“MUDANDO DE PELE”
ou
(O DIABO VESTE PRADA E MAYAH VESTE DIGNIDADE.)
Com casas lotadas, desde a estreia,
lotações esgotadas até o final da temporada, se não me equivoco – mas
sempre há uns poucos ingressos para quem chega na hora de uma sessão -,
está em curso a vitoriosa montagem de um solo, realmente, deveras
interessante, de um texto da dramaturga,
atriz e cantora/compositora britânica
AMANDA WILKIN,
bastante contemporânea e negra –
este detalhe é muito importante -, com
tradução de DIEGO TEZA e direção de YARA DE NOVAES, “MUDANDO DE
PELE”, no Teatro SESC Ginástico, trazendo, como a grande e única
protagonista, TAÍS ARAÚJO, depois de algum tempo afastada dos palcos, numa peça
que acompanha uma mulher em busca de sua verdadeira identidade.
SINOPSE:
Mayah (TAÍS
ARAÚJO) é uma mulher de quase 40 anos, que, em uma súbita
fúria, rompe com um ciclo em que precisava se encaixar, para manter um trabalho
e sustentar um relacionamento desgastado.
Livre de suas antigas prisões, ela
encontra um novo lar e um novo emprego.
Nessa busca, encontra Mildred,
uma senhora jamaicana, de 90 anos, que lutou pelos direitos
civis, e Kemi, uma jovem que não pede licença para existir.
A partir dessas uniões - e de
alguns desencontros -, Mayah vai se transformando,
enquanto reconhece seu próprio valor e identidade.
O texto é contundente e
atual. Não conheço o original, mas nem é preciso isso, para saber que é excelente
a tradução de DIEGO TEZA, que tem, como uma espécie de “hobby”,
o hábito de garimpar ótimos textos de dramaturgos internacionais, mormente
ingleses e norte-americanos, traduzi-los e guardá-los em seu “banco de
peças”, pronto para atender a alguém lhe encomende um.
A montagem
do espetáculo é fruto do desejo de TAÍS ARAÚJO de pesquisar e contar
histórias originais sobre mulheres. São palavras da atriz: “Estou, há
anos, em busca de um texto que fale sobre histórias de mulheres e mulheres
pretas, que não passe pela questão da sobrevivência ou da dor. ‘MUDANDO DE
PELE’ é uma reflexão com temas universais, que dialoga com o público em
geral e com a artista que sou”.
Fala o texto
sobre quanto alguém já se adaptou para estar em algum lugar; quantos incômodos vivenciou,
por não se sentir pertencente; e qual o significado de se reconhecer em sua
pele e identidade. Essa é a busca constante da personagem à procura de si mesma,
do seu ser real, verdadeiro, traduzida, metaforicamente, no título da peça: alguém
à procura de uma mudança de pele. Há, infelizmente, os que se conformam
e não conseguem se despir nunca de suas vestes impropriadas.
Muito tendo a ver com o título da
peça, TAÍS ARAÚJO é uma atriz camaleônica, sempre se transformando em
uma nova personagem, de características bem diferentes das anteriores, em seus mais
de 30 anos de uma sólida carreira nos palcos e em outras mídias. A
atriz está muito à vontade “na pele” desta Mayah,
dosando, acertadamente, a emoção em uma ou outra cena, contida e extravagante,
quando isto se faz necessário. “MUDANDO DE PELE” é seu primeiro solo, o
qual a credencia a interpretar outros vindouros.
Mayah, representando várias
mulheres, muitas das quais na plateia, é uma criatura de quase 40 anos,
que se sente inconformada em ter que reproduzir acordos sociais,
emocionais e identitários. Movida por um desejo de ruptura profunda, ela inicia
uma travessia de autoconhecimento e transformação, que se realiza a partir do
encontro com outras mulheres. E viva a sororidade!
TAÍS acertou bem no centro do
alvo, ao convidar YARA DE NOVAES, premiadíssima, para dirigi-la no
espetáculo, a qual contou com a luxuosa colaboração de IVY SOUZA, como
sua assistente de direção. Juntas, trouxeram um ritmo célere à
montagem e propuseram uma espécie de “solo coletivo”, já que, no
palco, TAÍS é acompanhadas, como coadjuvantes, por duas esplêndidas musicistas: DANI
NEGA, que também assina a direção musical, e LAYLA,
responsável por tocar, ao vivo, instrumentos exóticos, como a kora
africana, uma harpa pouco conhecida no Brasil, mas
bastante utilizada pelos povos da África Ocidental, de uma
sonoridade agradabilíssima aos ouvidos mais sensíveis. A história ganha brilho
e frescor graças às músicas originais apresentadas.
