“ANUNCIAÇÃO –
O MUSICAL DE
ALCEU VALENÇA”
ou
(TUDO POR,
E PARA, UM “DOIDINHO” ADMIRÁVEL.)
Não
é qualquer um que atinge os 80 anos de idade com muita saúde e conservando
o mesmo talento que o levou a ser um dos maiores artistas brasileiros. Estamos
passando por um momento em que vários de nossos grandes ídolos da canção
popular estão atingindo esse patamar etário ou, até mesmo, ultrapassando-o: Caetano
Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento... E Alceu
Valença, o “Doidinho de Olinda”. Alceu
chegou lá e ganhou uma merecidíssima homenagem, na forma de um lindo musical,
em cartaz no Teatro Municipal Carlos Gomes, infelizmente, já em
final de temporada (VER SERVIÇO!). O espetáculo transforma a obra
musical do consagrado artista – Sou muito fã! – em uma
experiência sensorial, que une TEATRO, música e poesia. MUITA POESIA!!! A
poesia, de forma muito contagiante, está presente, naquele palco, durante os 120
minutos de duração da peça. Foram a poesia e o lirismo duas das coisas que mais me chamaram a
atenção nesta montagem, principalmente pelos belos arabescos no texto,
de LUIZA LOROZA e DUDA RIOS.
SINOPSE:
Fugindo,
completamente, ao padrão da grande maioria dos musicais biográficos, este não é um desses
que estamos acostumados a ver.
“ANUNCIAÇÃO – O MUSICAL DE ALCEU VALENÇA” não possui uma linha do tempo
cronológica ou personagens fixos.
O musical celebra os 80 anos do
cantor pernambucano, transformando sua obra em uma grande festa cênica.
A alma do artista não é interpretada por um único
ator imitativo; em vez disso, um elenco de oito intérpretes se
reveza para corporificar a poesia, a energia e a multiplicidade do compositor.
Os atores cantam, dançam, atuam e tocam
instrumentos ao vivo, recriando a vitalidade inesgotável dos shows de Alceu.
“ANUNCIAÇÃO” é o título de uma das mais conhecidas e apreciadas canções da lavra de Alceu
Valença:
“ANUNCIAÇÃO”
(Alceu Valença)
Na bruma leve das paixões que vêm de dentro,
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal,
No teu cavalo, peito nu, cabelo ao vento,
E o sol quarando nossas roupas no varal.
Tu vens, tu vens.
Eu já escuto os teus sinais.
A voz do anjo sussurrou no meu ouvido.
Eu não duvido, já escuto os teus sinais.
Que tu virias numa manhã de domingo.
Eu te anuncio nos sinos das catedrais.
Tu vens, tu vens.
Eu já escuto os teus sinais.
A palavra “anunciação” tem por significado
básico o ato ou o efeito de anunciar, de dar uma notícia importante ou de
fazer uma revelação. O termo possui forte uso no contexto religioso
cristão e, também, é famoso, no Brasil, devido à letra da canção supra.
Refere-se, especificamente, ao momento bíblico em que o Arcanjo Gabriel
anuncia à Virgem Maria que ela conceberá e dará à luz Jesus
Cristo, o Filho de Deus. É, também, o nome da festa
cristã, celebrada em 25 de março, para recordar esse mistério da
encarnação, exatamente nove meses antes do Natal. Alceu,
em entrevistas, já revelou que a letra, de 1983, nasceu de forma
livre e poética, enquanto tocava uma flauta transversal, recém-adquirida,
misturando imagens do cotidiano de Olinda, sinos de catedrais e
sensações. A sabedoria popular atribui diversos significados à letra, como a
chegada de um grande amor, a esperança de um novo tempo, a
chegada da primavera ou o nascimento de uma nova vida. Fica a critério da
imaginação e da sensibilidade de cada um. Poesia é, e sempre será,
poesia, passível de ser decodificada de diversas maneiras. Mas, no
espetáculo em tela, “anunciação” é muito mais: é algo que evoca e nos leva a
uma “celebração”, uma “epifania”, uma revelação
repentina, uma percepção intuitiva profunda ou a manifestação visível de algo
sagrado e divino.
