“CAFÉ,
ALMOÇO,
JANTAR”
ou
(NÃO HÁ BORRACHA
QUE APAGUE O QUE
NUNCA DEVERIA
TER SIDO ESCRITO.)
Boas surpresas são, e sempre serão,
bem-vindas, quando me ponho a assistir a uma montagem teatral. E digo mais: Quando
isso me acontece, valorizo bastante o espetáculo, em função de,
antes de assistir a ele, ter desenvolvido uma expectativa inferior ao que me
foi permitido ver. Isso ocorre bastante comigo, até com uma certa frequência, e
foi o que aconteceu na noite do último sábado (24/10/2026), na Sala
Rogério Cardoso, Casa de Cultura Laura Alvim, às vésperas
de uma tumultuada eleição, que - agora temos a certeza -
poderia trazer a manutenção da DEMOCRACIA neste país. A peça, no
caso, é “CAFÉ, ALMOÇO, JANTAR”. Como a minha concorrida agenda estava
quase lotada, só pude aceitar o convite, por parte da assessoria de
imprensa (CARLOS PINHO), para assistir a ela, no penúltimo
dia da temporada atual (Houve outra, um mês atrás, no Centro
Cultural da Justiça Federal). E o que mais me atraiu foi a SINOPSE,
que vendia a peça como focada numa temática muito interessante e atual,
que me pareceu super instigante.
SINOPSE:
A peça acompanha 31 anos da história do
Brasil, através do cotidiano e dos laços afetivos de uma única família,
tendo, como ponto central, uma pequena pensão, ou restaurante – como
querem alguns -, comandada por Dona Filó (FÁTIMA
PATRÍCIO).
A trama é dividida em três “atos” cronológicos
- três cenas longas e semi-independentes, na verdade -,
envolvendo os mesmos quatro personagens, que dialogam, diretamente, com as
mudanças políticas, econômicas e sociais do país.
Passa-se a primeira parte nos primórdios da Nova
República (CAFÉ - 1987), logo após o fim da ditadura
militar.
Dona Filó recebe a visita de seu filho, Paolo
(ALDO PERROTA), o qual revela a existência de um neto da senhora, Hermes
(GABRIEL BREVES) – ou “Chuvisco”, apelido que ele não aceitava -,
fruto de uma meteórica relação com uma guerrilheira desaparecida, no regime
militar, deixando a criança, que ele só foi conhecer quando já crescida, com a
avó. por “uma tarde”, um pedido “provisório”, que
desencadeia mudanças permanentes nos rumos da família.
A porção relativa ao “ALMOÇO” (1994) está situada
no ano de implantação do Plano Real, retratando as tensões
econômicas e as transformações do país e da família, sob uma nova realidade
monetária, no governo José Sarney e época do “cruzado”.
Por último, o “JANTAR” é ambientado
em um período de forte polarização política (2018) e avanço da extrema-direita no Brasil.
Ajudando Dona Filó a tocar o negócio,
sendo o seu “braço direito”, como um membro da família, temos Américo
(RENATO ALBUQUERQUE), que fora cortado do convívio social e da própria família,
por causa de sua orientação sexual (“gay”), o qual teve a sorte
de ser adotado pela proprietária da pensão.
Com a morte de Dona Filó, o
estabelecimento comercial corre o risco de ser vendido.
Hermes, agora um professor de
literatura, de 41 anos, com carreira consolidada, nos Estados
Unidos, já casado e com uma filha, retorna ao Brasil,
para reencontrar o pai e decidirem o futuro do negócio.
Poucas vezes, vi duas coisas que me chamam
muito a atenção com relação a uma peça de TEATRO: a primeira é estar
diante de uma SINOPSE tão clara e bem desenvolvida, na forma de um texto
dramático; outra é assistir a uma montagem tão pobre, em termos
de recursos financeiros, com um orçamento ínfimo, render tanto num espaço
cênico e merecer o meu mais caloroso aplauso. Ambas existem e, no caso
aqui, estão presentes, em grande potência, na encenação de “CAFÉ, ALMOÇO,
JANTAR”.
O que se vê em cena é uma excelente obra de
ficção, que retrata, na sua totalidade e com profunda verossimilhança, a história recente do Brasil, seguindo os
passos do cotidiano de uma família classe média brasileira, lutando por se
enquadrar em tudo o que demanda a situação política do país, em três
momentos, que duram 31 anos, do primeiro ao último,
observando e levando a vida de acordo com a maneira como as mudanças políticas,
econômicas e sociais interferem nas relações pessoais, nos afetos e nas
decisões de pessoas comuns. E como interferem, sem que nos demos conta disso!
