“A PEQUENA PRISÃO”
ou
(UM PROFUNDO
RELATO NU E CRU
DE UM HOMEM
CONTRA A INJUSTIÇA.)
Por mais que tenhamos lido textos ou
assistido a matérias jornalísticas e reportagens documentais sobre o sistema
penitenciário brasileiro, suas inúmeras falhas, distorções e injustiças, sempre
há algo novo, triste e inadmissível a se aprender sobre o que seja passar um
tempo, por mínimo que seja, como um interno em algum dos muitos caóticos
presídios brasileiros. É sobre isso, e mais outras coisas, que gira a peça “A
PEQUENA PRISÃO”, recém-estreada no Teatro Poeirinha, no Rio
de Janeiro. Baseado num livro homônimo, do professor e escritor Igor
Mendes – adaptação inédita -, com dramaturgia de DANIELA
PEREIRA DE CARVALHO, direção de FERNANDO CEYLÃO e interpretação
de VINO FRAGOSO, seu idealizador, o solo se
apresenta para uma temporada de, praticamente, dois meses (VER SERVIÇO.).
O monólogo revisita um dos mais
impactantes relatos sobre o sistema prisional brasileiro.
SINOPSE:
O que acontece quando todas as referências que conhecemos deixam de
existir?
Ao ser preso injustamente, sem provas concretas de sua culpa, um homem é
lançado em uma realidade completamente desconhecida e indesejável.
Entre celas, corredores e grades, ele descobre um universo com regras
próprias, relações complexas e personagens que transformam sua maneira de
enxergar o mundo.
À medida que os dias passam, surgem conflitos, alianças inesperadas,
histórias de vida, episódios de violência, momentos de humor e gestos de
solidariedade.
Em meio ao confinamento, o protagonista encontra homens marcados por
trajetórias muito diferentes, revelando um território raramente visto por quem
permanece do lado de fora.
Interpretando mais de 20 personagens, VINO FRAGOSO (Igor
Mendes) conduz o público por uma narrativa inspirada em fatos reais, a
qual transita entre testemunho, memória e ficção.
Com uma encenação imersiva e uma cenografia em constante transformação, “A
PEQUENA PRISÃO” convida o espectador a atravessar um universo em que nada é
exatamente como parece.
O
espetáculo, bastante impactante e emocionante, propõe algumas importantíssimas
reflexões, a partir da experiência de alguém que permaneceu encarcerado, com
transferências meteóricas por alguns presídios, num tempo, relativamente curto,
mas de profundo sofrimento, que marcou a sua vida de forma indelével. O ativista e professor Igor
Mendes cumpriu 204 dias (cerca de 7 meses) de prisão
preventiva. Ele foi detido em dezembro de 2014, durante os
desdobramentos das manifestações de 2013, acusado de atos
violentos, sendo libertado em junho de 2015, após uma decisão do Superior
Tribunal de Justiça (STJ). Em abril
de 2024, foi, finalmente, absolvido das acusações que ainda pesavam
sobre ele.
Neste solo, o espectador é levado a
mergulhar em interessantes reflexões, que podem dar margem a boas discussões e
debates. Uma delas diz respeito a aquilo que sobra de um ser humano, pensante, quando a liberdade acaba. Além
disso, pode ser questionado o que nos mantém “humanos”, diante
dos limites impostos pela suspensão da liberdade. E mais, ainda: do que somos
capazes para sobreviver? Contra que ética ou princípios conseguimos ir para isso? Essas
são apenas algumas das perguntas que atravessam “A PEQUENA PRISÃO”, uma
feliz adaptação teatral, inédita, com sua respectiva montagem, de uma excelente
obra literária homônima.
Ao
personagem protagonista, foi imputada uma prisão arbitrária, que o levou a uma revolta, por
não conseguir enxergar, na sua punição, motivos para que ela existisse. Embora
baseada numa história real, esta modesta, porém interessantíssima, montagem “não
busca reconstruir um caso ou revisitar um episódio político específico”.
