as diferentes vozes que
reproduz? De onde saem tanta energia e talento, para ocupar o corpo de um só ator, dos
melhores de sua geração? O que ANGEL
“brinca”
com seu corpo e sua voz, seus instrumentos de trabalho, é algo indescritível e
digno dos maiores elogios. Trabalho para PREMIAÇÕES, se estas forem
sérias. Confesso minha total paixão pelo trabalho do, então, IGOR ANGELKORTE, desde 08 de
setembro de 2013, quando, salvo engano, o vi pela primeira vez, num
espetáculo quase tão surpreendente quanto “SIDARTA”.
Foi na Arena do SESC Copacabana, chamava-se “ELEFANTE” e, para os que tiverem interesse, aqui está o “link”
da crítica que escrevi, depois de ter assistido àquela impactante peça. Foi uma
das primeiras críticas para o blogue, o que me faz pedir desculpas por possíveis
deslizes de qualquer tipo (A revisão era falha.): https://oteatromerepresenta.blogspot.com/2013/09/elefante-como-sao-lindas-as-marcas-do.html.
FICHA TÉCNICA:
Livremente
inspirado no livro homônimo de Hermann Hesse
Criação e Atuação: Angel Ferreira
Supervisão Artística: Beth Martins e Renato Livera
Diretora Assistente: Thatyane Calandrini
Interlocução Dramatúrgica: Walter Daguerre
Direção de Produção: Marcela Casarin
Iluminação: João Gioia e Renato Livera
Colaboração Artística: Lavinia Bizzotto
Fotografia: Philipp Lavra e Lean Valente
Produção: Mãe Joana Produções
Assessoria de Imprensa: Ligia Lopes
SERVIÇO:
Temporada: Até 15 de dezembro de 2024.
Local: Teatro Ipanema.
Endereço: Rua Prudente de Morais, nº 824- Ipanema –
Rio de Janeiro.
Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h;
domingo, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30
(meia-entrada).
Ingressos disponíveis no “site” da Rio Cultura ou na bilheteria
do Teatro.
Lotação: 169 lugares.
Duração: 100 minutos.
Classificação Etária: 18 anos.
Gênero: Monólogo.
O espetáculo
se apresenta na forma de um solo, que amalgama um narrador, personagens e ator,
os quais não se confundem, a partir de uma montagem minimalista; econômica, em
questões monetárias, e riquíssima, em qualidade. É lindo ver aquele personagem,
Sidarta,
um
espírito rebelde e inconformado, que seguiu os ensinamentos de Buda,
porém não se curvou àquilo em que não acreditava, mantendo-se sempre fiel à sua
própria alma. Um espetáculo que aborda temas universais, em que a sensibilidade
e a magia se traduzem na busca da essência do ser humano. “A trama é uma ficção que
abarca temas de valor existencial e mergulha na ambiguidade entre os polos
sagrado e profano, sucesso e fracasso, prazer e privação, solidão e
pertencimento. Que todos possamos aprender, em “SIDARTA”
a ser “sidartas”!
FOTOS:
PHILIPP LAVRA
e
LEAN VALENTE
GALERIA PARTICULAR
(Foto: Ligia Lopes.)
Com Angel Ferreira.
VAMOS AO TEATRO!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!
A ARTE EDUCA E CONSTRÓI, SEMPRE; E SALVA!
RESISTAMOS SEMPRE MAIS!
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