terça-feira, 17 de março de 2026

“HÉTERO SIGILO”

ou

(A HOMOSSEXUALIDADE RETRATADA SEM APELAÇÃO E COM MUITO TALENTO, SERIEDADE 

E BOM GOSTO.)

 

 


         Dependendo do momento, determinados temas começam a pulular, chegando a cansar. Já de algum tempo, no TEATRO, surgem, de todos os lados, a toda hora, peças com temas ligados ao universo LGBTQUIAPN+. Absolutamente, nada contra - seria um enorme desacerto de minha parte -, porém seria preciso que as peças se apresentassem com um mínimo de qualidade e dignidade, o que, infelizmente, não é o que observamos na maioria das vezes. O que vemos, sim, são espetáculos “caça-níqueis”, insipientes e com forte apelo erótico, recorrendo, muitas vezes, a cenas “quentes” e ao nu frontal explícito, o que satisfaz bastante, naturalmente, aos falsos produtores, os quais sorriem com as casas lotadas por um público específico para esse tipo de “espetáculo”.



         Quando ouvi falar da peça “HÉTERO SIGILO”, em cartaz no Teatro Laura Alvim (Casa de Cultura Laura Alvim) (VER SERVIÇO.), deixei aflorar a minha porção “desconfiado”. Seria mais uma coisa apelativa e mal encenada, em todos os aspectos? Era ver, para conferir e tirar a dúvida. E se for ruim? Estarei perdendo o meu tempo, podendo tê-lo deslocado para uma produção que valesse a pena. Quando, depois, o convite para assistir à peça me chegou às mãos, via assessoria de imprensa PAULA CATUNDA -, comecei a me interessar pela montagem, por conta do teor do “release”. Mas sempre seria uma incógnita. Agendamos a data do último sábado, 14 de março de 2026. Poucos dias antes, tive a oportunidade de assistir a uma entrevista, num programa de TV, de BERNARDO DUGIN, o ator do monólogo, cujo trabalho eu conhecia muito pouco e não como pessoa, também seu idealizador e autor do texto. A partir daquele momento, passei a desejar que chegasse logo o dia agendado para eu assistir ao solo. O rapaz deixou passar, em suas respostas, sensibilidade, inteligência, doçura e muita verdade. Senti que valeria a pena assistir ao espetáculo; e não me enganei.




 

SINOPSE:

Vivendo anos sob a máscara de um personagem "hétero", que ele mesmo criou, BERNARDO DUGIN constrói um relato íntimo e potente, calcado em sua experiência pessoal, sobre os pactos que fazemos para caber na sociedade.

A peça expõe como a heteronormatividade ensina a mentir, a performar, a se aprisionar e aponta caminhos possíveis de coragem, pertencimento e libertação.


 


 

            Antes de mais nada, é preciso dizer que a peça surgiu a partir de um fato real, muito desagradável e totalmente inadmissível. Trata-se de um ataque homofóbico, sofrido por BERNARDO e seu namorado, durante uma missa de sétimo dia, em 2023, em Nova Friburgo, da parte de quem oficiava a cerimônia religiosa. Pasmem os que me leem!  O episódio teve repercussão nacional e tornou o padre agressor réu, em um processo judicial que discute os limites entre religiosidade, liberdade de expressão e discurso de ódio. Embora não apague os danos morais e psicológicos, causados pelo “religioso”, em sua nefasta atitude, cumpre dizer que o Ministério Público do Rio de Janeiro solicitou indenização, por danos morais coletivos à causa LGBTQIAPN+, reconhecendo o impacto simbólico e social da violência.




  No palco, BERNARDO é tudo aquilo que demonstrou ser, na referida entrevista, e muito mais: conheci sua capacidade de interpretar um texto teatral, com profunda naturalidade e competência. E nem poderia ser diferente, pois falava, como se estivesse conversando com o público, sobre si mesmo. Uma delícia de ser ouvido.



          O consagrado diretor JOÃO FONSECA é o “maestro” desta encenação, repetindo os resultados bons, como, praticamente, consegue em tudo em que põe as mãos. Talvez um leigo não perceba, mas um olhar técnico permite descobrir que JOÃO deixou BERNARDO bem à vontade, para ser “confessar”, explorando o talento do ator. Uma direção simples e harmoniosa. Uma interpretação assaz convincente e emocinante.



