“PLUFT, O FANTASMINHA”
ou
(O FANTASMINHA “CAMARADA” DO OUTRO LADO DO MUNDO.)
OU
(NADA É TÃO BOM QUE NÃO POSSA MELHORAR.)
“PLUFT, O FANTASMINHA” talvez seja o texto
do TEATRO INFANTIL genuinamente nacional que tenha sido mais montado, no Brasil.
Perdi a conta de a quantas encenações dessa peça eu já assisti,
profissionais e amadoras, tendo eu mesmo assinado uma direção, há muitos
anos, num curso em que dava aulas de interpretação. Torna-se, assim, uma
responsabilidade muito grande, para uma Companhia de TEATRO, escolhê-lo,
para mais uma nova montagem. Mas isso não parece ser problema, quando se
trata da “CIA PEQUOD”, que resolveu levar para o palco mais uma produção
desta peça, considerada, por pessoas do universo teatral e pelos
que amam o TEATRO, e até por sua própria autora, a obra máxima
de uma grande mulher do TEATRO, que sempre respirou TEATRO, até o
fim de sua vida neste plano, aos 80 anos, em 2001: MARIA CLARA
MACHADO.
Sinceramente, conhecendo a obra completa da “CLARINHA” e sendo grande admirador dela,
sinto uma grande dificuldade em colocar, no alto de um pódio, apenas uma de
suas 30 peças infantis e infantojuvenis, sem falar nas destinadas ao
público adulto, entretanto, no meio de, pelo menos uma meia dúzia, “PLUFT,
O FANTASMINHA” estaria.
Com relação à “CIA PEQUOD”, uma CIA carioca, cujo
trabalho e trajetória acompanho há muitos anos, desde sua fundação, há 22,
a cada nova produção, sempre digo a mim mesmo, e já deixei escapar a
outras pessoas, que, ali, com um determinado espetáculo, eles haviam se
superado e atingido o ponto mais alto de excelência, incapazes de
realizar algo melhor.
E nunca aprendia a lição. Toda vez que era anunciada uma nova
peça da “PEQUOD”, eu ficava muito feliz, torcendo para que
chegasse o dia da estreia, pois tinha a certeza de que assistiria a um grande
espetáculo. Terminada a sessão – a primeira que contara com a minha
presença, porque, normalmente, assisto às suas montagens, pelo menos, mais uma
vez –, eu, profundamente feliz e me sentindo recompensado, além de
agradecido a todos os envolvidos no projeto, dizia a mim mesmo: “Quebrei
a cara; de novo!!!”. Finalmente, porém, afirmo que aprendi, agora, a
lição e nunca mais pensarei dessa maneira.
Quando assisti à montagem mais recente, anterior a
esta, da “CIA”, no CCBB do Rio de Janeiro, “Pinóquio”,
que também esteve em cartaz em São Paulo, um espetáculo
que “corre em dois trilhos”, um observado pelo público
infantojuvenil, e outro, pelos adultos (Há, até mesmo, quem
afirme que tal montagem é apenas voltada aos adultos, com o que não concordo
plenamente.), mais uma vez, diante de uma OBRA-PRIMA, pensei que
algo igual a “Pinóquio” a “PEQUOD” conseguiria fazer;
melhor nunca.
Não sei se é pelo fato de “Pinóquio” ainda
estar muito presente, vivo, na minha memória e no meu coração, por ser uma montagem
muito recente, fico na dúvida quando me questiono se “PLUFT, O FANTASMINHA” “ganha”
do boneco de madeira que se tornou “gente de verdade”.
Ao mesmo tempo, acho essa dúvida algo excelente; quem GANHA, na verdade,
é o público. Que dúvida boa, para mexer com a gente! Que ótima autoprovocação!!!
Tão logo terminou a sessão de “PLUFT...”, à qual
assisti no dia 22 de setembro passado (Só estou escrevendo agora, por
total falta de tempo.), no Teatro do SESI-SP, localizado no Centro
Cultural FIESP, voltei a reforçar o pensamento de que não deveria,
mesmo, continuar com aquela “ladainha” do “Eles não vão
conseguir fazer mais nada melhor que isto.”, porque tenho a certeza de
que, na próxima, deixarei o Teatro “nas nuvens”, como
sempre ocorre pós-TEATRO com a “PEQUOD”. Estava eu lá, totalmente
encantado, na primeira fila, cercado por mais de quatro centenas de crianças
muito pequenas e pré-adolescentes, acompanhadas de seus professores, ocupando
os 456 lugares daquele agradabilíssimo espaço, na Avenida
Paulista. Não sei se o encantamento atingia mais a mim ou a elas.
