“INVENTÁRIO”
ou
(RESGATE DE UM
APAGAMENTO!”)
O Teatro Poeirinha, em Botafogo,
no Rio de Janeiro, vem apresentando, com sucesso, uma Mostra,
chamada “ANÔNIMAS”, com três ótimos solos, apresentados em dias
diferentes, que tratam, como pano de fundo, da questão do apagamento de três
grandes mulheres muito importantes para as artes. Os espetáculos jogam luz sobre o silenciamento histórico de
artistas mulheres. O
primeiro, sobre o qual já escrevi, é “Aquele Trem”, apresentado
por Denise Dietrich, que evoca a grande atriz e cantora alemã Marlene
Dietrich, uma parenta afastada; o segundo, “Criatura, Uma
Autópsia”, fala de Mary Shelley, escritora britânica que
deu vida ao personagem Frankenstein; o terceiro monólogo, ao qual
assisti no último sábado (13/12/2025), é uma homenagem à
excepcional artista plástica francesa Camille Claudel,
interpretado por ERICA MONTANHEIRO. É bom que se diga que os três são
textos autorais, da lavra de cada uma das atrizes que os representam.
SINOPSE:
Uma mulher - que um dia foi a escultora Camille Claudel -
presa em um lugar sufocante, fala consigo mesma, com uma cobra que passeia pela
sua cabeça e com seus algozes.
Ela se prepara para deixar aquele lugar.
Durante esta preparação, dá-se conta de que já deixou o mundo físico e
que, agora, é um espectro que pertence ao mundo dos mortos.
Diante desta constatação, ela acessa suas memórias, buscando compreender
seu destino e que legado deixará para o mundo dos vivos.
Antes de chegar ao Rio de
Janeiro, os três espetáculos da Mostra “ANÔNIMAS” vinham
fazendo temporadas em São Paulo, com sucesso de público e de
crítica, desde 2019. A peça tem inspiração na vida e na obra da
artista plástica Camille Claudel, que passou os últimos 30
anos de sua vida encarcerada em uma instituição psiquiátrica. O solo, imensamente
lindo e emocionante, que tem uma brilhante direção de ERIC
LENATE, nos chega pelo enorme talento de ERICA MONTANHEIRO.
Julgo interessante, para quem já assistiu ou ainda assistirá ao espetáculo, falar um pouco sobre Camille Claudel, com base numa pesquisa feita por este crítico. Nasceu Camille Athanaïse Cécile Cerveaux Prosper (1862/1943). Foi uma escultora e artista francesa. Faleceu na obscuridade, mas sua obra ganhou reconhecimento, por sua originalidade, porém apenas algumas décadas após a morte. Era irmã mais velha do poeta e diplomata Paul Claudel. Aos 19 anos, começou a desenvolver estudos com o consagrado escultor Auguste Rodin. Foi assim que se iniciou o tumultuado e controverso relacionamento de Rodin com Camille, muito por conta da rivalidade que passou a existir entre ambos. A princípio, ela se tornou sua inspiração, sua modelo, assistente, confidente e amante.
Em vida, Camille
sofreu muito, sob a sombra do mestre famoso. Devido ao machismo e preconceito, pelo fato de ser
mulher, Camille não conseguia financiar muitas de suas ideias e,
por vezes, dependeu de Rodin, para realizar algumas delas. Era
também dependente, financeiramente, da família e, depois da morte de seu amado
pai, que tanto a auxiliou, sua mãe e seu irmão, que a odiavam, tomaram o
controle das finanças, deixando-a na miséria, vivendo de favores.
Seu irmão e sua mãe conspiraram para mantê-la sem dinheiro e, depois, para guardá-la num hospital psiquiátrico, no qual viveu por 30 anos, até sua morte. Dizem alguns estudiosos de sua vida e obra que seu irmão invejava seu sucesso e talento, tendo afirmado, inclusive, que ele era o único gênio da família. Sua irmã mais nova, Louise, desejava o acervo da irmã e comemorou o declínio de Camille. Os maiores críticos de arte afirmam que Camille Claudel era um gênio incompreendido, “com uma arte suprema e infinitamente bela, forte e brilhante, que, porém, nunca recebeu o devido reconhecimento em vida”.
Apesar de, acometida de um surto psicótico, ter destruído parte de seu acervo, cerca de 90 estátuas
de Camille sobreviveram. A força e a grandiosidade de seu talento estavam, na
verdade, em um lugar muito incômodo: entre a figura legendária de Rodin
e a de seu irmão, que se tornou um dos maiores expoentes da literatura de sua
geração. Havia, sem dúvida, questões de gênero permeando aquele
lugar menor dedicado a Camille. Infelizmente, não conseguimos,
ainda, nos livrar de tal mácula.