         O cenário foi idealizado por NELLO MARRESE e é bem simples: uma mesa e duas cadeiras de braço, que o ator muda de lugar com muita frequância. Ao alto, pendurado, um enorme espermatozoide, “gigantão”, elemento cuja presença na cenografia, confesso, não consegui entender bem, embora, em nada, a desabone. O simples e discreto figurino, em tons pastéis, também leva a assinatura de MARRESE. DANIELA SANCHES nos brinda com uma iluminação inteligente, ágil e variada, seguindo a intenção e o nível de tensão, ou não, de cada momento da peça.



  A trilha sonora original e a direção musical são de FEDERICO PUPPI, um magistral músico e compositor, “cuja música atua como uma camada dramatúrgica contínua, ampliando silêncios, tensões e estados emocionais da cena”.



   Neste monólogo, BERNARDO DUGIN responde pela idealização, a dramaturgia e a “performance”. O texto reflete sobre heteronormatividade, violência simbólica e o custo psicológico de viver sob pactos de silêncio. Sozinho em cena, o artista transita entre humor, dor e libertação, ao construir um relato íntimo e potente sobre os mecanismos sociais que exigem disfarce, “performance” e apagamento, como forma de sobrevivência.



    DUGIN faz, aqui, a sua estreia como dramaturgo e se sai muito bem, com um texto limpo, claro, de fácil compreensão e comunicação com o público, mormente os indivíduos “gays”, tanto os que assumem a sua orientação sexual quanto os que, por qualquer motivo, não o fazem. Com a peça, BERNARDO revisita uma experiência pessoal de violência LGBTQIAPN+, para construir uma reflexão íntima, sensível e contundente, que pode servir de catarse para muita gente.



    “O espetáculo não é sobre assumir uma orientação sexual. É sobre o que a gente precisa esconder para continuar existindo, sem ser punido por isso. A violência não começa no soco; começa no silêncio que a sociedade nos obriga a manter”, afirma, peremptoriamente, DUGIN. Mesmo assim, arrisco-me a dizer que, terminada a sessão a que estive presente, percebi que se trata de um texto didático, sem ser “chato”, e, até mesmo, de utilidade pública. No auditório, um silêncio sepulcral, de respeito e atenção. O ator não se coloca como um terapeuta nem aponta dedos; muito menos, se vitimiza. Mas, de forma corajosa e totalmente verdadeira, escancara as portas do seu coração, com seriedade, verdade, leveza e, até mesmo, boas pinceladas de humor. Apesar de ser baseada num fato negativo, o espetáculo é “para cima”, deixando, ao espectador, boas lições e ensinamentos, além de indicar, ou sugerir, caminhos e atitudes a serem seguidos.

 



 

FICHA TÉCNICA:

Idealização: Bernardo Dugin

Dramaturgia: Bernardo Dugin

Direção: João Fonseca

Assistência de Direção: André Celant

 

Atuação: Bernardo Dugin

 

Cenário: Nello Marrese

Figurino: Nello Marrese

Iluminação: Daniela Sanchez

Trilha Sonora Original: Federico Puppi

Direção Musical: Federico Puppi

Direção de Movimento: Vanessa Garcia

Identidade Visual: Loomi House

Assessoria de Imprensa: Catharina Rocha e Paula Catunda

Fotografia: Nil Caniné

Produção: O Delirante Produções

Assistência de Produção: Azul Scorzelli


 

 

 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 06 a 29 de março de 2026.

Local: Teatro Laura Alvim (Casa de Cultura Laura Alvim).

Endereço: Avenida Vieira Souto, nº 176, Ipanema – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: 6ª feira e sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Valor dos Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada).

Venda dos Ingressos: Bilheteria do Teatro Laura Alvim, de 3ª feira a domingo, das 16h às 20h (sem taxa de serviço), ou “on-line”: https://funarj.eleventickets.com (com taxa de serviço).

Duração: 75 minutos.

Classificação Etária: 18 anos.