Quem
assiste a este espetáculo sai do Teatro leve, “nas nuvens”,
“flutuando” com os pés no chão. Volta para casa muito feliz. O texto
escrito a quatro mãos, é belíssimo, “vultuoso” de tanto lirismo e
poesia. A dramaturgia não gira em torno
da vida particular e da carreira artística do homenageado, mas, sim, prioriza o
imaginário, o lirismo e a chamada “mitologia valenciana”; o
universo e o pensamento de Alceu, enfim, unindo tradição e
modernidade. Não podiam, portanto, faltar seus grandes “hits”,
como o já citado “Anunciação”, “La Belle de Jour”, “Tropicana”,
“Solidão”, “Cavalo de Pau”, “Pelas Ruas Que Andei”,
“Como Dois Animais” e tantos outros, como também belíssimas
composições do chamado “lado B” de um artista. Aqui, música, festa e invenção se unem em um espetáculo que foge
do realismo e aposta na magia. A montagem
mergulha no imaginário criado pelo artista, ao longo
de décadas, e constrói uma experiência cênica livre, irreverente
e profundamente brasileira. Mais
brasilidade, num palco, poucas vezes eu já vi antes.
A montagem foi idealizada por MIGUEL
CLOKER, que também assina a sua direção geral, e teve sua
origem numa relação afetiva antiga com a obra do homenageado. Em 2019, após a
morte de seu pai, o fotógrafo pernambucano Cafi,
amigo de Alceu e autor de capas históricas de seus discos, MIGUEL assumiu a tarefa de organizar um
acervo com mais de 40 mil fotografias. O mergulho nesse material acabou se transformando no
ponto de partida do espetáculo. “Nesse
processo de digitalização, me deparei com milhares de imagens históricas de Alceu. Vivíamos o
pós-pandemia e eu sentia um desejo forte de
voltar a fazer teatro. Juntei esse desejo pessoal com a relevância de Alceu e propus à Yanê Montenegro, sua
parceira e companheira de vida, levar seu
universo poético e criativo para o palco teatral. Ela topou de bate-pronto”,
conta o idealizador do musical.
E foi, exatamente, esse universo
afetivo o ponto de partida para uma dramaturgia construída a
partir da chamada “mitologia
valenciana”: personagens, paisagens,
símbolos e sensações presentes na obra do
artista. Passado, presente e futuro convivem em cena, atravessando Recife, Olinda, São
Bento do Una – sua terra natal - e Rio de Janeiro, “em
uma geografia mais emocional do
que realista”, largamente presente no
valioso texto de LUIZA LOROZA e DUDA RIOS, trazendo, para o
espetáculo, uma construção narrativa potente, que
dialoga com o universo simbólico e afetivo da
obra de Alceu.
A potência de uma feliz e
brilhante dramaturgia encontrou eco na “elétrica” direção
de DUDA MAIA, uma consagrada e premiada encenadora, à frente de tantos excelentes
espetáculos, carreira de sucesso muito bem iniciada, no eixo cultural Rio
de Janeiro/São Paulo, com “Auê” (2016), um
fantástico trabalho, premiadíssimo, que ficou por um longo tempo em cartaz, em
seguidas e sucessivas temporadas, recebendo o máximo aval do público e da
crítica especializada. Aliás, o musical aqui comentado se assemelha um pouco, em sua forma, a "Auê", na minha percepção. Dificilmente, alguém que não conheça a FICHA
TÉCNICA de "ANUNCIAÇÃO...", depois de ter assistido a ele, deixaria de dizer
que a direção coube a DUDA MAIA, visto que, mais uma vez,
ela deixa registrada, nesta assinatura, as digitais de seu trabalho, explorando,
e abusando até um pouco, os(dos|) movimentos corporais, como se os atores estivessem
tocando em fios eletrificados (Momento descontração.). Por vezes,
achei um pouco repetitivo, mas promove um efeito agradável e, por isso mesmo,
não chega a cansar. DUDA construiu um espetáculo em permanente movimento, em que cena, música
e corpo se atravessam o tempo todo. Diz ela: “É uma relação muito forte de coletivo, um
texto tradicional que, ao mesmo tempo,
brinca de ser Alceu. O espetáculo, pela própria
obra do Alceu, permite essa irreverência, essa quebra. A encenação entra e sai do texto o tempo inteiro, trabalhando com
imagem, suspensão e sem a necessidade de
explicar tudo. Tudo aqui se mexe. Cena, figurino, instrumentos, estrutura. É um
espetáculo físico, em que o jogo cênico conduz
a narrativa.” E completa: “Me
deu uma liberdade muito grande.
É um espetáculo absolutamente vivo.”.
