“FILIPA”
ou
(UMA HISTÓRIA
SEM FIM.)
Esta é mais uma crítica sobre um
espetáculo que, praticamente, já terá cumprido sua temporada, a segunda, quando
estes escritos forem publicados, o que, para mim, não tem importância. Que
fique apenas para registro, pelo meu reconhecimento da qualidade da peça. No
finalzinho de março deste ano de 2026, assisti, no Teatro Glaucio
Gill, a uma montagem que me impactou bastante, quando eu, confesso, nem
tanto esperava dela. Fui levado pelo interessante tema, após ter lido o “release”
que me fora enviado por STELLA STEPHANY (assessoria de imprensa)
e foi uma agradabilíssima surpresa. Isso aconteceu às vésperas da minha viagem
anual, de duas semanas, ao Paraná, para acompanhar o “Festival
de Curitiba”, o que me impossibilitou escrever sobre o espetáculo.
Prometi, a mim mesmo, que, caso a peça voltasse ao cartaz, em outra temporada,
eu iria me empenhar para revê-la, com o intuito de escrever a crítica que ela
merece. Destarte, fui, no penúltimo dia da nova temporada, por falta de
condições de ir antes, ao Centro Cultural Justiça Federal, para
reassistir a “FILIPA”, uma contundente história de uma mulher portuguesa,
acusada, pela Inquisição portuguesa, de “práticas nefandas”
(lesbianismo), na Bahia da segunda metade do século
XVI. Filipa de Sousa (1556/1600).
SINOPSE:
A
ação se passa durante o julgamento de Filipa, em que a atriz WALESKA
ARÊAS dá vida à personagem, a seu inquisidor e a uma narradora.
Vinda
do Algarve, Portugal, Filipa de Sousa,
alfabetizada, fato extraordinário para a época, viajou para Salvador
em data desconhecida.
Trabalhava
como costureira, teve dois maridos e não tinha filhos.
Aos 35
anos, foi denunciada por Paula Siqueira, sua amante, numa
espécie de delação premiada: pressionada pela descoberta, em sua casa, do livro
“Diana”, de Jorge de Montemayor, proibido pela Igreja,
sobre as aventuras amorosas de duas pastoras, tornou-se a principal acusadora
de Felipa, por assédio sexual e coação.
Filipa não escondeu, do tribunal, o seu amor pelas
mulheres, afirmando que era natural e sem pecado.
Revelou
detalhes de seus romances, incluindo Paula Siqueira, com quem se
relacionou por mais de três anos.
Na
época, das 29 mulheres acusadas de lesbianismo na Capitania da Bahia,
sete foram julgadas e condenadas, sendo Filipa de Sousa a mais
severamente punida, apesar de ter sido poupada da pena de morte na fogueira por
“seus actos sexuais não envolverem penetração”.
Filipa foi condenada ao açoite, prisão, pagamento
de todas as custas e degredo perpétuo, enquanto Paula, sua
acusadora, teve pena mais branda, condenada a apenas seis dias de prisão e ao
pagamento de 50 cruzados de multa e algumas penalidades
espirituais.
A peça aborda um tema da maior
importância, e cada vez maior mesmo, justamente por explorar um tema que nos
atravessa de maneira brutal, a LGBTQIAPN+fobia, que, no Brasil,
já é considerado crime, desde 2019, com pena de 1 a 3 anos
de prisão, sem fiança e imprescritível, muito embora
nosso país siga sendo o que mais mata indivíduos LGBTQIAPN+ no mundo, além de
enfrentar altos índices de violência de gênero. Segundo o Fórum
Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher sofre violência a
cada quatro horas, e quase 50% já vivenciaram agressões físicas, sexuais ou
psicológicas.
Filipa
é reconhecida como uma das
primeiras vítimas de homofobia
no Brasil e um ícone do movimento LGBTQIAPN+ no país. Seu julgamento é considerado o
primeiro caso de perseguição sexual e de condenação da prática de lesbianismo,
pelo Tribunal do Santo Ofício em terras de Vera Cruz.