Acho a nós todos. Sinceramente, agora (Esta crítica começou a ser escrita, a
mão, no quarto do hotel em que eu estava hospedado, na manhã seguinte ao dia em
que assisti à peça.), a adrenalina sob controle, acho que ambas, “Pinóquio”
e “PLUFT, O FANTASMINHA”, são duas OBRAS-PRIMAS, bem diferentes, uma
da outra, e iguais em tudo o que há de melhor numa montagem teatral,
mormente voltada para os pequenos. Mas o que interessa agora é o “PLUFT...”,
visto que já escrevi sobre “Pinóquio” (Procurem no blogue - dezembro de 2021.), e é sobre aquele que continuarei escrevendo.
SINOPSE:
Inspirada
pela estética dos animes e mangás, a “CIA PEQUOD” celebra
os 100 anos de Maria Clara Machado, uma das maiores autoras brasileiras
do TEATRO PARA CRIANÇAS.
A “PEQUOD”
encena a obra mais famosa da dramaturga, “PLUFT, O FANTASMINHA”.
O
célebre personagem, que morre de medo de gente, viverá uma grande
aventura, ao encontrar a menina MARIBEL, sequestrada pelo temido pirata CARA
DE MAU, que tinha a intenção de se apoderar de um tesouro que pertencia ao
avô da menina.
Enquanto
PLUFT tem medo de gente, a menina MARIBEL tem horror a fantasmas.
Inesperadamente,
o fantasma e o ser humano criam, entre si, um forte elo de amizade, para
combater o mal e resguardar o bem.
Esse
encontro inusitado dá, ao protagonista, o impulso e a coragem para
crescer e enfrentar o mundo.
O
texto foi escrito e encenado, pela primeira vez, em 1955,
no “Teatro O Tablado”, dirigido pela autora, fundadora
daquele espaço, hoje, administrado por sua sobrinha, Cacá Mourthé,
que preserva o trabalho e a memória da ilustre e querida tia.
Um dos detalhes mais interessantes e lindos do espetáculo,
e seu um grande diferencial, com relação a todas as montagens da peça
a que assisti, se concentra no fato de o diretor, MIGUEL VELLINHO,
ter acrescentado, à sua leitura de “PLUFT...”, um toque oriental, uma liberdade
do artista encenador, visto que, no original, não já um lugar específico
onde se passa a ação. Li, em várias fontes, incluindo o "release" que me foi enviado, que essa decisão do diretor teria surgido a partir do momento
em que estava claro que a estreia seria na capital paulista, onde habita uma
numerosa colônia oriental, principalmente de japoneses. Nesta encenação,
não há nada, em nenhum momento, com um texto verbal, que faça tal indicação,
contudo, pela cenografia, figurinos e outros detalhes, fica
bem claro que a aventura acontece no Japão. “PLUFT...” do
outro lado da Terra, QUE É REDONDA. E
NÃO SE FALA MAIS NISSO!!!
O primeiro sinal de que
entraremos em contato, durante cerca de 45 minutos, com a cultura
japonesa pode ser percebido, tão logo o espectador se acomoda, em
sua poltrona, e olha para o palco, onde verá um cenário deslumbrante,
um dos mais lindos, criados pelo talento de DORIS ROLLEMBERG, o qual nos
transporta a um jardim japonês, com direito a um grande bonsai,
de uma cerejeira em flor, árvore símbolo daquele país, colocado quase no proscênio, iluminado,
propositalmente, para aguçar a curiosidade da plateia. Os que têm alguma
familiaridade com a cultura nipônica notarão, também, nesse fascinante
cenário, um traço de inspiração oriental, representado
por uma janela, que indica o sótão da casa onde a ação acontece, dividindo o
interior do exterior, pintado na tela de fundo. Afirmo reconhecer, nesta
obra de DORIS, um de seus mais belos e bem acabados trabalhos de
cenografia.
Foto: Gilberto Bartholo.
Foto: Gilberto Bartholo.
A proposta de fazer com que “PLUFT...”
atinja o outro lado do mundo está presente em referências de mangás (histórias em quadrinhos
desenhadas no “estilo japonês”) e animes (versões animadas, para
a televisão e o cinema, dos mangás.) infantis, como “A princesa Mononoke”, “Ponyo” e “Meu amigo Tororo”. A marca do Oriente também se faz presente nos belos
figurinos, desenhados por KIKA DE MEDINA. Destaco uma original e
criativa ideia de os atores usarem uma miniatura de um típico leque japonês,
aberto, preso à testa, que “oculta” a pessoa, deixando, porém, a boca livre,
para que o som se propague sem qualquer prejuízo e para que o público possa ver os lábios em movimento. Achei lindo esse detalhe nos
figurinos.