Mais do que representar o
personagem Alceu, o espetáculo busca dialogar com sua maneira de ver o mundo: uma visão que
une tradição e invenção, o popular e o
contemporâneo, a guitarra elétrica e os ritmos nordestinos, a festa e a poesia. E quem passa tudo isso, do palco para a
plateia, é um talentosíssimo elenco, formado por destacados atores, multi-instrumentistas,
reunindo DUDA RIOS, LUIZA LOROZA, MARIA PÉROLA, JUZÉ,
JEF LYRIO, NATASCHA FALCÃO, BETO LEMOS e RAFAEL
LORGA, por ordem aleatória, de acordo com o “release” que me
chegou às mãos, via assessoria de imprensa da peça. São artistas com
trajetórias marcadas pelo encontro entre TEATRO
e música. Não me peçam para atribuir destaque a alguém. Durante a peça, pensei,
algumas vezes, se isso seria possível, mas, a cada nova surpresa que me chegava,
não tinha como nomear apenas um(a) do elenco. Um elenco eclético, que
interpreta, canta, dança e toca instrumentos musicais variados.
Na parte musical, não podem ser
ocultados os nomes de RICCO VIANA, compositor e criador de trilhas para dezenas de espetáculos teatrais, responsável
pela direção musical da peça, por conduzir a identidade
sonora da montagem, e BETO LEMOS, também integrante do elenco,
que assina a preparação vocal e os
arranjos vocais, muito interessantes e diferentes dos originais,
diga-se de passagem, contribuindo com sua vasta experiência
como músico, diretor musical e pesquisador da cultura popular brasileira.
Além de todos os já mencionados detalhes
positivos desta montagem, preciso falar, ainda, de sua beleza plástica,
traduzida por uma simples, porém bela cenografia, assinada por ANDERSON DIAS, fugindo do realismo e apostando em um
conceito de espaço festivo, dinâmico e livre, inspirado na alegria, no
imaginário popular nordestino e na obra do artista; por um exuberante figurino, com ênfase na
cor amarela, significando,
a meu juízo, luz, calor, alegria, otimismo e prosperidade, uma grande energia
positiva, tudo criado pelo bom gosto e talento de KAREN BRUSTTOLIN; e
pela exuberante e colorida iluminação, rica em matizes e variada,
utilizando uma extensa paleta de cores, assinada por RENATOI MACHADO,
com assistência de RODRIGO MACIEL, agregando muita vida e calor a todas as
cenas.
FICHA
TÉCNICA:
Idealização:
Miguel Colker
Texto:
Luiza Loroza e Duda Rios
Direção
Geral: Miguel Colker
Direção
Artística: Duda Maia
Elenco
(por ordem alfabética): Beto Lemos Duda Rios, Jef Lyrio, Juzé, Luiza Loroza, Maria
Pérola, Natascha Falcão e Rafael Lorga
Direção
Musical: Ricco Viana
Preparação
Vocal: Beto Lemos
Arranjos
Vocais: Beto Lemos
Cenografia:
Anderson Dias
Figurino:
Karen Brusttolin
Iluminação:
Renato Machado
Assistência
de Iluminação: Rodrigo Maciel
Desenho
de Som: Rodrigo Oliveira
Operação de Som: Gabriel Murray
Coordenação de Fomento: Paula de Oliveira
Coordenação de Produção: Paulo Dary
Comunicação e Relacionamento: Renata Lages
Comunicação: Edmundo Fiuza
Fotos: Any Duarte
Coordenação Financeira/Administrativa: Vinícius Venâncio
Produção: Matheus Tederiche e João Fróes
Identidade Visual: Amanda Lobos
"Design": Beatriz Haude e Tule Aurêh
SERVIÇO:
Temporada:
De 23 de julho a 16 de agosto de 2026(*).
(*) Por conta do cancelamento da sessão prevista
para o dia 29 de julho, por questões climáticas, haverá uma SESSÃO EXTRA, no
dia 17 de agosto, segunda-feira, às 19h.
Local:
Teatro Municipal Carlos Gomes.
Endereço:
Praça Tiradentes, nº 19 - Centro – Rio de Janeiro.
Dias
e Horários: 5ª feira e 6ª feira, às 19h; sábado e domingo, às 17h.
Valor
dos Ingressos: A partir de R$ 40, variando
conforme o setor escolhido, o lote de vendas e a modalidade entre inteira e
meia-entrada.
Vendas:
A compra de ingressos pode ser realizada de forma “on-line”, pela
plataforma Sympla (com taxa de serviço) ou, diretamente, na bilheteria do
Teatro (sem taxa de serviço).
Horários
de funcionamento da bilheteria: 2ª feira e 3ª feira: Fechada; 4ª feira: das 14h às
19h; 5ª feira e 6ª feira: das 16h às 20h; sábado e domingo: das 14h às 18h.
Duração:
120 minutos.
Classificação
Etária: Livre.
Gênero:
Musical.
Consideradas
estas minhas palavras, torna-se desnecessário dizer que RECOMENDO O MUSICAL.
FOTOS: ANY DUARTE
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que
a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais.
Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que há de
melhor no TEATRO.
Diferente e super interessante! Gostei muito 🥰!
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