Gênero: Monólogo Dramático.


 


 



          Não se verifica o menor grau de apelação, no espetáculo, e creio que a indicação etária poderia ser de 14 ou 16 anos. Afinal, estamos no segundo decênio do século XXIO sucesso da peça tem sido tão grande, com sessões de lotação esgotada, que já há desejo e estudos, por parte da produção, para próximas temporadas, no Rio e em São Paulo; quiçá, em outras praças também. Por sua comprovada qualidade, RECOMENDO O ESPETÁCULO.

 

 

 

 

 


FOTOS: NIL CANINÉ.

 

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!

 

 

 





































































































segunda-feira, 16 de março de 2026

 

          “AUTO DA COMPADECIDA”

ou

(O QUE É BOM SEMPRE PODE MELHORAR.)

ou

(O NORDESTE BRASILEIRO COMO UM MICROCOSMO DE UM BRASIL INTEIRO.)






         Em qualquer setor, assunto ou atividade, atingir um nível de excelência que faça algo ou alguém ser reconhecido por unanimidade é bastante difícil e, evidentemente, motivo de muita honra; para o alvo da honraria e para os que assim o reconhecem. ARIANO SUASSUNA e “AUTO DA COMPADECIDA” me parecem – aliás, digo com certeza - se encaixar nisso, como dois bons exemplos. Mas nada é tão bom, que não possa melhorar, como é o caso da atual atração teatral que está ocupando a Arena do SESC Copacabana (VER SERVIÇO.). Trata-se de uma nova e empolgante releitura da maior obra de ARIANO, pelos olhos de um outro gigante, GABRIEL VILLELA, um dos nossos maiores diretores e encenadores. Juntam-se os três elementos e temos uma produção teatral impecável, apresentada pelo “Grupo Maria Cutia”, de Belo Horizonte, que veio acrescentar mais brilho à temporada carioca de TEATRO de 2026.




Ariano Vilar Suassuna (João Pessoa,1927 – Recife, 2014) foi um intelectual, escritor, filósofo, dramaturgo, professor, romancista, artista plástico, poeta, político, palestrante (Suas “aulas-espetáculo” eram fabulosas e indescritíveis.) e advogado. Um multiartista e um dos mais lúcidos e festejados intelectuais brasileiros de todos os tempos, o grande idealizador, em 1970, do “Movimento Armorial”, interessado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais. Esse “Movimento” teve como objetivo criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do nordeste brasileiro, procurando orientar, para esse fim, todas as formas de expressões artísticas: música, dança, literatura, artes plásticas, TEATRO, cinema, arquitetura, entre outras. Dá um GOOGLE, que vale a pena!




SUASSUNA foi um notável defensor da riquíssima e variada cultura nordestina brasileira e um dos maiores expoentes da nossa literatura e do TEATRO nacional, tendo sido, em 2012, indicado, pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal, como representante do Brasil na disputa pelo “Prêmio Nobel de Literatura”, vencido pelo chinês Mo Yan. Suas obras já foram traduzidas para diversos idiomas, incluindo inglês, francês, espanhol, alemão, holandês, italiano e polonês, tendo sido, também, objeto de inúmeros trabalhos acadêmicos em universidades brasileiras e estrangeiras.



Sua produção literária, que engloba poesia, TEATRO e romances, bem como sua atividade na área da cultura em geral, estão, fundamentalmente, ligadas aos cenários nordestinos e à cultura popular da região, e foi um grande divulgador dessa cultura para o restante do Brasil, chamando a atenção para a literatura de cordel, os trovadores e repentistas, as artes visuais, o artesanato e a música.



Suas obras contêm elementos da cultura erudita e da popular, colocando esses dois modos de cultura não como antagônicos, mas complementares. Foi um vigoroso defensor da cultura e das tradições regionais, mas não era contrário às mudanças e às influências externas, mesmo as estrangeiras; mas não as aprovava, quando vinham através de imposição ou para menosprezar e inferiorizar a cultura local. Ao mesmo tempo, foi um crítico do contexto social de desigualdade e opressão do sertanejo, da violência, da pobreza e da fome endêmicas, sem, contudo, recair na panfletagem, muitas vezes, exercendo a crítica através do humor e da sátira, que muito se prestam para isso.




