quinta-feira, 23 de abril de 2015


ATRAVÉS DE UM ESPELHO

 

(YES, NÓS TEMOS TEATRO!!!)

 

 

 

 


 

 

 

Desde 20 de setembro de 2013, quando estreou INCÊNDIOS, no Teatro Poeira, eu não via um espetáculo com um texto tão intenso, forte, denso, instigante, inteligente, interpretado por um elenco nivelado por cima, MUITO POR CIMA.

Estou falando de ATRAVÉS DE UM ESPELHO, espetáculo que vi, há uma semana, por coincidência, no mesmo Teatro Poeira.

GABRIELA DUARTE, JOCA ANDREAZZA, MARCOS SUCHARA e LUCAS LENTINI, quatro estupendos atores, sob a brilhante direção de ULYSSES CRUZ, dão uma verdadeira aula de representação dramática do texto de INGMAR BERGMAN, com versão teatral de JENNY WORTON, tradução de YARA NAGEL e adaptação de MARCOS DAUD, com dramaturgia de VALDEREZ CARDOSO GOMES.

Poderão perguntar: Por que tanta gente, para dar forma a um texto teatral?  E eu respondo: Para criar uma obra de arte, digna de ser vista e aplaudida, quando bem representada, é claro, como é o caso desta peça.

 

 

 


A vida é bela?

 

 

 


É?

 

 

Um pouco dos personagens e dos atores:

 

1) KARIN é daquelas personagens cobiçadas por qualquer boa atriz, a boa profissional, que sabe onde encontrar o caminho das pedras, para demonstrar seu talento.  KARIN exige muito da atriz que vai representá-la, pois é uma personagem forte, marcante e que precisa de muito cuidado, para que a representação não caia num estereótipo tão clichê, o “fazer a louca”, como tanto se vê por aí. 

GABRIELA DUARTE, cria da TV, apesar de tantos excelentes trabalhos no palco, defende, com incomensurável competência, a personagem, completamente diferente de todas as que já representou em sua longa carreira, apesar de jovem. 

Não sendo o meu interesse maior estabelecer qualquer comparação entre ela e sua mãe, a consagrada atriz Regina Duarte, com quem dividi o protagonismo de um musical infantil, no início dos anos 70, superprodução para a época (D. CHICOTE-MULA-MANCA E SEU FIEL ESCUDEIRO ZÉ CHUPANÇA), diria que GABI seguiu os passos de Regina, cuja imagem de “namoradinha do Brasil”, um dia, cedeu espaço a uma ótima atriz, que, no TEATRO e na própria TV (Dibuk, um Caso Especial, da TV Globo, é um exemplo disso), demonstrou que sabe, e muito bem, representar.  No palco do simpático e aconchegante Poeira, está uma atriz madura, completa.

Para compor a personagem, GABRIELA abandonou o extremo desvairado da loucura e, de forma milimétrica, explorou outros detalhes, mais sutis, para incorporar ao estado de espírito da personagem.  Nada de histrionismo; em seu lugar, discrição e nuanças delicadas, para que o público possa avaliar a importância da personagem na trama, sua fragilidade e consciência de seu estado esquizofrênico.  Talvez por ter “herdado” a doença que destruiu sua mãe, KARIN tem plena consciência de sua fragilidade, em termos de saúde, e o que lhe pode acontecer a qualquer momento, em virtude de uma recaída.  Mas não se entrega e faz de tudo para viver um bom relacionamento com os demais membros da “família”, preocupada com o bem-estar de todos, principalmente com o do irmão adolescente, para quem age como uma segunda mãe.  É totalmente carente do afeto paterno.  Atuação merecedora de prêmios, como reconhecimento a tanto talento.

 

 

 


Tensão 1 (com o marido).

 

 

 


Tensão 2 (com o irmão).

 

 

 

2) JOCA ANDREZZA está perfeito, como DAVID, o pai ausente, egoísta, egocêntrico, que, apesar de amar os filhos, priorizou sua vida profissional, em detrimento da família; aquele que, por tantos anos, isolou-se, para escrever seus livros, fechando os olhos às necessidades de amor e carinho da mulher e dos filhos.  Advém daí o relacionamento patológico entre filha e pai.  Não fica muito claro, na trama, mas tudo indica que boa parte da responsabilidade pelo destino da esposa e pelo estado de tormenta da filha cabe a DAVID, repito, muito bem representado pelo ator.

