terça-feira, 11 de agosto de 2026

 

“ANUNCIAÇÃO –

O MUSICAL DE

ALCEU VALENÇA”

ou

(TUDO POR, 

E PARA, UM “DOIDINHO” ADMIRÁVEL.)

 

 



 

 

    Não é qualquer um que atinge os 80 anos de idade com muita saúde e conservando o mesmo talento que o levou a ser um dos maiores artistas brasileiros. Estamos passando por um momento em que vários de nossos grandes ídolos da canção popular estão atingindo esse patamar etário ou, até mesmo, ultrapassando-o: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento... E Alceu Valença, o “Doidinho de Olinda”. Alceu chegou lá e ganhou uma merecidíssima homenagem, na forma de um lindo musical, em cartaz no Teatro Municipal Carlos Gomes, infelizmente, já em final de temporada (VER SERVIÇO!). O espetáculo transforma a obra musical do consagrado artista – Sou muito fã! – em uma experiência sensorial, que une TEATRO, música e poesia. MUITA POESIA!!! A poesia, de forma muito contagiante, está presente, naquele palco, durante os 120 minutos de duração da peça. Foram a poesia e o lirismo duas das coisas que mais me chamaram a atenção nesta montagem, principalmente pelos belos arabescos no texto, de LUIZA LOROZA e DUDA RIOS.




 

SINOPSE:

Fugindo, completamente, ao padrão da grande maioria dos musicais biográficos, este não é um desses que estamos acostumados a ver.

“ANUNCIAÇÃO – O MUSICAL DE ALCEU VALENÇA” não possui uma linha do tempo cronológica ou personagens fixos.

O musical celebra os 80 anos do cantor pernambucano, transformando sua obra em uma grande festa cênica.

A alma do artista não é interpretada por um único ator imitativo; em vez disso, um elenco de oito intérpretes se reveza para corporificar a poesia, a energia e a multiplicidade do compositor.

Os atores cantam, dançam, atuam e tocam instrumentos ao vivo, recriando a vitalidade inesgotável dos shows de Alceu.


 

 


 

“ANUNCIAÇÃO” é o título de uma das mais conhecidas e apreciadas canções da lavra de Alceu Valença:


 

 

“ANUNCIAÇÃO”

(Alceu Valença)

 

Na bruma leve das paixões que vêm de dentro,
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal,
No teu cavalo, peito nu, cabelo ao vento,
E o sol quarando nossas roupas no varal.

 

Tu vens, tu vens.
Eu já escuto os teus sinais.

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido.
Eu não duvido, já escuto os teus sinais.
Que tu virias numa manhã de domingo.
Eu te anuncio nos sinos das catedrais.

 

Tu vens, tu vens.
Eu já escuto os teus sinais.

 

 



   A palavra “anunciação” tem por significado básico o ato ou o efeito de anunciar, de dar uma notícia importante ou de fazer uma revelação. O termo possui forte uso no contexto religioso cristão e, também, é famoso, no Brasil, devido à letra da canção supra. Refere-se, especificamente, ao momento bíblico em que o Arcanjo Gabriel anuncia à Virgem Maria que ela conceberá e dará à luz Jesus Cristo, o Filho de Deus. É, também, o nome da festa cristã, celebrada em 25 de março, para recordar esse mistério da encarnação, exatamente nove meses antes do Natal. Alceu, em entrevistas, já revelou que a letra, de 1983, nasceu de forma livre e poética, enquanto tocava uma flauta transversal, recém-adquirida, misturando imagens do cotidiano de Olinda, sinos de catedrais e sensações. A sabedoria popular atribui diversos significados à letra, como a chegada de um grande amor, a esperança de um novo tempo, a chegada da primavera ou o nascimento de uma nova vida. Fica a critério da imaginação e da sensibilidade de cada um. Poesia é, e sempre será, poesia, passível de ser decodificada de diversas maneiras. Mas, no espetáculo em tela, “anunciação” é muito mais: é algo que evoca e nos leva a uma “celebração”, uma “epifania”, uma revelação repentina, uma percepção intuitiva profunda ou a manifestação visível de algo sagrado e divino.