Os elementos de apoio, nesta montagem –
cenografia, figurino e iluminação -, dão o seu recado positivamente,
com um maior destaque para o segundo. Isso, porque o figurino,
muito original, diga-se de passagem, também faz parte da contação da história.
Ao idealizá-lo, TERESA NABUCO procura revelar o estado da personagem em
camadas, primeiramente desencaixado, para, então, “mudar de pele”,
na busca pela plenitude. Mais sobre ele não devo falar, para não roubar a surpresa que
causa ao espectador, uma jogada muito interessante da diretora e
da artista figurinista.
Passo a falar de um detalhe, quase
imperceptível, mas que não passa despercebido a este crítico, também professor
das línguas portuguesa e inglesa. O original da peça é “Shedding a
skin”. Reparem que o verbo aparece com a desinência do gerúndio
em inglês (-ing). O tradutor bem poderia ter transformado
o verbo num substantivo: “mudança” (de pele), entretanto isso
reportaria a algo que aconteceu e terminou. O gerúndio
(terminação -ndo)
é uma forma nominal que indica, principalmente, uma ação em andamento, contínua ou inacabada no momento da fala ou em relação a outro tempo. É uma
forma nominal do verbo que expressa o processo de uma ação, como em “mudando”.
O processo de transformação da personagem se deu de maneira lenta e gradual,
caindo e aprendendo, reinventando-se paulatinamente.
FICHA TÉCNICA:
Texto: Amanda Wilkin
Tradução: Diego Teza
Dramaturgismo: Nathalia Cruz
Direção: Yara de Novaes
Assistência de Direção: Ivy Souza
Elenco: Taís Araújo
Participações: Dani Nega e
Layla
Direção de Movimento e Colaboração
Artística: Cristina Moura
Direção Musical, Arranjos Eletrônicos
e Criação Musical: Dani Nega
Arranjos para Kora e Steel
Pan: Layla
Preparação Vocal e Fonoaudiologia:
Janaína Pimenta
Cenografia: André Cortez
Figurinos: Teresa Nabuco
Design de Luz: Gabriele
Souza
Design de Som: Arthur
Ferreira e Gabriel Salsi
Videografismo: Alice Cruz e
Letícia Leão
Visagismo: Adriana Teixeira
Direção Técnica: Ricardo
Vivian
Coordenação de Palco:
Antônio Lima
Contrarregra: Nivaldo Vieira
Coordenação de Comunicação:
Antonio Trigo (Trigo Casa de Comunicação)
Assessoria de Imprensa: Laís
Gomes e Renata Ramos
Conteúdo digital: Digimakki
Identidade Visual: Fábio
Arruda e Rodrigo Bleque (Cubículo)
Fotos: Nanna Moraes
Arte Finalização: Marcos
Nascimento
Direção de Produção:
Verônica Prates
Coordenação de Projetos:
Valencia Losada
Produção Executiva: Camila
Camuso
Assistência de Produção:
Ellen Miranda
Assessoria jurídica: Bruno
Mros
Produção Geral: Quintal
Produções e AXIC'S
SERVIÇO:
Temporada: De 23 de abril a
24 de maio de 2016.
Local: Teatro SESC
Ginástico.
Endereço: Avenida Graça
Aranha, nº 187 – Centro – Rio de Janeiro.
Dias e Horários: 5ªs e 6ªs
feiras, às 19h; sábados e domingos, às 17h.
Valor dos Ingressos: R$ 60
(inteira); R$ 30 (meia-entrada); R$ 15 (credencial plena Sesc e conveniados);
Gratuito (público cadastrado no PCG).
Ingressos: www.ingresso.com ou na Bilheteria do Teatro.
Duração: 80 minutos.
Classificação Etária: 14
anos.
Gênero: Monólogo.
Este espetáculo, que já está
com estreia agendada em São Paulo, tão logo se encerre a temporada
carioca, TEM QUE SER RECOMENDADO por qualquer pessoa sensível
e que aprecia uma excelente peça teatral.
FOTOS: NANA MORAES
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