“MULHER EM FUGA”
ou
(UMA PODEROSA
LUTA PELA LIBERDADE
DE SER ALGUÉM
E RESGATAR UMA IDENTIDADE.)
Nunca é tarde para se
aprender e, por mais velhos e maduros que sejamos, temos muito a evoluir com a
contribuição da juventude. Não faz nem um ano, por meio de um sobrinho-neto, o ator
João Pedro Bartholo, depois de termos assistido, juntos, a uma
peça, “Eddy – Violência & Metamorfose”, fui apresentado à
obra literária de um fabuloso autor, um fenômeno de comunicação, no mundo
inteiro, principalmente entre os mais novos. Já li quatro de seus livros. Falo de um francês, de apenas 33
anos, chamado ÉDOUARD LOUIS, dos mais festejados escritores
contemporâneos. A peça era uma adaptação de três de seus fantásticos
livros: “O Fim de Eddy”, “História da Violência” e “Mudar:
Método”, com dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky. Há poucos dias, tive a
gratíssima oportunidade de ter assistido, em São Paulo, três dias
antes do encerramento de sua vitoriosa temporada, a outro trabalho teatral de LOUIS, com dramaturgia,
de PEDRO KOSOVSKI, apoiado em duas das obras do renomado autor: “Lutas
e Metamorfoses de uma Mulher” e “Monique se Liberta”.
Ainda que o espetáculo não esteja mais em cartaz na capital paulista, no SESC 14 Bis (Teatro Raul Cortez) eu não
poderia deixar de escrever sobre a peça, que tanto impacto me causou, pelo
conjunto da obra. Ainda terei a ventura de rever o espetáculo mais duas vezes:
uma no Rio de Janeiro, onde já tem estreia marcada para o dia 05 de março próximo (VER SERVIÇO.), e no “Festival de Curitiba”,
onde estarei presente, fazendo a cobertura, na primeira quinzena de abril.
E não vou deixar escapar mesmo essas duas raras chances.
SINOPSE:
A narrativa
da peça acompanha Monique (MALU GALLI), a mãe do autor, em
diferentes momentos de sua vida: gesto literário ao mesmo tempo, íntimo e
político, que expõe as engrenagens sociais que silenciam e subjugam mulheres da
classe trabalhadora.
Entre a
luta e a libertação, o que vemos é uma mulher que insiste em recomeçar, depois dos
50 anos.
E, nesse
gesto, Monique se torna, também, o retrato de tantas mulheres
brasileiras que, contra todas as adversidades, assumem a chefia de suas
famílias e reinventam suas vidas.
Édouard Louis (TIAGO MARTELLI) é um personagem
presencial e também participa, o autor, da encenação de “MULHER EM FUGA”
por meio de voz “off”, na cena em que ele e sua mãe conversam ao
telefone.
Esta é a primeira adaptação nacional de “Lutas
e Metamorfoses de uma Mulher” e “Monique se Liberta”,
obras marcantes do escritor que, até o momento, nunca haviam sido encenadas no
país. A dramaturgia inédita é assinada por PEDRO KOSOVSKI,
com direção de INEZ VIANA, trazendo a atuação
de MALU GALLI e TIAGO MARTELLI, que também é o idealizador
do projeto, e contando com a coordenação geral de produção
de CICERO DE ANDRADE.
Diante
do tristíssimo panorama que vem sendo observado no Brasil, em que
milhares de mulheres vivem sob a chibata cruel de seus companheiros, sem falar
no aumento, a cada dia, do número de feminicídios, considero este espetáculo
como sendo de “utilidade pública”, por chamar a atenção para o
problema, jogando luzes sobre suas consequências, e alertando as vítimas, para
que consigam se desprender das garras, se libertar de tal regime de terror e
possam, pelo menos, tentar um recomeço, sabendo-se impor, como mulheres, e se
amando, se respeitando e se valorizando mais, acima de qualquer coisa.
“A história da minha mãe é a história de uma vida roubada e, portanto,
também, a história de uma juventude roubada, como foi a vida e a juventude de
muitas mulheres, e é por isso que me pareceu importante escrever este livro,
rebelar-me contra isso.” (Édouard Louis). Pelas palavras do próprio autor, já se pode ter uma ideia do que vamos
encontrar no palco: um relato realista, triste e cruel, a história de uma
mulher que não conseguia se colocar como ser humano, igual a seus homens (Foram
três maridos. Foram três suplícios. Foram três fugas.).