   Quem assiste a este espetáculo sai do Teatro leve, “nas nuvens”, “flutuando” com os pés no chão. Volta para casa muito feliz. O texto escrito a quatro mãos, é belíssimo, “vultuoso” de tanto lirismo e poesia. A dramaturgia não gira em torno da vida particular e da carreira artística do homenageado, mas, sim, prioriza o imaginário, o lirismo e a chamada “mitologia valenciana”; o universo e o pensamento de Alceu, enfim, unindo tradição e modernidade. Não podiam, portanto, faltar seus grandes “hits”, como o já citado “Anunciação”, “La Belle de Jour”, “Tropicana”, “Solidão”, “Cavalo de Pau”, “Pelas Ruas Que Andei”, “Como Dois Animais” e tantos outros, como também belíssimas composições do chamado “lado B” de um artista. Aqui, música, festa e invenção se unem em um espetáculo que foge do realismo e aposta na magia. A montagem mergulha no imaginário criado pelo artista, ao longo de décadas, e constrói uma experiência cênica livre, irreverente e profundamente brasileira. Mais brasilidade, num palco, poucas vezes eu já vi antes.




   A montagem foi idealizada por MIGUEL CLOKER, que também assina a sua direção geral, e teve sua origem numa relação afetiva antiga com a obra do homenageado. Em 2019, após a morte de seu pai, o fotógrafo pernambucano Cafi, amigo de Alceu e autor de capas históricas de seus discos, MIGUEL assumiu a tarefa de organizar um acervo com mais de 40 mil fotografias. O mergulho nesse material acabou se transformando no ponto de partida do espetáculo. “Nesse processo de digitalização, me deparei com milhares de imagens históricas de Alceu. Vivíamos o pós-pandemia e eu sentia um desejo forte de voltar a fazer teatro. Juntei esse desejo pessoal com a relevância de Alceu e propus à Yanê Montenegro, sua parceira e companheira de vida, levar seu universo poético e criativo para o palco teatral. Ela topou de bate-pronto”, conta o idealizador do musical.




    E foi, exatamente, esse universo afetivo o ponto de partida para uma dramaturgia construída a partir da chamada “mitologia valenciana”: personagens, paisagens, símbolos e sensações presentes na obra do artista. Passado, presente e futuro convivem em cena, atravessando Recife, Olinda, São Bento do Una – sua terra natal - e Rio de Janeiro, “em uma geografia mais emocional do que realista”, largamente presente no valioso texto de LUIZA LOROZA e DUDA RIOS, trazendo, para o espetáculo, uma construção narrativa potente, que dialoga com o universo simbólico e afetivo da obra de Alceu.



   A potência de uma feliz e brilhante dramaturgia encontrou eco na “elétrica” direção de DUDA MAIA, uma consagrada e premiada encenadora, à frente de tantos excelentes espetáculos, carreira de sucesso muito bem iniciada, no eixo cultural Rio de Janeiro/São Paulo, com “Auê” (2016), um fantástico trabalho, premiadíssimo, que ficou por um longo tempo em cartaz, em seguidas e sucessivas temporadas, recebendo o máximo aval do público e da crítica especializada. Aliás, o musical aqui comentado se assemelha um pouco, em sua forma, a "Auê", na minha percepção. Dificilmente, alguém que não conheça a FICHA TÉCNICA de "ANUNCIAÇÃO...", depois de ter assistido a ele, deixaria de dizer que a direção coube a DUDA MAIA, visto que, mais uma vez, ela deixa registrada, nesta assinatura, as digitais de seu trabalho, explorando, e abusando até um pouco, os(dos|) movimentos corporais, como se os atores estivessem tocando em fios eletrificados (Momento descontração.). Por vezes, achei um pouco repetitivo, mas promove um efeito agradável e, por isso mesmo, não chega a cansar. DUDA construiu um espetáculo em permanente movimento, em que cena, música e corpo se atravessam o tempo todo. Diz ela: “É uma relação muito forte de coletivo, um texto tradicional que, ao mesmo tempo, brinca de ser Alceu. O espetáculo, pela própria obra do Alceu, permite essa irreverência, essa quebra. A encenação entra e sai do texto o tempo inteiro, trabalhando com imagem, suspensão e sem a necessidade de explicar tudo. Tudo aqui se mexe. Cena, figurino, instrumentos, estrutura. É um espetáculo físico, em que o jogo cênico conduz a narrativa.” E completa: “Me deu uma liberdade muito grande. É um espetáculo absolutamente vivo.”.




   Mais do que representar o personagem Alceu, o espetáculo busca dialogar com sua maneira de ver o mundo: uma visão que une tradição e invenção, o popular e o contemporâneo, a guitarra elétrica e os ritmos nordestinos, a festa e a poesia. E quem passa tudo isso, do palco para a plateia, é um talentosíssimo elenco, formado por destacados atores, multi-instrumentistas, reunindo DUDA RIOS, LUIZA LOROZA, MARIA PÉROLA, JUZÉ, JEF LYRIO, NATASCHA FALCÃO, BETO LEMOS e RAFAEL LORGA, por ordem aleatória, de acordo com o “release” que me chegou às mãos, via assessoria de imprensa da peça. São artistas com trajetórias marcadas pelo encontro entre TEATRO e música. Não me peçam para atribuir destaque a alguém. Durante a peça, pensei, algumas vezes, se isso seria possível, mas, a cada nova surpresa que me chegava, não tinha como nomear apenas um(a) do elenco. Um elenco eclético, que interpreta, canta, dança e toca instrumentos musicais variados.