Encantei-me pela peça porque ela traz,
totalmente perfeitos, os três principais elementos que sustentam uma produção
teatral: o texto, a direção e a interpretação,
nesta ordem, posso dizer, a meu juízo. É claro que outros detalhes também
agregam valores à montagem, como a curiosa cenografia, de ANDRÉA
RENCK, que também responde pelo figurino simples, e a iluminação,
de LARA CUNHA, responsável por belos momentos da plasticidade do
espetáculo.
O texto foi escrito por GABRIELA
AMARAL e é um primor de simplicidade e, ao mesmo tempo,
de sofisticação, atingindo, de forma muito fácil, os espectadores, que
seguem atentos às narrativas e aos diálogos. Diz a autora ter-se apaixonado por
Filipa em 2000, quando teve acesso a um pequeno verbete
de um dicionário sobre mulheres no Brasil, que passou a ser o
pontapé inicial para uma profunda pesquisa acerca da personagem, “para
decifrá-la” e apresentá-la aos que não a conheciam. Foram 26 anos
de um amor profundo por aquela mulher, agora escancarado, que resultou num texto
brilhante e necessário. Vivemos tempos terríveis, embora menos nublados
do que os da Inquisição que Filipa de Souza
enfrentou. “Contar a história de Filipa me pareceu urgente.
Assim, minha história de amor virou texto. A história de Filipa - dentro e fora
dos palcos - é uma história de amor em tempos difíceis. Porque amar é mesmo
revolucionário.”,
afirma a autora.
MARIA CLARA GUIM assume a direção,
a condução do barco; e o leva a singrar águas calmas, num irretocável exemplo
de como ser a “maestrina” numa montagem teatral. A direção
é magnífica, coalhada de soluções inteligentíssimas e super criativas,
por meio do uso de novelos de um grosso fio elástico, na cor vermelha, que a
atriz vai, metaforicamente, distribuindo no espaço cênico, enquanto faz sua
narração, esticando-os, em diferentes ângulos, em direção às quatro
extremidades do palco, os quais vão sendo abandonados pela cena, como pontas
soltas de uma história sem fim e sobre a qual ainda se desconhece
muita coisa. Certamente, um dos melhores trabalhos de direção que
testemunhei este ano, até o presente momento. “Encenar a história
de Filipa de Sousa, hoje, é uma urgência, pois nos convoca a refletir sobre
violência, poder e apagamentos históricos. Este espetáculo também nasce do
encontro com uma equipe dos sonhos, formada, em sua maioria, por mulheres, cuja
presença, escuta e força criativa afirmam, no próprio processo de criação,
outras formas possíveis de existir, trabalhar e contar histórias.”,
celebra MARIA CLARA GUIM.
E
o que dizer de WALESCA ARÊAS, uma estupenda atriz, que, como tantas, não
frequenta as mídias, mas que sabe tudo sobre sustentar um monólogo, com seu
precioso talento e seu enorme carisma. A atriz, de quem me tornei um ardoroso
fã e que espero rever em outros trabalhos, se divide entre ela mesma, a atriz
contadora de uma história, a protagonista e os que com esta dialogam, marcando,
principalmente com sua voz, cada um dos referidos. Seu trabalho é digno
de premiação. WALESCA parece ter sido talhada para resgatar a
trajetória real de Filipa de Sousa (1556-1600), condenada pela Inquisição
Portuguesa, em 1592, pelo “pecado” de amar
outras mulheres. Viúva, alfabetizada, apaixonada e ousada, Filipa
foi humilhada, açoitada e degredada por “pecado nefando”, nome
que o Santo Ofício dava ao lesbianismo. “Este
espetáculo me atravessou em um lugar muito sensível. Ao ler o processo de
Filipa de Sousa, fui tomada por um medo antigo e por uma identificação que não
consegui afastar. Estar em cena é a minha tentativa de dar corpo a esse
encontro, de tocar feridas abertas e de dizer, mesmo com tremor, que existir e
amar não deveriam exigir coragem.”, conta a atriz WALESKA
ARÊAS.