Seu gênio foi sufocado por dois
gigantes; sua vida, por um abandono; suas forças e sua lucidez foram esgotadas
por uma relação umbilical com seu mestre e amante, uma relação da qual não
conseguiu se desvencilhar, consumindo sua vitalidade, na vã tentativa de se
desembaraçar daquele destino perverso. Camille Claudel tinha uma
forte personalidade. Sua intransigência e seu gênio criativo ultrapassaram a
compreensão de sua época. Ela tinha uma inteligência e um talento fora do comum,
e poucas pessoas da época entendiam seu grande dom para ser uma verdadeira
artista.
Após 1905, Camille
pareceu desenvolver algum transtorno mental, que a levou a destruir muitas de
suas obras, desaparecia por longos períodos de tempo, exibindo sinais de
paranoia, tendo sido diagnosticada com esquizofrenia. Ela acusava Rodin
de roubar suas ideias e de armar um complô para assassiná-la. Seu irmão, Paul
Claudel, com a aquiescência da família, internou-a, compulsória e abusivamente,
num hospital psiquiátrico, onde faleceu.
Sobre o monólogo “INVENTÁRIO”,
tenho a dizer que o coloco na conta de um dos melhores solos a que assisti
neste ano de 2025. Escrito e interpretado por ERICA
MONTANHEIRO, o espetáculo atinge o espectador tão logo este adentra o Teatro
Poeirinha, encontrando a atriz, já em cena, falando sozinha, como se conversasse
com alguém.
Segundo ERICA MONTANHEIRO,
sua obra não surgiu de uma hora para outra. O embrião do texto da
peça veio em 2009, quando a autora se deteve diante de uma foto
de Camille, já nos
últimos meses de sua vida, internada num asilo psiquiátrico. Chamou-lhe a
atenção o estado precário em que Claudel se encontrava, fisicamente, uma
artista genial que “transmitia um vazio horrível, uma morte em vida. Um
grande e perturbador silêncio.”. Aquela imagem ficou-lhe retida na
memória e só quatro anos depois, em 2013, o texto começou a ser
escrito, a partir daquela figura, com fatos da vida dela e outros elementos
autobiográficos da própria autora, numa mistura de ficção e realidade.
A montagem “fala da
importância da autoria quando se é uma artista mulher, sobre silenciamento
feminino, ao longo da história, e, também, sobre morte”. É uma dramaturgia é muito bem costurada, calcada em fatos reais, mas envolvida na magia
do Teatro. Não se trata de uma narrativa cronológica, mas plena
de informações esparsas, que, quando reunidas pelo espectador, mostram a
difícil e nada invejável vida de Camille. Há passagens bem leves
e muito poéticas também. Nada, no texto, é desperdiçado; não há “barrigas”.
ERICA MONTANHEIRO é uma multiartista (atriz, diretora, dramaturga e preparadora de elenco), que interpreta,
de maneira formidável, uma mulher muito além da sua idade, depauperada e maltratada
pelo tempo e pela doença, em seus mínimos detalhes. É impressionante como a
atriz construiu a personagem, sem dar margem a qualquer imperfeição. Da voz, enfraquecida
e arrastada, aos mínimos gestos delicados executadas com as mãos, até sua
maneira de andar. Suas expressividades facial e corporal são um achado nesta
produção.
Realço, com muitos aplausos, o trabalho de envelhecimento de seu rosto e mãos (CAROL BADRA e LEOPOLDO PACHECO), feito com a aplicação de uma espécie de argila, que, ressecada, aplicada cerca de uma hora antes do início da peça, vai, aos poucos, despencando de sua pele. Com o efeito produzido num determinado momento de luz, obra de ALINE SANTINI, chega a dar a impressão de que a personagem sofria de vitiligo.
Outro aspecto que nos chama a
atenção neste trabalho é a cenografia, minimalista e deveras
interessante, criada pela atriz e pelo diretor, ERIC LENATE, sob a
rubrica “arquitetura cênica”, reduzido o espaço cênico a,
aproximadamente, 9m², ou até menos, uma bela criação, muito intuitiva e
expressiva.
Diante de uma relação abusiva com Rodin, que era casado e mantinha Camille como sua amante, e das dificuldades de ser reconhecida e se firmar economicamente, apesar de seu imenso talento como escultora, Camille Claudel se posicionou, fortemente, contra aquela organização social patriarcal. Foi, por isso mesmo, rotulada como desajustada, abandonada, silenciada, ações de extrema violência que a fizeram, num ato de coragem e revolta, destruir boa parte da própria obra artística. Morreu em um asilo psiquiátrico e foi enterrada em uma vala comum, sem a presença da família. “A peça ‘INVENTÁRIO’ é um ato de libertação da figura da mulher Camille Claudel.” (ERICA MONTANHEIRO).
FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia: Erica Montanheiro
Direção: Eric Lenate
Assistência de Direção: Mateus Monteiro
Atuação: Erica Montanheiro
Arquitetura Cênica: Erica Montanheiro e Eric Lenate
Figurino: Carol Badra e Leopoldo Pacheco
Desenho de Luz: Aline Santini
Trilha Sonora Original, Sonoplastia e Engenharia De Som: L.P. Daniel
Visagismo: Carol Badra e Leopoldo Pacheco
Direção Audiovisual e identidade Visual: Laerte Késsimos
Canções Originais e Assistência de Direção Musical: Luisa Gouvêa
Colaboração no Texto e nas Canções em Francês: Fabrice Bidaury
Preparação Músico-Vocal: Cida Moreira
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação (João Pontes e Stella
Stephany)
Fotos: Kim Leekyung e Danilo Apoena
Vozes em “off”: Ministros: Erica Montanheiro; Mãe: Clara
Carvalho; Madre: Larissa Matheus; Irmã e Interna: Aurea Braucs; e Interna:
Ligia Yamaguti
FICHA TÉCNICA DA MOSTRA "ANÔNIMAS"
Idealização: Bruna Longo, Denise Dietrich e Erica Montanheiro
Produtor Associado e Direção Técnica da Mostra: Flávio Tolezani
Consultoria Cenotécnica da Ocupação: Kleber Montanheiro
Artes Gráficas: Kleber Montanheiro e Patrícia Cividanes
Fotos: Danilo Apoena, Kim Leekyung e Marcelle Cerutti
Operador de Luz: Bruno Aragão
Operador de Som e Vídeo e “Videomapping”: Rafael Marreiros
Direção de Produção: Erica Montanheiro
Produção Executiva: Bruna Longo e Denise Dietrich
“Marketing” Digital: Lead Performance
Realização Lolita & La Grange Produções Artísticas, Teatro Volátil
Produções Artísticas e Cia. desaFRONTe
Apoio: Antro Positivo
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella
Stephany
SERVIÇO:
Temporada: De 08 de novembro a 21 de dezembro de 2025.
Local: Teatro Poeirinha.
Endereço: Rua São João Batista, nº 108, Botafogo – Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 2537-8053.
Dias e Horários: Sábados, às 20h, e domingos, às 19h.
Valor dos Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia-entrada).
Vanda dos Ingressos: Plataforma Sympla (com taxa de serviço) e na
Bilheteria do Teatro (sem taxa de conveniência).
Horário da Bilheteria do Teatro Poeira/Poeirinha (vendas em espécie,
cartões de crédito e de débito e PIX): De 3ª feira a sábado, das 15:00h às
20:00h; domingo, 15:00 as 19:00hs.
Classificação Etária: 12 anos.
Duração: 60 minutos.
Gênero: Monólogo (Drama).
Para encerrar estes escritos, transcrevo
algumas palavras da autora/atriz: “Não é difícil se ver em
outra artista, quando se trata de apagamento histórico. A montagem ... Fala da
importância da autoria, quando se é uma artista mulher, sobre silenciamento
feminino, ao longo da história e, também, sobre morte. Fizemos uma primeira
temporada, em São Paulo, e fomos selecionados para uma circulação do CCBB, em
2020, que incluía o Rio de Janeiro. Tudo foi interrompido com a pandemia.
Muitas mortes aconteceram depois disso - o luto passou a me acompanhar, para
além das vidas ceifadas pela pandemia e para além das mortes simbólicas que nos
atravessaram. Idealizar e trazer esse espetáculo ao Teatro Poeirinha, dentro de
uma ‘Mostra’ com duas outras mulheres, é revisitar minha história como artista,
uma parte dela que foi abortada em 2020. É um renascimento e um recomeço.”
EFUSIVAMENTE, RECOMENDO ESTE BELÍSSIMO ESPETÁCULO/SOLO.
FOTOS: KIM
LEEKYUNG
e
DANILO APOENA
GALERIA
PARTICULAR:
É preciso ir ao TEATRO,
ocupar todas as salas de espetáculo, visto
que a arte educa e constrói, sempre; e salva. Faz-se necessário resistir sempre
mais. Compartilhem esta crítica, para que, juntos, possamos divulgar o que
há de melhor no TEATRO BRASILEIRO!
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