  Na parte musical, não podem ser ocultados os nomes de RICCO VIANA, compositor e criador de trilhas para dezenas de espetáculos teatrais, responsável pela direção musical da peça, por conduzir a identidade sonora da montagem, e BETO LEMOS, também integrante do elenco, que assina a preparação vocal e os arranjos vocais, muito interessantes e diferentes dos originais, diga-se de passagem, contribuindo com sua vasta experiência como músico, diretor musical e pesquisador da cultura popular brasileira.



   Além de todos os já mencionados detalhes positivos desta montagem, preciso falar, ainda, de sua beleza plástica, traduzida por uma simples, porém bela cenografia, assinada por ANDERSON DIAS, fugindo do realismo e apostando em um conceito de espaço festivo, dinâmico e livre, inspirado na alegria, no imaginário popular nordestino e na obra do artista; por um exuberante figurino, com ênfase na cor amarela, significando, a meu juízo, luz, calor, alegria, otimismo e prosperidade, uma grande energia positiva, tudo criado pelo bom gosto e talento de KAREN BRUSTTOLIN; e pela exuberante e colorida iluminação, rica em matizes e variada, utilizando uma extensa paleta de cores, assinada por RENATOI MACHADO, com assistência de RODRIGO MACIEL, agregando muita vida e calor a todas as cenas.

 

 



 

FICHA TÉCNICA:

Idealização: Miguel Colker

Texto: Luiza Loroza e Duda Rios

Direção Geral: Miguel Colker

Direção Artística: Duda Maia

 

Elenco (por ordem alfabética): Beto Lemos Duda Rios, Jef Lyrio, Juzé, Luiza Loroza, Maria Pérola, Natascha Falcão e Rafael Lorga

 

Direção Musical: Ricco Viana

Preparação Vocal: Beto Lemos

Arranjos Vocais: Beto Lemos

Cenografia: Anderson Dias

Figurino: Karen Brusttolin

Iluminação: Renato Machado 

Assistência de Iluminação: Rodrigo Maciel

Desenho de Som: Rodrigo Oliveira

Operação de Som: Gabriel Murray 

Coordenação de Fomento: Paula de Oliveira

Coordenação de Produção: Paulo Dary

Comunicação e Relacionamento: Renata Lages

Comunicação: Edmundo Fiuza

Fotos: Any Duarte

Coordenação Financeira/Administrativa: Vinícius Venâncio

Produção: Matheus Tederiche e João Fróes

Identidade Visual: Amanda Lobos 

"Design": Beatriz Haude e Tule Aurêh

 Informações para a Imprensa: Andrea Pessôa




 


 

SERVIÇO:

Temporada: De 23 de julho a 16 de agosto de 2026(*).

(*) Por conta do cancelamento da sessão prevista para o dia 29 de julho, por questões climáticas, haverá uma SESSÃO EXTRA, no dia 17 de agosto, segunda-feira, às 19h.

Local: Teatro Municipal Carlos Gomes.

Endereço: Praça Tiradentes, nº 19 - Centro – Rio de Janeiro.

Dias e Horários: 5ª feira e 6ª feira, às 19h; sábado e domingo, às 17h.

Valor dos Ingressos: A partir de R$ 40, variando conforme o setor escolhido, o lote de vendas e a modalidade entre inteira e meia-entrada.

Vendas: A compra de ingressos pode ser realizada de forma “on-line”, pela plataforma Sympla (com taxa de serviço) ou, diretamente, na bilheteria do Teatro (sem taxa de serviço).

Horários de funcionamento da bilheteria: 2ª feira e 3ª feira: Fechada; 4ª feira: das 14h às 19h; 5ª feira e 6ª feira: das 16h às 20h; sábado e domingo: das 14h às 18h.

Duração: 120 minutos.

Classificação Etária: Livre.

Gênero: Musical.


 


 


 

          Consideradas estas minhas palavras, torna-se desnecessário dizer que RECOMENDO O MUSICAL.

 

 


 

 

 

 

FOTOS: ANY DUARTE  

 

 

 

 

É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de melhor no TEATRO.

 



















































































































































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