Não tive a oportunidade de
assistir à peça em sua primeira temporada, a de estreia, em setembro passado,
no Centro Cultural da Justiça Federal, quando, segundo o “release”
que recebi da assessoria de imprensa, as apresentações se deram
sob um clima de “imenso sucesso”, no que creio ele estar se
remetendo ao êxito de público, pois não me lembro de ter lido nenhuma crítica
sobre ela, o que já deveria ter acontecido, a meu juízo, da parte de algum(a)
crítico(a) de TEATRO que tenha assistido ao espetáculo (Não
sei se serei o primeiro a tecer os comentários que a encenação merece.).
A pensão de Dona Filó
serve de ponto de partida para a narrativa, exercendo o papel de um microcosmo
do Brasil. Aquele ambiente se transforma em palco, para se falar de
família, do tempo e de um país, aproximando os acontecimentos históricos brasileiros
das experiências e transformações vividas pelos personagens, sob a perspectiva
destes, com humor, emoção e fartas memórias, a maioria para serem esquecidas.
Seria melhor que não tivessem acontecido os fatos que nos reportam à maioria
delas.
Sobre a ideia de contar essa
história da família, com pano de fundo do Brasil, segundo o dramaturgo,
IVAN FERNANDES, “queríamos mostrar o resultado de anos de
diversas políticas na vida de uma família brasileira, de 1987 para cá. Como um
restaurante pequeno sobreviveu a tantas questões econômicas ao longo das
décadas, desde o governo Sarney?”. É uma pergunta que podemos nos
fazer, depois de ter assistido à montagem e juntar peças de um quebra-cabeça,
para montar um panorama político e socioeconômico do nosso país.
Considerei, no parágrafo subsequente
à SINOPSE, que esta é tão “bem desenvolvida, na forma de um texto dramático” pelo simples fato de ter enxergado nele uma escrita enxuta, numa
linguagem muito acessível a qualquer tipo de espectador, do intelectual aos
menos letrados, em linguagem popular, com diálogos bem ágeis, consistentes e
dinâmicos, a despeito de apresentar, em vários momentos, passagens bem datadas,
como não poderia deixar de acontecer, quando se dá um mergulho no passado, para
rebocá-lo até o presente. Isso é, até mesmo, muito bom para as mais novas
gerações; é didático. Todos os fatos e ações são muito bem costurados, “a partir das dinâmicas e de personagens presentes no
imaginário e no cotidiano de muitas famílias brasileiras”. Quem, de nós, nunca conheceu, ou, pelo menos, ouviu
falar de “alguéns” (É proposital o vocábulo não existente no léxico da
língua portuguesa.) como os quatro personagens da peça?! Diz o já
referido “release” que, “embora não seja uma obra
biográfica, ele (o dramaturgo) traz determinados traços da sua
história familiar”.
IVAN FERNANDES afirma que “Todos os personagens refletem
arquétipos familiares...”. E é verdade, na figura da mãe solteira
(Dona Filó), que ocupa papel central nesta linha do tempo, como protagonista,
expulsa de casa, ainda muito jovem, pelo rígido pai, militar de visão curta –
como a grande maioria deles, diga-se de passagem -, ao ficar grávida do
namorado, o qual se negou a assumir a paternidade, e ela “segurou, moral
e economicamente, a família”; Dona Filó sustenta a casa e
tenta manter a família unida, mesmo diante dos desejos e escolhas de cada um. Também na
presença do filho de Dona Filó (Paolo), “um
homem encostado, malandro, que se aproveita da dependência emocional, é
aproveitador, afetivo, mas explora a mãe, que ele só procura quando precisa”. E na figura do, a princípio, jovem rebelde (Hermes / Chuvisco), que
quer ser “diferente”, ir para Nova York e experimentar
uma realidade totalmente oposta à que vive. Finalmente, Américo,
alijado do meio social e da própria família, apenas por sua orientação sexual (Quem
ainda não assistiu a esse cruel e triste filme, “em preto e branco”, ou, pelo
menos, já ouviu falar dele?), que “vira um ponto positivo”,
segundo o autor. E não tinha por que não o ser mesmo.