Extraído do já citado “release”: “Mais de quatro séculos
depois, sua história ecoa como símbolo da resistência lésbica e da luta
LGBTQIAPN+ no Brasil e no mundo. A peça, para além de reverenciar o ícone, quer
descobrir quem foi essa mulher por trás do julgamento, dos documentos e cartas de
amor. A história de Filipa, depois de mais de 400 anos, ainda diz muito sobre a
sociedade contemporânea, em que amar e expressar-se ainda são atos políticos.”
É importante lembrar
que a luta organizada pelos direitos das mulheres e da população LGBTQIAPN+,
no Brasil, é recente, mas sua opressão tem raízes profundas. A Inquisição,
entre os séculos IV e XVIII, perseguiu pessoas com crenças e
práticas contrárias às da Igreja Católica, impondo repressão
religiosa, política e sexual. A Igreja e o Estado
também reprimiam o corpo feminino, tratando o desejo e o prazer das mulheres
como demoníacos. Nesse contexto, a história de Filipa de
Sousa se torna ainda mais impactante. Mesmo condenada pela Inquisição,
em 1592, em Salvador, recusou-se a se submeter às
regras do patriarcado e encorajou outras mulheres a fazerem o mesmo. Sua
existência desafiava o que a Igreja via como ameaçador: prazer,
inteligência, emoção e liberdade de espírito. Mesmo perseguida, Filipa
continuava sendo um símbolo poderoso da resistência feminina e da luta pelos
direitos das mulheres, lésbicas e não-lésbicas.
FICHA
TÉCNICA:
Dramaturgia: Gabriela Amaral
Direção: Maria Clara Guim
Elenco: Waleska Arêas
Cenário Andréa Renck
Figurino: Andréa Renck
Iluminação: Lara Cunha
Trilha Original: Paula Leal
Direção de Movimento: Daniela
Cavanellas
Visagismo: Alex Palmeira
Fotografia: Valéria Martins
Identidade Visual: Clarice Pamplona
Gestão de Mídias Sociais: Fernanda
Portella
Produção Executiva: Tatjana Vereza
Assessoria de Imprensa: JSPontes
Comunicação - Stella Stephany e João Pontes
Ainda que pouco possa adiantar, como divulgação, para a
atual temporada, que termina hoje, domingo, 28 de junho de 2026, vai aqui o
SERVIÇO da peça:
SERVIÇO:
Temporada:
de 05 a 28 de junho de 2026.
Local:
Centro Cultural Justiça Federal (CCJF).
Endereço:
Avenida Rio Branco, nº 241, Cinelândia, Centro – RJ (Ao lado da estação
Cinelândia do Metrô).
Telefone: (21) 3261-2550.
Capacidade: 141 lugares.
Dias e Horários: sextas-feiras e sábados, às 19h; domingos,
às 18h.
Valor dos Ingressos: R$ 50 e R$ 25 (meia-entrada), em www.sympla.com.br e na Bilheteria, duas horas antes da sessão.
Duração: 60 minutos.
Classificação Etária: 16 anos.
Acessibilidade: SIM.
Gênero: Drama Histórico.
ATENÇÃO: Devido
aos jogos do Brasil, pela Copa do Mundo, não haverá sessões nos dias 13 e 19 de
junho. E nos dias 21 e 28, as sessões acontecerão às 16h e 18h.
RECOMENDO
MUITO O ESPETÁCULO e espero que ainda possa haver, pelo menos,
mais uma temporada desta peça, para os que me leem possam conferir a veracidade
das minhas palavras.
FOTOS: VALÉRIA MARTINS
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
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