“SOZINHO COM
ROMEU & JULIETA”
ou
(UM SONHO NUMA
NOITE DE VERÃO CARIOCA.)
ou
OBRA-PRIMA,
OBRA-PRIMA,
OBRA-PRIMA,
OBRA-PRIMA...)
Não tenho como mensurar a
alegria, o prazer e a honra de estar sentado, diante de um computador, para
escrever uma crítica a esta peça. Há quase um ano, mais propriamente,
no início de abril de 2025, durante uma permanência na capital
paranaense, para acompanhar mais um “Festival de Curitiba”,
aceitando um convite da minha querida amiga ANA ROSA GENARI TEZZA, tive
a oportunidade de visitar, mais uma vez, a sede da Trupe Ave Lola,
ocasião em que pude assistir a um ensaio, ainda muito incipiente, do novo
espetáculo da companhia, agora em cartaz no Mezanino do SESC
Copacabana, em curtíssima temporada, infelizmente. Curtíssima mesmo (VER
SERVIÇO.). Quero crer que, naquela ocasião, o espetáculo nem
título tinha ainda; hoje, se chama “SOZINHO COM ROMEU & JULIETA”,
título tão original quanto a ideia de montar o espetáculo.
SINOPSE:
Um obstinado ator, Olivo (EVANDRO
SANTIAGO) está sozinho num ateliê esquecido de um Teatro, fechado por
razões políticas.
Ali, entre bonecos, manequins e figurinos abandonados, decide reviver, num espetáculo solo, as cenas da última peça que ensaiava, antes da interrupção, o clássico “Romeu e Julieta”, de Shakespeare.
Diante da simplicidade da SINOPSE,
o leitor cético pode ficar se perguntando como uma única pessoa poderia encenar
uma tragédia que envolve mais de vinte personagens distintos. Só
essa curiosidade já bastaria para mover o espectador que aprecia um bom TEATRO
a conferir o que está acontecendo no Mezanino do SESC Copacabana.
Antes disso, o peso maior, para o seu deslocamento de casa ao local de
apresentação da peça, é saber que se trata de mais uma produção da Trupe
Ave Lola, de Curitiba, uma das mais credenciadas
companhias de Teatro do Brasil, a meu juízo e no de
um batalhão de admiradores, país afora, aficionados que somos do trabalho que
eles desenvolvem, no Brasil e no exterior (Chile, Bolívia e
Dinamarca), em sólidas parcerias.
Salvo engano, é a primeira vez que a companhia
aposta num espetáculo solo e o faz com total acerto e primor de beleza. Gosto
muito de gente “ousada”. “Ousar”, para mim, é um
dos primeiros verbos em que um(a) encenador(a) deve pensar, quando se propõe a
erguer um espetáculo teatral. Às vezes, alguns se excedem, na conjugação do
verbo, e nos deixam perplexos, diante de tanta loucura, de tão pesada “criatividade”,
que nos levam ao raciocínio de como alguém consegue alçar um voo tão alto e tão
ruim, tão esdrúxulo, para muito além da nossa capacidade de entender e gostar
de uma obra de arte. Por outro lado, graças aos DEUSES DO TEATRO,
Dionísio abençoa alguns artistas, como ANA ROSA GENARI
TEZZA, os quais acabam por também nos fazer perplexos, porém diante de
tanta beleza, criatividade verdadeira, talento e bom gosto, como o que ocorre
na montagem em tela.
Depois de tantos imensos sucessos, como
“Sonho de Uma Noite de Verão” (2024), “O Vira-Lata” (2022)
e “Cão Vadio” (2021), apenas para citar alguns, ao longo de 15
anos de existência, a Trupe Ave Lola, uma das minhas “tops”,
em se tratando de companhias de TEATRO do Brasil, nos
brinda com aquele seu mais recente espetáculo – já estão começando a pensar
no próximo -, “SOZINHO COM ROMEU & JULIETA”, que classifico
como uma verdadeira OBRA-PRIMA, um dos espetáculos mais lindos e impactantes
a que já assisti, ao longo de 60 anos de “rato de Teatro”.
Valendo-se da primorosa tradução de BÁRBARA
HELIODORA para a clássica tragédia “Romeu e Julieta”, de WILLIAM
SHAKESPEARE, ANA ROSA GENARI TEZZA passou a escrever uma adaptação
para o texto, criando uma interessante dramaturgia em que um
solitário ator, numa noite de temporal, entra num velho Teatro
abandonado, fechado por razões políticas, e encontra um exemplar de um livro
com peças do bardo inglês e abre, exatamente, na página em que se inicia a
tragédia que envolve os amantes de Verona e põe-se a encenar a
peça, vivendo todos os personagens, tendo como apoio, além de seu
corpo e voz, toda a parafernália que pode ser encontrada num ateliê de costura
daquele Teatro. A originalidade a favor da arte.