Ela objetiva bem mais do que isso, “calcando o seu interesse nas pessoas,
nos homens que habitam os espaços que a sociedade prefere não enxergar. E,
também, nos afetos que sobrevivem em meio à violência e nas relações humanas
que surgem, quando tudo parece ter sido perdido”. Abordagem bem ampla. No fundo, essa “pequena
prisão” representa um microcosmo de uma “prisão maior”,
fora dos muros dos presídios, a vida do dia a dia, com tudo com que temos de lutar,
diariamente, contra os gigantes, que parecem quixotescos, mas são reais.
Ao
ser integrado no universo prisional, o personagem passa a viver num mundo
paralelo, onde sobreviver é missão muito mais árdua que, simplesmente viver,
ainda que, para isto, muito se tenha que investir. Ele se depara com personagens
complexos, contraditórios e profundamente humanos, pobres homens que carregam
suas histórias, seus erros, suas memórias, alegrias e suas estratégias de
sobrevivência. “A partir desse encontro, “A PEQUENA PRISÃO”
constrói um amplo mosaico humano, que transforma uma experiência individual em
um relato que é considerado, por renomados criminalistas, o mais importante
relato sobre o sistema prisional brasileiro dos últimos tempos.” (Trecho
extraído do “release” que me foi enviado por CARLOS PINHO (assessoria de
imprensa).
Segundo
DANIELA PEREIRA DE CARVALHO, responsável pela excelente adaptação,
em formato dramatúrgico, da obra original, o primeiro impacto que
o relato de Igor Mendes lhe causou veio da injustiça do processo
que manteve um jovem universitário – Ele era estudante da UERJ. –
encarcerado, simplesmente, por protestar, “uma característica histórica
da juventude estudantil”. “O Igor não foi preso nos anos 70. Ele
não foi preso no período pós-golpe de 1964. O Igor foi preso em pleno regime
democrático. A democracia havia falhado com o Igor. Esse foi o estopim da minha
vontade de escrever essa adaptação. Porque é, como ele mesmo disse, ao sair da
prisão: a democracia não tinha passado no teste. Então, ainda temos a obrigação
de aperfeiçoar, minuciosa e arduamente, o regime democrático.”,
ressalta a dramaturga.
“Eu estou muito feliz com a adaptação de “A PEQUENA
PRISÃO”, produzida e encenada pelo meu amigo, VINO FRAGOSO. É um sentimento
contraditório: de um lado, a alegria, por perceber que o texto segue relevante
e atual; de outro lado, indignado que ele talvez faça mais sentido hoje do que
há dez anos. Como se a sociedade brasileira caminhasse, ciclicamente, para
trás. Mas, seja como for, transformar em arte a dura realidade das prisões já é
uma maneira de abrir brechas nos muros de indiferença que as cercam, um
primeiro passo para derrubar os muros da pequena e da grande prisão também na
realidade.”, acrescenta Igor Mendes.
Conquanto seja uma modesta, porém muito corajosa e bem feita produção, pelo que já
valem meus aplausos, trata-se de uma honestíssima montagem, na qual sobressaem
um texto maduro e contundente, uma direção bem profissional e uma vibrante, convincente e visceral interpretação de um eclético e apaixonado ator por sua arte. A
atuação se constrói a partir de constantes transformações físicas e emocionais,
conduzindo o espectador por diferentes perspectivas e experiências de vida. O
resultado é uma narrativa ágil, que se movimenta entre testemunho, memória,
ficção e presença.
Agradou-me a direção, de FERNANDO CEYLÃO, que optou
por uma disposição da plateia em duas partes, deixando um corredor central para
as ações cênicas. O público assiste bem de perto à narrativa, tornando-se uma
espécie de “cúmplice” das ações. Ainda que confinado, entre celas,
corredores, fronteiras, lembranças, encontros e separações, formados por grades
que são, exaustivamente, movidas pelo próprio ator, de um lado a outro, o
personagem olha, profunda e fixamente, nos olhos dos espectadores, dando-nos a
impressão de que está dividindo sua solidão e sofrimento conosco. “Mais
do que um elemento visual, a cenografia torna-se linguagem dramatúrgica. Cada
deslocamento modifica a percepção do espaço e reorganiza a relação entre
público e cena, numa experiência imersiva.”, nas palavras do diretor.