Sobre o trabalho de direção,
muito bem desenvolvido pelo próprio autor do texto e MAÍRA KESTENBERG,
só tenho elogios à dupla. Acerca do processo de direção, assim se
manifesta IVAN FERNANDES: “A encenação é, totalmente, centrada no
trabalho dos atores e sua relação com as palavras do texto, em um trabalho
colaborativo de equipe, que se reflete em todas as camadas do espetáculo.
Descobri, no texto, um afeto muito maior entre os personagens. A peça é uma
espécie de exorcismo familiar.” É muito importante, quando a direção
consegue perceber o alto potencial do texto e do material humano a seu
dispor, para focar neles o seu trabalho, sem querer “inventar a
roda”. Trata-se de uma direção simples, linear, e muito correta.
Os arquétipos dos
quatro personagens são muito bem construídos e cada um deles encontrou no(a)
artista que os representa um terreno fértil para a comunicação direta com o
espectador. Sobre a personagem protagonista, Dona Filó,
julgo pertinente transcrever o que, sobre ela, pensa o autor do texto,
visão com a qual me identifico totalmente: “Quanto mais conheço Filó,
mais percebo que, de alguma maneira, todos nós temos um pouco dela. A Filó é
uma mulher de muitas camadas: forte, amorosa, engraçada, contraditória e,
principalmente, profundamente humana. Ela ama a família de uma maneira muito intensa,
mas nem sempre sabe demonstrar esse amor sem interferir, cobrar ou tentar
proteger aqueles que ama. O mais bonito, para mim, é perceber que, ao longo da
história, Filó também precisa aprender a abrir mão e aceitar que os filhos e os
netos têm seus próprios caminhos. Tenho buscado construir essa personagem de
uma maneira muito verdadeira, sem julgá-la, procurando entender o que existe
por trás de cada atitude dela. É uma personagem que me desafia e, ao mesmo
tempo, me emociona muito.” Acrescento, aos adjetivos acima destinados à
personagem, pelo autor e diretor da
peça, “empática e altruísta”. Só posso somar, aqui e agora, a
emoção de que fui tomado pela estupenda verdade cênica de que está
imbuída FÁTIMA PATRÍCIO, uma ótima atriz, de muitas
possibilidades; para fazer rir ou chorar.
Reconheço, também, um grande
potencial interpretativo nos três atores em cena. ALDO PERROTA demonstra
estar muito à vontade no papel de Paolo, apresentado, na trama, como o “filho-problema” de Dona
Filó, aquele “que traz instabilidade e desafios constantes para a
família”. ALDO interpreta, de
forma muito aceitável, o personagem, um “desgarrado inconsequente”,
que se julga “esperto” e experto em tramoias,
também um especialista na “arte” de “seduzir” e enganar a mãe”. Apresenta
atitudes e reações de um moleque, que não “cresceu”, não
amadureceu. Sentimentos de amor a seus familiares passa ao largo, sem que,
paradoxalmente, ele seja uma pessoa má. Repetindo uma descrição do personagem
já feita, trata-se de “um homem encostado, malandro, que se aproveita da
dependência emocional, é aproveitador, afetivo, mas explora a mãe, que ele só
procura quando precisa”. Sua aparição, meio repentina, é uma grande, e
agradável, surpresa para o público.
RENATO ALBUQUERQUE veste, muito bem, a pele do personagem Américo,
como se ela tivesse sido criada para ele. RENATO também segura firme o seu personagem, dentro do desgastado e errôneo estereótipo do homem “gay”, servindo, não como motivo de deboche,
mas como uma válvula de escape, provocando risos e gargalhadas, com suas piadas
e ironias, dentre de uma história tão tensa e forte de emoções. O personagem se
torna,
ao longo do tempo, embora já o demonstre desde o início da peça, um ponto
positivo e de afeto na vida e no núcleo daquele estabelecimento, representando
a resiliência e a construção de redes de afeto fora dos laços biológicos
tradicionais. É um agregado querido e respeitado
naquela família, postiça para ele. A
interpretação do ator traz diversão, emoção, flutuações expressivas e forte
corporeidade ao papel.