Juntos, numa dramaturgia só, os dois livros, duas obras
literárias centrais na trajetória de ÉDOUARD LOUIS, abordam a vida de
sua mãe sob diferentes perspectivas: em “Lutas e Metamorfoses de Uma
Mulher” (2021), o escritor reconstrói a trajetória
de sua mãe, a partir do olhar do filho que testemunhou – muitas vezes, à
distância, outras de muito perto – um percurso marcado por pobreza,
humilhações, trabalho exaustivo e um casamento abusivo. A obra narra o difícil
caminho da metamorfose: o momento em que uma mulher decide romper com o ciclo
de violência e buscar dignidade, liberdade e reconstrução. “LOUIS
transforma a memória íntima em gesto político, revelando como estruturas
sociais moldam vidas e limitam possibilidades.”. Já “Monique
se Liberta” (2024) amplia essa narrativa, ao devolver a palavra à
própria protagonista. “Pela primeira vez, Monique assume a autoria de sua
história, descrevendo, com força e lucidez, o que significa sobreviver – e
resistir – dentro de um sistema que silencia mulheres da classe trabalhadora.
Ao narrar seus medos, perdas, estratégias e conquistas, ela reivindica o
direito de existir para além das condições que lhe foram impostas. O livro
funciona como um contraponto e uma resposta ao relato do filho, completando o
movimento de emancipação, que começou no primeiro volume.”. (Os trechos em negrito foram extraídos do "release" a mim enviado por NEY MOTTA - assessoria de imprensa,)
Na magnífica adaptação e dramaturgia de PEDRO
KOSOVSKI, o dramaturgo cria diálogos entre mãe e filho, mas
também apresenta o personagem Pai participando de algumas cenas,
também interpretado por TIAGO MARTELLI, além de jogar bastante com o
recurso do “flashback”. Na relação entre mãe e filho, ficam
registrados tanto o conflito quanto o afeto, a memória e a insurgência
presentes na obra de ÉDOUARD LOUIS. Talvez “com pena” do
espectador, vez por outra, raramente, KOSOVSKI alivia um pouco a tensão,
escorregando para um sutil e superficial humor, como que para nos poupar de um
sofrimento maior.
O conjunto da obra é fascinante, tudo muito bem regido pela
sensibilidade e talento de INEZ VIANA, em sua porção diretora.
Tendo em mãos um texto tão enxuto e forte e um casal de
excelentes atores, a direção comprime o dedo, com
precisão e pressão absolutas, sobre as feridas abertas e “incicatrizáveis”,
provocando a atenção e o respeito do espectador, que se se entrega a uma total
empatia voltada aos dois personagens, visto que são duas vítimas. Segundo a diretora,
ao conduzir sua mãe para o centro da narrativa, LOUIS propõe um grito
contra o sistema patriarcal, que oprime e faz com que haja a naturalização da
violência, que encontramos eco aqui e agora. “Com MALU GALLI e TIAGO
MARTELLI conduzindo a narrativa, a direção de INEZ VIANA oferece ao público uma
experiência potente, que transforma a história pessoal de Monique em reflexão
universal sobre emancipação, violência estrutural e a importância de
reivindicar a própria voz.”. (Também extraído do “release” da peça.)
Que trabalho potente de interpretação! Formidável! A dupla de artistas se apodera de seus personagens
com total entrega e verdade e os doma, que nos dá vontade de interromper a
tensão de um diálogo com demorados e merecidos aplausos em cena aberta; mas não
o fiz e não aconselho que o façam, para não atrapalhar a concentração dos
artistas. MALU GALLI, uma das maiores atrizes de sua geração, supera, em
qualidade, todos os seus trabalhos anteriores, sempre tão marcantes, e
candidata-se a prêmios de TEATRO, ao final da temporada, como melhor
atriz. MALU interpreta uma Monique que não nos
chega como uma simples figura de ficção, mas como aquela(s) mulher(es) real(ais),
que todos nós, infelizmente, conhecemos ou de quem, pelo menos, já ouvimos
falar. A MALU que vemos em cena é totalmente diferente da que já aplaudimos
em outros trabalhos no palco, “metamorfoseada”, externamente, por
um excelente trabalho de visagismo, a cargo de VINI KILESSI.
