sábado, 23 de julho de 2016


PASSIONAL
 

(PAIXÃO É COISA QUE DÁ E PASSA;

ÀS VEZES, NÃO; MATA.)


 


 

            Até o dia 31 de julho (VER SERVIÇO), podem ser vistos os estragos a que uma paixão pode levar um ser humano (Humano?!) e as marcas indeléveis que deixa nas almas dos apaixonados.

Falo de paixão; não de amor. Não falo do mais belo dos sentimento; refiro-me a um estado de total loucura, de descontrole, de frenesi, que impede a visão, mesmo aos que mantêm os olhos abertos, que leva uma pessoa a cometer os maiores desatinos, por desejar, intensamente, alguém ou algo que não lhe é possível alcançar ou não lhe está reservado.

            Estou falando da peça “PASSIONAL”, em cartaz no Teatro I, do SESC Tijuca, com texto de ALEXANDRE MOTA, DANIELLE REULE, RAFAEL SARDÃO e RENATO LIVERA, direção de RENATO LIVERA, com ANNA SANT´ANA, KAREN MOTA e BRUNO QUARESMA, no elenco.
 
 

 
Anna Sant'Ana, Bruno Quaresma e Karen Mota.
 
 
            O substantivo paixão” é utilizado, principalmente, no contexto de romance ou de desejo sexual, em geral, implicando uma emoção mais profunda ou mais abrangente com relação a alguém ou algo que se deseja ardentemente. Via de regra, se não refreada ou reprimida totalmente, o que é muito difícil de acontecer, leva a situações de grande desconforto, dor e, não raro, a finais trágicos.

            Sobre o espetáculo aqui analisado, partimos de uma breve sinopse (perdão pelo pleonasmo), que será, em seguida, ampliada:

 
No bar.
 


 
SINOPSE:
 
Dentro de um bar decadente, em Copacabana, acompanhamos o desenrolar de um triângulo amoroso, formado por uma cantora, uma garçonete e um escritor.
 
A vida dos três se entrelaça e mescla ficção com realidade, tornando esse jogo perigoso e potencialmente fatal.
 














 


 
            Toda a ação se passa dentro de um bar de categoria e reputação duvidosa, no bairro de Copacabana, frequentado, diariamente, por EUGÊNIO (BRUNO QUARESMA), um escritor, um jovem roteirista, cuja inspiração, para suas histórias, ele busca na noite, na escuridão e nos meandros dos bares da vida, no correr das madrugadas.

            Nesse bar, ele desenvolve uma profunda relação de amizade, intimidade e cumplicidade com MIRANDA (ANNA SANT’ANA), garçonete do estabelecimento, de longa experiência no ramo, apaixonada pelo rapaz, sem ser, por ele, correspondida no mesmo grau.

            O bar, mesmo em sua decadência, não abre mão de “shows” vagabundos, com o objetivo de, ainda, tentar conseguir atrair freguesia. Um dia, chega ao local, para ocupar o “estrelato” das apresentações artísticas, uma cantora e, também, dançarina (não, necessariamente, nessa ordem), LAVÍNIA (KAREN MOTA), que vai arrebatar o coração de EUGÊNIO e ser a peça que faltava para a construção de um triângulo amoroso, que, todos sabemos, sempre acaba, um dia, por se desfazer, lesando um dos lados dessa figura “geométrica”.
 
 
 
 


            EUGÊNIO vive um péssimo momento de infertlidade criativa, mergulhado num desespero, por não encontrar nada ou ninguém que lhe sirva de fonte de inspiração, o que o maltrata muito, atormentando-o seriamente, uma vez que a crise criativa, consequentemente, leva a outra, a financeira. O viver ser motivação criativa significa o caminho para um não-viver, um não-sobreviver, em termos práticos.


 
O elenco.