Também os bonecos, criações de MARIA CRISTINA PAIVA e MATHILDE PLISSON, usam
trajes de inspiração oriental. Esses bonecos, verdadeiras obras de arte,
são, habilmente, manipulados por gente que sabe tudo dessa ARTE, tão difícil,
ou mais, para os atores, quanto representar sem eles. Todos têm uma sólida
formação nesse ofício, e o resultado não poderia ser melhor, incluindo aí as
variadas vozes que cada um encontrou para os seus manuseados. Todos o fazem com
total requinte de perefeição, porém, aqui, com respeito às vozes de todos, registro um
destaque para CAIO PASSOS.
Quem foi que disse que TEATRO
envolvendo manipulação de bonecos não combina com a alta tecnologia?
MIGUEL VELLINHO apostou, e deu muito certo, na utilização da moderna
tecnologia, que utiliza recursos
especiais de iluminação, via
Wi-Fi, assinada por RENATO MACHADO e MAURÍCIO FUZIYAMA.
O que essa dupla de artistas de criação bolou, em termos de efeitos
especiais, para esta nova roupagem de um texto de 67 anos,
é de nos emocionar ao extremo, porque cada cena foi, milimetricamente, pensada,
em termos de luz, para que a ambientação ficasse, além de linda, muito
expressiva, realçando e valorizando os mínimos detalhes da cenografia.
Um trabalho merecedor de prêmios: ambos: cenografia e iluminação.
A dramaturgia
e a adaptação do texto é um trabalho coletivo, da “CIA PEQUOD
– TEATRO DE ANIMAÇÃO”, e não poderia ter sido melhor, para ganhar a brilhante
direção de MIGUEL VELLINHO. Ele só fez aprimorar o que estava no
papel, acarretando uma encenação extremamente dinâmica e
agradabilíssima aos nossos olhos e ouvidos. O toque de modernidade
aparece constantemente, até mesmo num detalhe, da perseguição do malvado pirata
a MARIBEL, quando os dois bonecos cruzam o fundo do palco pendurados numa tirolesa.
Houve algumas mudanças nas personalidades e nomes de alguns personagens.
A mãe de PLUFT, uma mulher “recatada e do lar”, típica
representante da dona de casa do século passado, “reaparece de forma renovada e atualizada
aos tempos de agora”.
O personagem PIRATA
PERNA DE PAU teve seu nome trocado para CARA DE MAU”.
Miguel Vellinho.
(Foto: autoria desconhecida.)
Um detalhe que pode passar despercebido
à grande maioria dos espectadores é que os fantasmas, diáfanos,
como não poderia deixar de ser (QUE OBRA DE ARTE!!!), iluminados por
dentro, um trabalho de MAURÍCIO FUZIYAMA, fazem voos incríveis, num “balé aéreo”, e têm a
cor que os ilumina variando, de acordo com seus estados de ânimo e sentimentos,
como medo, raiva e vergonha.
Valorizo, extremamente, o trabalho de atores
manipuladores de bonecos, porque exige cuidados especiais, no seu manuseio
e controle, propriamente ditos, além de um profundo trabalho de interpretação,
que envolve expressar a emoção dos “personagens-objetos”, sem
utilizar seu próprio corpo e voz, além de uma atenção e concentração
muito aguçadas. Qualquer deslize pode pôr a perder uma boa cena. Destarte, aplaudo,
de pé e com a maior potência, o trabalho de todo o elenco - CAIO PASSOS, LILIANE
XAVIER, MÁRCIO NASCIMENTO, MARIANA FAUSTO, MARISE NOGUEIRA
e RAQUEL BOTAFOGO
-, que têm seus
personagens fixos, mas também fazem outros e ajudam nas manipulações,
quando seus personagens não fazem parte da cena, sem destacar
ninguém, uma vez que é por meio do coletivo que se chega a uma OBRA-PRIMA,
como é esta montagem, que conta com uma FICHA TÉCNICA extensa, na
qual todos os envolvidos no projeto são importantes e merecem a minha
reverência. E, embora já tenha expressado a minha avaliação acerca do trabalho dos atores e atrizes do elenco, não poderia deixar de acrescentar, reforçando a opinião de que existe um total nivelamento, em termos de interpretação, que o sexteto me surpreende, a cada montagem da "CIA", pelo talento, dedicação e amor ao que fazem.