Sinto um imenso prazer quando encontro, num elenco, atores a atrizes que
não conhecia, até então, e que sabem dizer, com total propriedade, a que
vieram, como é o caso de TIAGO MARTELLI. Salvo engano, é a primeira vez
que o vejo sobre as tábuas e já me tornei um admirador de seu talento. TIAGO
sabe como transmitir toda a dor e frustração de ter testemunhado o sofrimento e
o desmantelamento da mãe, procurando salvá-la e trazê-la, de novo, à vida,
fazer dela uma Fênix. O personagem faz questão de, sob os
protestos de Monique, falar, em seus livros, da sua infância
pobre e sofrida, mostrando-se totalmente empático com relação à mãe, porém –
achei curioso – não consegue esconder, de todo, uma espécie de certa “vergonha”
dela. São palavras de INEZ VIANA, que eu corroboro: “Através de
sua ajuda para a terceira fuga de sua mãe, o filho tenta não só recuperar sua
relação interrompida com ela, mas entende, e nós também entendemos, que a
liberdade e o caminho não percorridos sempre poderão ser retomados,
independentemente do tempo.”. O ator cumpre seu papel com total
aprovação de minha parte. TIAGO MARTELLI e MALU GALLI enriquecem e valorizam os
trabalhos um do outro.
Dos elementos de criação, todos acertadíssimos, acolho e destaco muito a cenografia,
de DINA SALEM LEVY. Ao adentrar a sala de exibição, achei curioso o
detalhe de uma mesa gigantesca, que corta, em diagonal, todo o espeço cênico.
Com o desenrolar da peça, porém, fui entendendo a sua funcionalidade, na trama,
e gostando muito do que vi, de como ela é bem utilizada pela direção.
FICHA TÉCNICA:
Autor: Édouard Louis
Dramaturgia: Pedro Kosovski
Direção Artística: Inez Viana
Elenco: Malu Galli e Tiago Martelli
Voz “off”: Édouard Louis
Assistência de Direção: Lux Nègre
Cenografia: Dina Salem Levy
Cenógrafa Assistente: Alice Cruz
Figurino: Ticiana Passos
Desenho de Luz: Aline Santini
Trilha Sonora: Felipe Storino
Colaboração Artística / Orientação de Movimento: Denise Stutz
Visagismo: Vini Kilesse
Assessoria de Imprensa: Ney Motta (Contemporânea Comunicação e Cultura)
Fotografia: João Pacca - Opacca (Estúdio) e Leonardo Bonato (Cena)
“Designer” Gráfico: Fernando Vilarim
Preparador Musical: Marcelo Callado
Operador de Luz: Paulo Maeda
Operador de Som: Cauê Andreassa
“Videomapping” / Assistente de Luz: Ricardo Barbosa
Direção de Produção: Gabriela Morato - Associação Sol.te
Coordenação Geral de Produção: Cícero de Andrade - Mosaico Produções
Produção: Dani Simonassi, Tiago Martelli e Matheus Ribeiro
Idealização: Tiago Martelli
SERVIÇO:
(OBSERVAÇÃO: Como o espetáculo não está mais em
cartaz no SESC 14 Bis (Teatro Raul Cortez), em São Paulo, onde assisti a ele,
não caberia a publicação de um SERVIÇO, porém o que se segue já é referente à
temporada a ser iniciada no dia 05 de março próximo, no Teatro FIRJAN SESI
Centro, no Rio de Janeiro.)
Temporada: De 05 de março até 05 de abril de 2026.
Local: Teatro Firjan SESI
Centro.
Endereço: Avenida Graça Aranha, nº 01, Centro - Rio de Janeiro (Próximo ao Metrô Cinelândia).
Dias
e Horários: Às 5ªs e 6ªs feiras, às 19h; aos sábados e domingos, às 17h.
Valor
dos Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada).
Classificação
Etária: 14 anos.
Duração:
80 minutos.
Gênero: Drama.
Apesar
de ser uma peça que comporta muita dor e sofrimento, não é um espetáculo “para
baixo”, e a incrível qualidade desta montagem faz com que eu a RECOMENDE MUITO a todos os que apreciam uma boa peça teatral. Mais
do que isso: UMA EXCELENTE PEÇA TEATRAL!
FOTOS: JOÃO PACCA (ESTÚDIO)
e
LEONARDO BONATO (CENA).
GALERTA PARTICULAR
(Foto: Guilherme de Rose.)
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!