            Uma das piores situações para um artista, um criador, é ter de trabalhar por encomenda, para sobreviver, ou seja, ter de produzir uma “arte” compulsoriamente, encomendada, como uma mercadoria. No caso em discussão, o rapaz aceita um trabalho em que terá de escrever algo que não é de seu gosto ou interesse. Faz isso, sem nenhum prazer, violentando-se, intimamente, sendo pressionado, constantemente, pelo editor, que exige o cumprimento de um prazo contratual, o qual o escritor procura postergar ao máximo.

Isso gera um bloqueio tal em EUGÊNIO, a ponto de fazer com que ele não consiga prosseguir no seu “trabalho”, além da introdução do livro. Desespera-se por causa disso e vai matar as mágoas no bar, afogado em bebidas e sob a “proteção” de MIRANDA, que mais atrapalha que ajuda. Às vezes, chega a ser cruel com ele, talvez como uma forma de puni-lo, por não lhe corresponder o amor.

            O deserto criativo de EUGÊNIO expande-se para um deserto em sua vida. Encontra-se perdido, no meio de um “saara”, sem saber a direção do norte, ou qualquer outra, para que possa se guiar a um porto seguro, a uma salvação.
 
 
 
 


            Como nada é tão ruim, que não possa piorar, a chegada da dançarina cantora, ou vice-versa, o que não faz a menor diferença, tudo muda, uma vez que ela desperta um forte desejo no rapaz, e ele passa a vê-la como a possível tábua de salvação, vê nela uma fonte de inspiração para uma de suas obras. Escrever a sua história passa a ser uma meta. Surge, daí, uma extrema e explícita obsessão dele por ela, o que, obviamente, irá mexer com os brios e os sentimentos de MIRANDA, advindo, daí, um forte jogo de poder entre os três, no qual cartas são postas na mesa, ao sabor de manipulações, blefes e trapaças. O trio é extremamente passional e não economiza manifestações explicitas de provocação e desafio, uns aos outros. É um jogo e a sorte está lançada. A vida dos três se entrelaça e mescla ficção com realidade, tornando esse jogo perigoso e potencialmente fatal.

‘‘Diante da dificuldade do artista em criar sua obra, EUGÊNIO mistura realidade com a ficção. Relacionamentos, amor doentio e as consequências que isso pode gerar, são abordados através de uma série de intrigas, manipulações e mistérios que cercam a trama”, de acordo com o “release”, enviado pela assessoria de imprensa (GABRIELA MOTA).


 



            Convenhamos que os ingredientes dessa sopa são os de sempre; não há um legume de gosto mais forte ou um tempero novo, que pudesse dar outro sabor ou textura a ela. Mas isso não importa. O mexer a panela ou outro detalhe, no preparo desse alimento, pode ser um fator diferencial, que fará com que o comensal (espectador) se interesse bastante pela iguaria (a história) e, mais uma vez, como, em tantas outras, já aconteceu comigo, chegue à conclusão de que “o enredo é mais do que batido, mas há alguma coisa diferente nessa história que me fez gostar da peça”, comentário que ouvi, ao deixar o teatro, e que bem poderia ter sido feito por mim mesmo.

            E o que seria responsável por essa conclusão? Acho que alguns legumes raros e novidades em condimentos, que foram jogados naquele caldeirão.
 
 
 
Provocações.
 

            Comecemos por algo que me encanta, naquele Teatro I do SESC Tijuca: a arquitetura do palco. Ou melhor, o fundo do palco, aquilo que não deveria aparecer, aos olhos do público, mas que RENATO LIVERA e outros diretores, em espetáculos anteriores, souberam explorar, e muito bem, deixando-o à vista das pessoas. Refiro-me a escadas e espécies de balcões, em planos diferentes, que parecem levar aos camarins, e que podem, e devem, ser aproveitados, nos espetáculos, como espaços cênicos, o que cria uma estética diferente e muito interessante. LIVERA, mais do que qualquer outro diretor que teve, anteriormente, a mesma ideia, fez isso melhor que ninguém, explorou aquele detalhe, sendo que seu trabalho, nesse setor do palco, bem ao fundo, é muito valorizado pela excelente luz, de RENATO MACHADO, que, aliás, se aplica a todas as cenas da peça.
 