A fantástica encenação se dá por meio
de manipulação de bonecos, Teatro de objetos e música ao
vivo. Apesar de só ter sido apresentada no pequeno Teatro
que fica dentro da sede da companhia, no Centro de Curitiba,
por cerca de dois meses, agosto e setembro de 2025, sempre com lotação
esgotada, a peça foi eleita uma das melhores de
2025, pelo jornal Folha de São Paulo.
Ousadia
e desafios caminham juntos, de braços dados, nesta encenação, que extrapola a
capacidade humana de fazer TEATRO, deixando bem à mostra a
capacidade do artista, brasileiro em especial, de transpor os
seus limites e resistir. Sempre!!! No fundo, é uma grande homenagem
que a Trupe presta àqueles que “não fogem da raia a troco
de nada” (Gonzaguinha) e se mantêm de pé, levando
alegria, poesia e esperança a uma plateia, por vezes, tão desesperançosa. “Através
da história de um ator solitário, dentro de um teatro fechado, a peça fala
sobre o amor ao TEATRO, à liberdade e à permanência da arte como ato de
resistência”.(Extraído do “release” a mim enviado por STELLA STEPHANY,
assessora de imprensa da peça.) A ARTE, REALMENTE SALVA, afirmo eu.
Ainda
encontrado no já referido “release”, “A montagem
propõe um encontro entre o TEATRO de objetos, de manipulação de bonecos e
a poesia da memória, reafirmando e ressignificando a linguagem popular, que
marca a trajetória da Ave Lola. Se Shakespeare escrevia para públicos de
espaços abertos, nesta montagem, a Ave Lola o recria num espaço íntimo,
com o olhar voltado para o ofício da cena, os bastidores, o invisível.”.
Por
trás de um único ator em cena, um batalhão de excelentes profissionais contribui,
com sua arte, para a concretização do espetáculo. Cada nome da FICHA
TÉCNICA tem o seu importantíssimo quinhão de participação e prestação
de excelentes serviços, com vista a erguer o espetáculo. Não há como se
apontar uma única falha nesta montagem. A cenografia é
estupenda, assinada por DANIEL PINHA, muito bem alicerçada no ambiente
de um ateliê de costura abandonado. Aqui, vale acrescentar um elogio à direção
de arte, creio que incluída no trabalho do cenógrafo.
Todo o material de cena – manequins, fragmentos de manequins, figurinos
antigos (de época), objetos usados em costura - como régua, tesoura, fita
métrica e máquina de costurar, por exemplo - vira outras peças, nas mãos
do ator/personagENS. Não direi em que se tornam, para não dar “spoiler”
e tirar o prazer de quem ainda vai assistir à peça. O figurino é
de responsabilidade de EDUARDO GIACOMINI, que sempre se faz presente,
com muito talento, nas produções da companhia. Um dos pontos altos do
espetáculo repousa na magnífica iluminação de um dos maiores
profissionais nessa seara, o premiadíssimo BETO BRUEL,
acompanhado, desta feita, de RODRIGO ZIOLKOWISKI. Que luz formidável!!! Ainda
falta registrar o meu aplauso a EDUARDO SANTOS, pela belíssima confecção
das máscaras e dos bonecos.
ARTHUR
JAIME e BRENO MONTE SERRAT, dois incríveis multi-instrumentistas,
assinam a fantástica direção musical e as composições
musicais da peça e acompanham, ao vivo, o trabalho do ator, o tempo inteiro,
fazendo a trilha sonora e a sonoplastia da peça. Acho
que nunca, em toda a minha vida, havia notado quão importantes são esses dois
elementos dentro de um espetáculo teatral. A dupla de artistas é fundamental
nesta encenação.
É
fascinante como ANA ROSA GENARI TEZZA concebeu a sua obra de direção. Como já disse, em vezes anteriores, é quase um consenso de que “o cinema é a arte do diretor, assim como o
TEATRO é a arte do ator”, com o que concordo, de um modo geral, contudo
digo, repito e reafirmo que, neste trabalho, os pesos para ambos os quesitos –
direção e interpretação – se equivalem. Também sei ousar e assevero, de
forma peremptória, que “ANA ROSA fez o seu filme nesta peça”. A quantidade
de excelentes ideias e resoluções magníficas para cada cena, utilizando apenas
um ator e o material inanimado que o cerca, é absurdamente fantástica. As
marcações são exatas, precisas, criativas, contando com o apoio do trabalho de coreografia
e preparação corporal de ANE ADADE.
Ana Rosa Genari Tezza.
Sei
que, a partir de agora, lutarei contra mim mesmo, na faina de encontrar
palavras que possam traduzir tudo o que penso sobre o irretocável trabalho de EVANDRO
SANTIAGO, já sabendo que não serei muito original.