FICHA TÉCNICA:
Texto Original:
Maria Clara Machado
Dramaturgia e Adaptação:
Cia PeQuod – Teatro de Animação
Direção:
Miguel Vellinho
Elenco (por
ordem alfabética): Caio Passos, Liliane Xavier, Márcio Nascimento, Mariana
Fausto, Marise Nogueira e Raquel Botafogo
Cenografia:
Doris Rollemberg
Figurinos:
Kika de Medina
Iluminação: Renato Machado e Maurício Fuziyama
Trilha Sonora Original e Produção Musical: Maurício Durão
Criação e Escultura
dos Bonecos: Maria Cristina Paiva e Mathilde Plisson
Equipe de Confecção
de Bonecos e Adereços: Arlete Rua, Diego Diener, Diirr, Eduardo Andrade, Fampa
Artes, Gustavo Kaz, Miguel Vellinho, Rogerinho Assis e Thaisa Violante
Adereços Cênicos:
Eduardo Andrade - Arte 5
Adereços de Figurino:
Arlete Rua
Iluminação dos
Bonecos: Maurício Fuziyama
Operador de Luz:
Felipe Miranda
Operadores de Som:
Edson Rubens Soldi e Alessandro Aoyama
Sonorização:
Alessandro Aoyama
Cenotécnicos:
Anderson Batista Dias Veiga e Djavan Costa
Equipe de Montagem
de Luz: Felipe Miranda, Larissa Kalusinski e Maurício Fuziyama
Costureira Cenário:
Nice Tramontin
Costureiras Bonecos:
Maria Amélia da Silva e Maria do Carmo
Assistente de Adereços
Cênicos: Marcely Soares
Assistente de Produção:
Gustavo Kaz
Programação Visual:
Roberta de Freitas
Fotos: Renato
Mangolin
Assessoria de
imprensa: Canal Aberto - Daniele Valério, Márcia Marques e Rafaella Martinez
Assessoria de Mídias
Digitais: Rafael Teixeira
Produção Local:
Augusto Vieira
Produção Executiva:
Thiago Guimarães
Direção de
Produção: Liliane Xavier
Coordenação Geral:
Lilian Bertin e Thiago Guimarães
Idealização:
Cia PeQuod - Teatro de Animação
Realização:
SESI São Paulo
SERVIÇO:
Temporada: De
26 de agosto a 04 de dezembro de 2022.
Local: Teatro
do Sesi - SP – Centro Cultural FIESP.
Endereço: Avenida
Paulista, nº 1313 (Metrô Trianon-Masp).
Dias e
Horários: 5ªs e 6ªs feiras, às 11h; sábados e domingos, às 15h.
Valor dos Ingressos:
GRÁTIS - A reserva gratuita de ingressos pode ser feita pelo
site www.sesisp.org.br/eventos.
OBSERVAÇÃO: As sessões das 5ªs e 6ªs feiras são direcionadas aos grupos e escolas.
O agendamento pode ser feito pelo e-mail: ccfagendamentos@sesisp.org.br
Duração: 45
minutos.
Classificação Indicativa:
Livre.
Mais
informações: http://www.centroculturalfiesp.com.br.
Gênero: TEATRO Infantil, de BONECOS.
Desde sua fundação, a “CIA PEQUOD –
TEATRO DE ANIMAÇÃO” trabalha no sentido de aprofundar experiências que “deságuam”
numa cena de renovação para o TEATRO DE ANIMAÇÃO e que tem refletido uma
aproximação entre o cinema, a “performance”, a dança
e a cultura pop contemporânea, todos esses elementos presentes na encenação
aqui analisada. E, não posso deixar de dizer, essa “renovação”
fica mais robusta e acentuada a cada nova montagem da “CIA”.
É importante enxergar as entrelinhas de
um texto teatral e não ficar na superfície, presos, apenas, à história. Um
olhar mais atento ao texto de “PLUFT, O FANTASMINHA” nos faz
concluir que a peça, ao desenvolver a cumplicidade entre o fantasma
com um humano, promove o “encontro com o outro, com o diferente,
com a aventura maior de todo ser humano que precisa crescer e enfrentar o mundo”.
A minha RECOMENDAÇÃO DO ESPETÁCULO está implícita, em tudo o que escrevi,
acima, sobre ele. É, realmente, um “trabalho de filigranas”,
imperdível!!!
FOTOS: RENATO MANGOLIM
GALERIA PARTICULAR:
Com o elenco da peça.
E VAMOS AO TEATRO,
COM TODOS OS
CUIDADOS!!!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS
DE ESPETÁCULO
DO BRASIL,
COM TODOS OS
CUIDADOS!!!
A ARTE EDUCA E
CONSTRÓI, SEMPRE!!!
RESISTAMOS, SEMPRE
MAIS!!!
COMPARTILHEM ESTE
TEXTO,
PARA QUE, JUNTOS,
POSSAMOS DIVULGAR
O QUE HÁ DE MELHOR NO
TEATRO BRASILEIRO!!!
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