 

3) No papel de MARTIN, marido de KARIN, MARCOS SUCHARA se destaca, como um cuidadoso companheiro, agindo com muito desvelo, extremamente preocupado com o futuro da esposa, por quem demonstra muito amor e respeito, não suficientes, porém, para salvá-la do tenebroso futuro que lhe é destinado.  Protege-a com todo empenho, tentando, quem sabe, um pouco tardiamente, substituir a figura paterna.  É excelente o trabalho do ator.

 

 

 


Não basta ser marido;

]

 

 


tem de se preocupar e se dedicar, ao extremo, à mulher.

 

 

 

4) Para finalizar a análise do quarteto em cena, falta falar de LUCAS LENTINI, um jovem e talentoso ator, que vive um personagem ainda mais jovem que ele, o adolescente MAX, irmão de KARIN, que pretende seguir a profissão do pai, mas que, por excesso de insegurança, tem medo de expor seus escritos.  Escreve uma peça, para ser representada em família, durante aquelas férias, mas não consegue ser festejado, reconhecido, por isso; ao contrário, o que recebe é o total desinteresse do pai pela sua produção “literária”.  Trata-se de um personagem muito difícil de ser representado, pois, além de todos os conflitos e contradições, dúvidas e paixões, tão próprios da adolescência, ele ainda carrega uma pesada carga de revolta, pela ausência paterna.  O ator parece ter sido escolhido a dedo para o papel e convence muito a plateia com aquilo que faz em cena.  Palmas para LUCAS!

 

 

 


Lucas e Gabriela.

 

 

 

Gabriela Duarte. Atriz é protagonista da peça

Karin e Max.

 

 

 


Irmão e irmã.

 

 

 

            O cenário, de LU BUENO, é bem interessante, muito bem incorporado à proposta do texto e vai sendo alterado, mexido, deteriorado, sofrendo marcantes e significantes transformações, à medida que os dramas vão sendo desfilados em cena.  Uma arrumação - um ordenamento das peças, dos móveis e utensílios em cena -, que se verifica no início do espetáculo, vai mudando de eixo e o que se vê, cenograficamente, em cena, na última cena da peça, são fragmentos, cacos, espalhados pelo espaço cênico, exatamente da maneira como ficam os personagens, depois de 75 minutos de muita ação dramática.

            De grande importância, no espetáculo, é o excelente desenho de luz, de DOMINGOS QUINTILIANO, que ajuda a criar um clima denso e introspectivo, nas cenas mais fortes, e suaviza e realça os momentos mais tranquilos, agregando às cenas a tão desejada paz, buscada pelos personagens.

            Simples, despojados e funcionais são os bons figurinos de CÁSSIO BRASIL.

 

 

 

 
SINOPSE:
 