O QUE É
AQUILO, AMADOS DEUSES DO TEATRO?!
QUE EXEMPLO
DE ATOR PLENO, E COMPLETO, É AQUELE ARTISTA?!
QUE
CAPACIDADE DE EXPRESSÃO, FALANDO, GESTICULANDO, UTILIZANDO AS MÁSCARAS FACIAIS,
REPRODUZINDO VOZES DIFERENTES, PARA OS DIVERSOS PERSONAGENS, COLOCANDO SEU
CORPO EM JOGO, COM EXÍMIAS MOVIMENTAÇÕES, TEM O EVANDRO?!
COMO
CONSEGUE LEVAR TODA UMA PLATEIA AO ÊXTASE, COM SEU TRABALHO DE INTERPRETAÇÃO!!!
Já conheço, de
algum tempo, sua capacidade interpretativa, sua doação plena aos personagens,
de outros trabalhos na Ave Lola, mas confesso, até um pouco
envergonhado, diante de tudo o que já o vira fazer num palco, que não poderia
imaginar seu real potencial artístico, quando lhe cai sobre os ombros o
incomensurável peso de ser o único protagonista num trabalho como este. EVANDRO SANTIAGO É MERECEDOR DE MUITAS INDICAÇÕES A
MELHOR ATOR, EM TODAS AS PREMIAÇÕEDS DE TEATRO DESTE PAÍS!!! Ao mesmo tempo que isso me alegra, penso que não o
será, enquanto persistir a estúpida exigência de um número mínimo de apresentações
nesses prêmios. Bastaria uma única, como a que assisti ontem, 31
de janeiro de 2026, para credenciá-lo à honra de receber todos os prêmios
de interpretação, até o presente momento. E olha que apenas acabamos de
encerrar o primeiro mês da temporada carioca de TEATRO de 2026!
Evandro Santiago.
FICHA TÉCNICA:
Autor: William Shakespeare
Tradução: Bárbara Heliodora
Direção: Ana Rosa Genari Tezza
Assistente de Direção: Ane Adade
Ator: Evandro Santiago
Músicos: Arthur Jaime e Breno Monte Serrat
Direção Musical, Composições e Arranjos: Arthur Jaime e Breno Monte
Serrat
Cenário: Daniel Pinha
Figurino: Eduardo Giacomini
Iluminação: Beto Bruel e Rodrigo Ziolkowski
Coreografia e Preparação Corporal: Ane Adade
Montagem e Operação de Luz: Alexandre Leonardo Luft
Ilustrações e Projeto Gráfico: Gabriel Rschbieter
Fotografias: André Tezza e Maringas Maciel
Direção de Comunicação: Larissa de Lima
Assistente de Comunicação: Cesar Matheus
Produção: Alyssa Riccieri, Carlos Becker, Mattheus Boeck
Direção Executiva: Entre Mundos Produções Artísticas
Direção de Produção: Dara van Doorn, Elza Forte da Silva Carneiro e Laura Tezza
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
SERVIÇO:
Temporada: De 29 de janeiro a 08 de fevereiro de 2025.
Local: Sesc Copacabana (Mezanino).
Endereço: Rua Domingos Ferreira, nº 160, Copacabana – Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 3180-5226.
Dias e Horários: De 5ª feira a domingo, às 20h30min.
Valor dos Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia-entrada), R$ 10
(credencial plena) e gratuito (PCG). Vendas em www.ingresso.com (com taxa de serviço) ou na bilheteria do
SESC Copacabana (sem taxa de serviço), de 3ª a 6ª feira, das 9h às 20h; sábado,
domingo e feriado, das 14h às 20h.
Acessibilidade: SIM.
Capacidade: 100 espectadores.
Classificação Indicativa: 14 anos.
Duração: 100 minutos.
Gênero: Drama.
Antes de chegar ao Rio, o espetáculo recebeu
4 indicações ao Prêmio Troféu Gralha Azul 2025, o mais importante,
no gênero, da capital paranaense, nas categorias de Melhor Espetáculo,
Melhor Direção (Ana Rosa Genari Tezza), Melhor Ator
(Evandro Santiago) e Melhor Sonoplastia (Arthur Jaime e Breno
Monte Serrat), tendo sido vencedor nesta última. Quero, por último,
agradecer à maneira generosa e fidalga como fui recebido, no SESC
Copacabana, como sempre se dá, quando visito a sede da Ave Lola,
por DARA VAN DOORN, e reiterar que RECOMENDO, COM TODAS AS MINHAS FORÇAS, O ESPETÁCULO.
FOTOS: ANDRÉ TEZZA
e
MARINGAS MACIEL.
GALERIA
PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!