 
 
 


            Sabemos todos que, por conta de uma crise geral por que passa o país, também, ou principalmente, econômica, as artes e a cultura, de uma forma geral, são as primeiras a sofrer cortes. Sendo assim, montar um espetáculo de TEATRO, e de qualidade, torna-se, a cada dia, uma tarefa mais hercúlea, porque envolve muitos gastos, e os patrocínios têm-se tornado, cada vez mais, raros. Louvo, por isso, esses heróis, que não desistem.

Eu acredito é na rapaziada / Que segue em frente e segura o rojão. / Eu ponho fé é na fé da moçada / Que não foge da fera e enfrenta o leão. / Eu vou à luta com essa juventude, / Que não corre da raia a troco de nada. / Eu vou no bloco dessa mocidade, / Que não tá na saudade e constrói / A manhã desejada”. (“E Vamos À Luta” – Gonzaguinha).




 


            Pois é! Com toda crise e com poucos recursos, também é possível montar um bom espetáculo de TEATRO, e “PASSIONAL” é uma prova disso.

            Para que um grande cenário? Com um bom texto, um cenário muito simples, formado apenas por uma mesa retangular, grande, e três cadeiras, atende às necessidades da peça, para compor um bar. Sem a quarta cadeira, porque ela não é necessária, uma vez que um triângulo não é formado por quatro lados. Já está aí, de forma bem criativa; uma “economia”, portanto. A criatividade surge da necessidade de economizar. E dá certo. Muito certo.

            Diferentemente de um samba-enredo, que, quase sempre, conta com vários autores e cuja qualidade, geralmente, piora, na mesma proporção da quantidade de compositores (já vi até oito), o texto, escrito a oito mãos, por ALEXANDRE MOTA, DANIELLE REULE, RAFAEL SARDÃO e RENATO LIVERA, é muito bom e apresenta diálogos fortes, dentro de uma arquitetura dramática simples, mas muito bem alicerçada. Aqui, quatro cérebros criativos deram origem à base de uma boa montagem teatral, que é o texto.
 
 
 
 


            Ainda que classificado, o gênero da peça, como “drama”, cabe, dentro das situações, até as mais “dramáticas”, pitadas de humor, quase sempre um pouco cáustico e/ou provocado pelo duplo sentido, como na ótima cena em que MIRANDA, um pouco mais próxima ao proscênio, fala, demoradamente e com bastantes detalhes, de um certo cão que não gostava de cruzar, enquanto ao lado, e um pouco mais atrás, EUGÊNIO e LAVÍNIA protagonizam uma tórrida cena de sexo sobre a mesa. Talvez seja o momento de maior descontração da plateia. Muito boa a cena.

            Estão bem inseridos no contexto da peça os figurinos de TICIANA PASSOS, que não poderia, nem deveria, ter criado nada melhor do que fez, tudo dentro dos conformes, seguindo a linha do espetáculo.

            O trio de atores se sai muito bem, cada um envolvido por seu personagem e numa sintonia, alcançada ao longo dos ensaias, o que desemboca numa ótima interpretação dos três, com um ligeiro destaque para ANNA SANT’ANA, talvez pela natureza de sua personagem. As trocas de farpas entre eles e os resultados que isso produz fazem com que o espectador se deixe levar, passionalmente, ora para um lado, ora para outro, ora para um terceiro, ao sabor de marolas ou ondas mais fortes, tudo isso em função do bom texto e da excelente interpretação dos atores
 
 
 
O elenco: Karen, Bruno e Anna.
 

            Recomendo a peça, lembrando que o título de uma obra de arte é muito importante, por resumir o seu conteúdo e para “vender” o produto, chamar a atenção dos futuros espectadores, no caso do TEATRO. “PASSIOINAL” se encaixa nos dois critérios.

            E, para terminar, um toque gramatical, referente à regência verbal, que é uma pista e, espero, sirva, também, como um elemento de curiosidade, para quem ainda não assistiu ao espetáculo: Eu posso matar DE ou POR. Mantenho as preposições, mas jamais troco o verbo MATAR por MORRER.