 Seus personagens, geralmente, são estereótipos: o fazendeiro (“coronel”), poderoso, tirânico e avarento; o cangaceiro, violento e fora da lei, que transita entre o heroísmo e a vilania; o policial corrupto; o sertanejo pobre, mas astuto; o padre serviçal dos poderosos; a falsa beata... Alguns deles aparecem em “AUTO DA COMPADECIDA”.



 Entre suas obras mais conhecidas, estão: no TEATRO, “AUTO DA COMPADECIDA” (1955), “A Pena e a Lei” (1959), “Auto de João da Cruz (1950), “O Santo e a Porca” (1957), “A Pena e a Lei” (1959), “A Farsa da Boa Preguiça” (1960) e “As Conchambranças de Quaderna (1987) – num total de 17 peças escritas; no romance, o destaque maior vai para “A Pedra do Reino (1971).

 


 

SINOPSE:

         “AUTO DA COMPADECIDA” traz as aventuras de dois amigos, Chicó (HUGO DA SILVA) e João Grilo (LEONARDO ROCHA), as quais começam com um enterro e testamento do cachorro do Padeiro (DÊ JOTA TORRES) e de sua Mulher (MARIANA ARRUDA), sendo que tudo acaba numa “epopeia milagrosa”, no sertão, envolvendo o clero, o cangaço, Jesus (DÊ JOTA TORRES), Maria (MARIANA ARRUDA) e o Diabo (MARCELO VERONEZ).


 



 Trata-se de um “drama”, ocorrido na região nordeste brasileiro, com elementos da tradição da literatura de cordel, do gênero COMÉDIA e traços do barroco católico brasileiro, com a marcante mistura da cultura popular e da tradição religiosa. Na escrita, apresenta traços de linguagem oral, demonstrando, na fala dos personagens, sua classe social. Há, também, regionalismos nordestinos, região natural de SUASSUNA e cenário da peça. O texto, na verdade, surgiu de três folhetos de cordel: “O Testamento do Cachorro”, “O Cavalo que Defecava Dinheiro” e “O Castigo da Soberba”. Os três serviram de inspiração para esta grande obra teatral, a qual permanece viva e atual, totalmente atemporal, no nosso imaginário. Faço coro com o mestre Sábato Magaldi, quando diz que “AUTO DA COMPADECIDA”, que projetou, definitivamente, o nome de ARIANO SUASSUNA para todo o Brasil, é “o texto mais popular do moderno TEATRO brasileiro”. A dramaturgia ainda foi muito bem adaptada, com extremo bom gosto e sucesso, para o cinema e a televisão.




 Como se pode verificar, na SINOPSE, alguns atores se revezam em mais de um personagem, transformando-se, perfeitamente, nas características de cada um deles. O que eu teria de dizer sobre a atuação de um diria para todos: 5 atores e 2 atrizes formam um elenco magistral, cujo trabalho, infelizmente, eu ainda não conhecia – é a primeira vez que o “Grupo Maria Cutia”, de Belo Horizonte, que está completando 20 anos, vem ao Rio -, apesar de, há muito, estar interessado nesta montagem e no “Grupo”. Que gente talentosa é esse pessoal do “Maria Cutia”, minha gente! Bom demais da conta esse trem, sô! A peça conta com 18 personagens, reduzidos a 13, nesta esplêndida leitura, que sofreu mínimos cortes, os quais, em absoluto, trouxeram algum prejuízo à obra original. Vale a pena ressaltar que as pequenas omissões textuais cederam espaço a algumas piadas e críticas muito atuais e bastante pertinentes. Mas coisa leve...