A iluminação, nem sempre tão farta, assinada por FELICIO
MAFRA e VINO FRAGOSO; a direção de movimento, de FERNANDA
DIAS; e a sóbria, porém expressiva, trilha sonora original, de
FEDERICO PUPPI, um grande artista nesta arte, “ampliam a dimensão
sensorial da montagem, criando uma experiência que convida o espectador não
apenas a assistir, mas a atravessar a história”.
FICHA TÉCNICA:
Idealização: Vino Fragoso
Baseado no livro “A Pequena Prisão”, do escritor Igor Mendes
Dramaturgia: Daniela Pereira de Carvalho
Direção: Fernando Ceylão
Assistência de Direção: Yasmin Gomlevsky
Elenco: Vino Fragoso
Direção Musical: Federico Puppi
Cenografia: Vino Fragoso
Figurino: João Pimenta
Desenho de Luz: Felício Mafra (Russinho) e Vino Fragoso
Preparação Vocal: Jorge Maya
Direção de Movimento: Fernanda Dias
Cenotécnica de Montagem: Ingrid Emily
Equipe Cenotécnica: José Ribamar (Maranhão), Ingrid Emily e Regivaldo Moraes
Montagem e Operação de Luz: Bruno Aragão
Assessoria de Imprensa: Carlos Pinho
Fotos do Cartaz: Robert Schwenck
Fotos de Divulgação: Letícia Cecília e Cláudia Ribeiro
Programação Visual: Vino Fragoso
Redes Sociais: Nathalia Alves e Plantha
Tráfego Pago: Nathalia Alves
Assistência de Produção: Ingrid Emily
Realização: Plantha e Cia. do Agora
Concepção e Direção de Produção: Vino Fragoso
Agradecimentos: Andréa Beltrão, Bruce Gomlevsky, Carolina Lavigne,
Cristiano Ayres, Gabriel Godoy, Giovanna Nader, Igor Mendes, José Luiz, Julia
Borges Araña, Marieta Severo, Pedro Henrique França, Renato Farias, Norminda
Fragoso, Rafael Ayres, Ricardo Muniz e Willames de Andrade.
Apoio: EDITORA N-1, ELÉTRICA CÊNICA e SBAT.
SERVIÇO:
Temporada: De 09 de julho a 30 de agosto de 2026.
Local: Teatro Poeirinha.
Endereço: Rua São João Batista, nº 104, Botafogo, Rio de Janeiro – RJ
Dias e Horários: De quinta-feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada).
Venda dos ingressos: Bilheteria do Teatro (sem cobrança de taxa de serviço) e no “site” https://bileto.sympla.com.br/event/122515/d/393732/s/2597028
(com cobrança de taxa de serviço).
Horário de funcionamento da Bilheteria: De terça-feira a sábado, das 15h às 20h; domingo, das 15h às 19h.
Duração: 75 minutos.
Classificação Indicativa: 18 anos.
Gênero: Monólogo Dramático.
“Mais do que falar sobre prisões, “A PEQUENA PRISÃO” investiga aquilo
que resiste dentro delas. E por que o processo de ressocialização é algo
limitado a casos isolados? Porque, talvez, a pergunta mais importante não seja
quem está atrás das grades, mas quais são as grades que permanecem do lado de
fora.”, conclui VINO FRAGOSO,
um artista que merece todos os aplausos e o incentivo dos que são apaixonados
por um bom TEATRO. RECOMENDO, COM EMPENHO, O ESPETÁCULO.
FOTOS: LETÍCIA CECÍLIA
E
CLÁUDIA RIBEIRO.
É preciso ir ao TEATRO, ocupar todas as salas de espetáculo, visto que a arte educa e constrói,
sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos
divulgar o que há de melhor no TEATRO.

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