Adaptação do longa-metragem homônimo, de INGMAR BERGMAN, de 1961, a peça conta a história de uma família desestruturada, que tenta acertar as contas com o retorno da filha, KARIN, interpretada por GABRIELA DUARTE, após uma temporada, para tratamento, em um hospital psiquiátrico. 
A “família” vai para uma casa de veraneio, como faziam habitualmente, no passado, antes da morte da mãe, em busca de juntar fragmentos de uma relação familiar, na reconstrução de um universo harmonioso, mas aquilo que buscavam, e de que tanto necessitavam, um bálsamo para acalmar suas almas, aos poucos, acaba se transformando num imenso tormento, por causa de sentimentos represados, que vêm à tona, como angústias, dores, mágoas, frustrações, tristezas, anseios e traumas, gerando um oceano de dores e lágrimas.
            Em meio a tal turbilhão, o que se vê é cada um mais afastado do outro, todos cegos à presença daquele que lhe está, fisicamente, próximo e tão distante espiritualmente, a despeito das tentativas que fazem e da luta que empreendem pelo oposto.  Um não consegue perceber, verdadeiramente, a dimensão do outro, porque todos não se percebem a si próprios.  Falta, a cada um deles, contextura suficiente, para ser uma pedra num alicerce familiar. 
  A instabilidade emocional de KARIN é um dos estopins para que todos revejam suas relações familiares.
O texto de BERGMAN ganhou versão teatral de JENNY WORTON e, há dois anos, ao assistir à montagem em Nova York, GABRIELA se encantou. “Daquele dia em diante, aquela peça nunca mais me saiu da cabeça.  O impacto que esse texto provocou me fez pensar em questões fundamentais: Quem somos nós?  O que podemos fazer por quem amamos?  E por nós mesmos?”
JOCA ANDREAZZA é DAVID, pai de KARIN, que, de acordo com VALDEREZ CARDOSO GOMES, dramaturgista do espetáculo, é o porta-voz de BERGMAN. “David é, realmente, sua projeção.  Seu criador concede-lhe seus pensamentos e sentimentos secretos e insondáveis, uma vez que a personagem também é escritor, e sua obra, vítima de críticas injustas e infundadas, por parte do filho imaturo MAX (LUCAS LENTINI) e do genro MARTIN (MARCOS SUCHARA), que não têm embasamento para tais censuras.   A peça também retrata o isolamento de DAVID, mas, como diz BERGMAN, ‘De nada adianta discutir a solidão’.   A lucidez das personagens ressalta, ainda, a incomunicabilidade das pessoas, que são como ilhas isoladas num arquipélago de incompreensão.”
Considerada uma das obras-primas do genial diretor sueco, o foco desta montagem, no entanto, não se pauta pelo sucesso cinematográfico. “Esta encenação não tem nada, absolutamente nada, a ver com o filme.  A adaptadora já havia feito um trabalho de transposição do filme pro teatro, linguagens muito diferentes entre si. Aqui, MARCOS DAUD e VALDEREZ CARDOSO trouxeram importantes contribuições, para que a peça, efetivamente, pudesse se comunicar com o público brasileiro.  Eu não me interesso nem um pouco pelos dilemas escandinavos, se esses não forem os nossos dilemas”, explica ULYSSES CRUZ, que dirige a montagem.
ULYSSES ressalta, ainda, que o grande desafio é “transformar uma história de conflitos familiares, escrita por um sueco, em algo vivo, eletrizante, movimentado, para que o público do Brasil consiga se enxergar ali.  Essa peça tem de se comunicar com o seu Zé e a dona Maria e, ainda por cima, não deixar de ser Bergman”.  “Em suma, o que mais interessa, nesta encenação, no Brasil, é a possibilidade de uma discussão sobre temas existenciais, simples e visceral, de tal forma que ninguém escape ileso à força de Bergman”, conclui GABRIELA DUARTE.
 

 

 

 


Uma relação aparente?

 

 

 

 

 
 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto: Ingmar Bergman
Versão Teatral: Jenny Worton
Tradução: Yara Nagel
Adaptação: Marcos Daud
Dramaturgia: Valderez Cardoso Gomes
Direção: Ulysses Cruz
Diretor Assistente: Leonardo Bertholini
Diretor de Movimento: Leonardo Bertholini
 
Elenco: GABRIELA DUARTE, JOCA ANDREAZZA, MARCOS SUCHARA e LUCAS LENTINI
 
Preparação vocal: Renata Ferrari
Cenografia: Lu Bueno
Designer de Luz: Domingos Quintiliano
Figurinos: Cássio Brasil
Trilha Original: Daniel Maia
Fotos Estúdio: Jairo Goldflus
Fotos de Cena: João Caldas
Make e Hair: Lab.DudaMolinos
Projeto Gráfico: Estação Design     
Administração Geral: Ricca Produções
Produção Executiva: Carmem Oliveira
Direção de Produção: Giuliano Ricca
Produtores Associados: Gabriela Duarte / Giuliano Ricca
Produção: Ricca e Plateia Produções
Leandro Gomes - Kassu Produções
 

 

 

 

 


Bela atuação de GABRIELA e LUCAS.

 

 

 

 
SERVIÇO:
 
TEATRO POEIRA (145 lugares) 
Rua São João Batista, 104 – Botafogo – Rio De Janeiro  -  (21) 2537-8053
Dias, Horários e Preços: 5ªs e 6ªs feiras, às 21h – R$60,00; sábados, às 21h, e domingos, às 19h – R$80,00
Venda Online: www.ingresso.com  
Horário de funcionamento da bilheteria: de 3ª feira a domingo, das 15h às 21h
Duração: 75 minutos
Classificação: 12 anos
 
Curta Temporada: de 09 de Abril a 03 de Maio