 LEONARDO ROCHA interpreta João Grilo, homem pobre e aproveitador, que vive arranjando confusões. Trabalha para o Padeiro e é o melhor amigo de Chicó. HUGO DA SILVA é Chicó, o “amarelo safado”, homem covarde e mentiroso. Também trabalha para o Padeiro e é o melhor amigo de João Grilo. Além desse personagem, o ator também encarna Severino de Aracaju, um cangaceiro que encontrou, no cangaço, uma forma de sobrevivência, depois que seus pais foram mortos pela Polícia. MARIANA ARRUDA se divide entre a Mulher do Padeiro e Nossa Senhora Compadecida, duas personagens tão díspares. A primeira, o profano, é uma mulher adúltera e muito avarenta, que se diz santa e vive agradando seu marido. A segunda, representando o sagrado; é a própria Nossa Senhora Compadecida, bondosa e cândida, que intercede por todos no julgamento, na hora do juízo final. DÊ JOTA TORRES, sem um zero, “se vira nos três”, interpretando o Palhaço, que atua como apresentador; o Padeiro, homem também avarento, dono da padaria e presidente da “Irmandade das Almas”, que ajudava nas obras da igreja local, de Taperoá, e esposo de uma mulher infiel; e Manuel, o próprio Jesus Cristo e, também, o Juiz do povo, julgando sempre com sabedoria e imparcialidade, mas com misericórdia. Na versão original, ele possui a pele extremamente negra, mas, aqui, isso é um pouco atenuado. THIAGO QUEIROZ é o Sacristão, desconfiado e conservador. MARCELO VERONEZ ora é o Padre João, responsável pela paróquia de Taperoá, muito racista e avarento, visando somente ao lucro material; ora é o Diabo, que vive tentando imitar Manuel e, por isso exige reverências pelos lugares onde passa. É o justo promotor do julgamento, mas, diferentemente, de Manuel e da Compadecida, não tem a menor empatia nem misericórdia. POLYANA HORTA, “last, but not least”, representa Antônio Morais e o Bispo. Este, também muito interesseiro, falso, avarento e difamador de seus “colegas” de "profissão". Aquele é Antônio Noronha de Brito Morais, um “major”, só por título e não de patente, ignorante e autoritário. Descende do Conde dos Arcos, segundo ele, o que o faz se sentir muito importante; mora numa fazenda, nos arredores de Taperoá. Usa seu poder para amedrontar os mais pobres e desvalidos. Todos do elenco representam seus papéis com maestria e arrancam muitos risos da plateia, com ótimas veias cômicas, mas POLYANA HORTA se destaca, nesse aspecto, ao interpretar o Bispo, com um sotaque do típico “mineirês”, que nos faz gargalhar. Ri muito e estava muito carente disso no dia em que assisti à peça.















 Já conferi “trocentas” montagens deste texto e, ainda como ator, na minha juventude, tive a oportunidade de representar tanto João Grilo quanto Chicó, em duas montagens distintas, uma amadora e outra semiprofissional. Este texto, que quase sei de cor, é, talvez, o mais encenado Brasil afora. A montagem aqui analisada é muito diferente de todas as que conheci. É vendida como um “musical”, mas discordo dessa classificação, visto que as canções que formam a trilha sonora da peça, excelente, por sinal, não têm suas letras como texto da trama, e sim são sucessos de grandes compositores e cantores brasileiros, como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Sérgio Sampaio, Zeca Baleiro e outros, tudo de muito bom gosto, que se encaixam, brilhantemente, na dramaturgia. Diria que se trata de um espetáculo de “Teatro musicado”, o que não tem a menor importância, pois se trata de uma OBRA-PRIMA, mais uma para o extenso e vitorioso currículo de GABRIEL VILLELA, mais uma vez fazendo valer seu talento e marca registrada, representada pela música e pelo cenário e trajes extremamente brasileiros, lindos e perfeitos, com muito colorido, passando alegria e leveza. A cenografia e os figurinos são assinados pelo próprio GABRIEL, conhecido e admirado pela riqueza de elementos, identificados com a “estética barroca”, executados por sua fiel equipe de colaboradores. A plasticidade da peça é realçada bom uma bonita luz, obra de RICHARD ZAIRA. Muito interessante é a maquiagem, cujo nome do artista responsável, infelizmente, não aparece na FICHA TÉCNICA, com uma mistura do circense com o burlesco. Ainda tenho que realçar, nesta montagem, o nome de BABAYA, responsável pela preparação vocal e que divide, com FERNANDO MUZZI e HUGO DA SILVA, a direção musical do espetáculo.