Sobre GABRIEL BREVES, o Hermes,
pela primeira vez – Quero crer que não me equivoco. -, tomei
conhecimento de seu trabalho em cena, o suficiente para lhe atribuir o rótulo
de um bom ator, credenciado a seguir a carreira e crescer nela. A
avó, visando a que o rapaz viesse a se tornar uma pessoa “estabilizada”,
pessoal e profissionalmente, desejava que ele seguisse uma carreira
tradicional, entrando para uma academia de oficiais, contando com um empurrão
do avô do rapaz, um garboso militar de altíssima patente, porém o jovem é firme
nos seus propósitos de vida e rejeita os planos desenhados para ele, decidindo
seguir o próprio caminho, contando com o apoio de Américo, seu
confidente e grande amigo; seu melhor e, quiçá, único verdadeiro amigo. É muito bonita e emocionante a pureza na relação dos dois. “Sua volta ao país, após a morte de Filó,
força um acerto de contas com o passado, marcando o reencontro com seu pai
(Paolo), pela primeira vez, desde a infância/tarde em que fora abandonado,
reavivando mágoas, afetos e o impasse sobre o destino da pensão familiar.”
Não é lá um papel tão fácil de ser representado, até porque implica uma radical
mudança, não só de visual, mas, principalmente, de comportamento, tarefa que o
jovem ator inCipiente (NÃO
“INSIPIENTE”!) executa sem merecer
comentários desabonadores.
Para finalizar meus humildes comentários
críticos, preciso falar dos elementos de criação, que ajudam a dar
suporte a uma encenação teatral: cenografia, figurinos
e iluminação. Imagino quão difícil é, para os artistas
responsáveis pelos três, ter que compensar, em criatividade, o que falta em
verba. A produção é das mais franciscanas que tenho visto, nos últimos tempos, entretanto
a força do texto e do trabalho dos atores consegue aparar e
suportar a montagem, contando com um cenário simplicíssimo, intimista e acolhedor, parecendo ter sido criado para um acanhado
espaço, como o da Sala Rogério Cardoso (Casa de Cultura Laura Alvim),
com
parcos elementos cênicos (uma mesa, duas cadeiras, um banquinho e uma
estante, onde ficam expostos objetos de uma cozinha), o suficiente para
que possamos “ver” o salão de uma pensão simples; de subúrbio,
talvez. O que falta, de concreto, na cenografia, fica por conta
da nossa imaginação. Bom trabalho de ROSTAND ALBUQUERQUE.
(Foto: Gilberto Bartholo.)
Nada de especial sobre os figurinos,
de TICIANA PASSOS, totalmente ajustados a todos os personagens, nas diferentes
épocas em que agem, ao longo de 31 anos. São trajes do
dia a dia, desenhados para facilitar a movimentação e a rápida circulação dos
atores pelo palco, dado o dinamismo da encenação. Ajudam a marcar a passagem do
tempo. Adequadíssima obra da artista.
Acho que a preocupação maior, considerando-se
os três artistas de criação, caiu no colo de LUIS CARLOS NEM,
que assina o desenho de luz. Não sei como tal elemento funcionou
na temporada de estreia, em outro Teatro, o qual conta com muito
mais recursos de iluminação do que os que oferece o local onde vi a peça ser apresentada. O iluminador, pelo que pude observar, teve que “tirar
leite de pedra”, para conseguir uma iluminação adequadíssima
à proposta do espetáculo. LUIS CARLOS NEM usa a luz
para marcar a transição das décadas, a evolução econômica e as mudanças de
clima emocional da família, em torno do pequeno restaurante de Dona Filó,
o que penso ser, facilmente, observado pelos espectadores.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Ivan Fernandes
Direção: Ivan Fernandes e Maíra Kestenberg
Elenco: Fátima Patrício, Renato Albuquerque, Aldo Perrotta e Gabriel
Breves
Cenografia: Rostand Albuquerque
Figurinos: Ticiana Passos
Iluminação: Luis Carlos Nem
Trilha Sonora: Ivan Fernandes
Visagismo: Alex Palmeira
"Hair Stylist": Benan Araújo (Studio Eliete)
Montagem de Luz: Anderson Bispo
Edição de Som: Pivo Maia
Arte Gráfica: André Senna
Redes Sociais: Poiszé Produções
Tráfego: Flávia Colpas
Assessoria de Imprensa: Carlos Pinho
Fotografia: Vantoen Pereira Jr.
Direção de Produção: Renato Albuquerque
Gestão e Administração: Jaque Winter
Por
motivos mais que óbvios, deixo de registrar o SERVIÇO da peça,
esperando fazê-lo, posteriormente, quando ela voltar ao cartaz, pelo que muito torço.
Sem mais, RECOMENDO O ESPETÁCULO.
FOTOS: VANTOEN PEREIRA JR.
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.











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