 Sobre o “Grupo Maria Cutia”: Nasceu em Belo Horizonte, em 2006, e, desde sua fundação, vem se apresentando em praças, parques, ruas e palcos de Minas, do Brasil e do mundo. Tem sede própria em Belo Horizonte, a “Toca da Cutia”, onde ensaia e ministra oficinas e treinamentos de palhaçaria e música-em-cena. Já se apresentou em 6 países e 24 estados, totalizando mais de 800 mil espectadores em mais de 250 cidades.



 Sobre esta montagem, há vários destaques e camadas que valem a pena ser lembrados. Nesta encenação, o “Grupo Maria Cutia” revisita o universo mítico do herói astuto e “sem caráter”, (uma espécie de “Macunaíma da vida”), tão caro à cultura popular brasileira, conectando-o ao cenário político e social atual do país. “Apesar de Suassuna ter escrito a peça há mais de 70 anos, o ‘Auto’ é uma história absolutamente atual. E a nossa adaptação torna a peça ainda mais contemporânea, porque introduzimos, no texto, acontecimentos de agora, políticos, de comportamento, da nossa sociedade. Isso traz sempre a ideia de que a peça tem uma importância narrativa para hoje, conectando, também, o público, mais ainda, com a história.”, afirma LEONARDO ROCHA. A direção, de GABRIEL VILLELA funde, ao texto de Suassuna, humor ácido e estética exuberante, que acentua o caráter burlesco da obra. Com abordagem política – sem didatismo ou partidarismo –, o espetáculo revela novas camadas da dramaturgia original, destacando aspectos do Brasil contemporâneo.

 

 



 


FICHA TÉCNICA:

Texto: Ariano Suassuna

Concepção: Gabriel Villela

Direção Geral: Gabriel Villela

Assistência de Direção: Lydia Del Picchia

Direção Musical: Babaya, Fernando Muzzi e Hugo da Silva

 

Elenco: Leonardo Rocha (João Grilo), Hugo da Silva (Chicó e Severino do Aracaju), Mariana Arruda (Mulher do Padeiro e Nossa Senhora Compadecida), Dê Jota Torres (Palhaço, Padeiro e Manuel - Nosso Senhor Jesus Cristo), Thiago Queiroz (Sacristão), Marcelo Veronez (Padre João e Diabo) e Polyana Horta (Antônio Morais e Bispo)

 

Cenário: Gabriel Villela

Figurinos: Gabriel Villela

Iluminação: Richard Zaira

Desenho Sonoro e Operação de Som: Vinícius Alves

Preparação Vocal: Babaya

Assistência de Figurino: José Rosa

Coordenação do Ateliê Gabriel Villela: José Rosa

Pintura de Arte: Rai Bento

Fotografia: Tati Motta

Produção: Jorge Costa e Huemara Neves

Produção Local: Ana Sol

Coordenação de Comunicação: Rizoma Comunicação & Arte (Beatriz França)

Redes Sociais e Tráfego: Rizoma Comunicação & Arte (Letícia Leiva)

Design Gráfico: Cintia Marques

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany


 

 

 

 

SERVIÇO:

Temporada: De 05 de março a 29 de março de 2026.

Local: SESC Copacabana (Arena).

Endereço: Rua Domingos Ferreira, nº 160, Copacabana – Rio de Janeiro.

Telefone: (21) 3180-5226.

Capacidade: 140 espectadores.

Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 20h; domingo, às 18h.

Valor dos Ingressos: R$ 10 (associado do Sesc), R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira).

Vendas: www.ingresso.com (com taxa de serviço) ou na bilheteria do Sesc Copacabana (sem taxa de serviço), de 3ª a 6ª feira, das 9h às 20h; sábado, domingo e feriado, das 14h às 20h.

Duração: 80 minutos.

Classificação Indicativa: 12 anos.

Gênero: COMÉDIA Musical.

 



 

      É com o máximo de prazer e lucidez que RECOMENDO ESTE RARO ESPETÁCULO àqueles que apreciam o bom do TEATRO.


 

 

 


FOTOS: TATI MOTTA





É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!