 



Fecha o pano!!!
  

 



 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto: ALEXANDRE MOTA, DANIELLE REULE, RAFAEL SARDÃO e RENATO LIVERA
Direção: RENATO LIVERA
 
Elenco: ANNA SANT'ANA, KAREN MOTA e BRUNO QUARESMA
 
Fotografia: ELDER GATTELY e J. KEISE
Concepção do Cenário: RENATO LIVERA
Figurino: TICIANA PASSOS
Iluminação: RENATO MACHADO
Operação de Luz: ROBERTO MACEDO
Operação de Som: MARIANA AMARAL
ARGUMENTO E IDEALIZAÇÃO: RAFAEL SARDÃO
PRODUÇÃO EXECUTIVA: KAREN MOTA
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: ANNA SANT´ANA
 

 
 
 
 

 

 
SERVIÇO:
 
Temporada: De 8 a 31 de julho
Dias e Horários: De 6ª feira a domingo, às 20hs
Local: Sesc Tijuca – Teatro I - Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca – Rio de Janeiro
Telefone: (21) 3238-2139
Bilheteria: Funciona de 3ª feira a 6ª feira, das 7h às 20h
Valor do Ingresso: R$20,00
Gênero: Drama
Duração: 70 minutos
Classificação Etária: 14 anos
 

 



 
 
 
 
(FOTOS: ELDER GATTELY e J. KEISE.)
 




quinta-feira, 21 de julho de 2016


UM NOME PARA

ROMEU

E

JULIETA


(NÃO É PRECISO REBATIZÁ-LOS.

APENAS “ROMEU” E “JULIETA”.)


 



            A pessoa vai ao TEATRO, já conhecendo a história que será contada. Mas ela vai, assim mesmo. Por quê? Por que adora a história? Talvez. Por que deseja ver o trabalho de amigos no palco? Também.  

            Já perdi a conta de a quantas encenações de “Romeu e Julieta” já assisti, ao longo da minha vida de “rato-de-teatro”. Jamais vi uma igual a outra. O que sempre me levou a assistir a uma nova montagem desse clássico de WILLIAM SHAKESPEARE é a curiosidade de ver de que maneira a história seria contada, esperando, sempre, é óbvio, que nenhum adaptador ou diretor decida “entrar na parceria” da consagrada obra de arte, ou seja, que ninguém invente de contar uma história diferente.
 
 
 
Daniel Chagas e Andrêas Gatto.


 
 
            E foi assim que aceitei o convite para assistir a “UM NOME PARA ROMEU E JULIETA”, espetáculo que está em cartaz no Teatro de Arena da Caixa Cultural, no Rio de Janeiro. E não é que vi uma versão compacta da história de amor entre os dois adolescentes, oriundos de famílias inimigas, em apenas 70 minutos, sem qualquer sacrifício, deturpação ou mutilação da tragédia shakespeariana?!... E o melhor: gostei do que vi.

            Por mais que eu ache desnecessário apresentar uma sinopse da história, escrita entre 1591 e 1595, portanto há mais de 400 anos, sempre pode haver algum “desavisado”, que não a conheça ou somente tenha ideia de uma parte da trama:

 
Carolina Ferman.
 
 

 
SINOPSE:
 
A peça é passada em Verona e se inicia numa rua, com o desentendimento entre os MONTECCHIO e os CAPULETO, duas famílias historicamente inimigas.
O PRÍNCIPE DE VERONA intervém e declara que irá punir, com a morte, as pessoas que colaborarem para mais uma briga entre ambas as famílias.
Mais tarde, um CONDE, de nome PÁRIS, conversa com o SENHOR CAPULETO sobre o casamento de sua filha com ele, mas CAPULETO está confuso, quanto ao pedido, porque JULIETA tem somente treze anos. Pede ao CONDE que aguarde dois anos, até a jovem completar 15, e o convida para uma festaque seria realizada na sua casa. A SENHORA CAPULETO e a AMA DE JULIETA tentam persuadir a moça a aceitar o cortejo de PÁRIS.
BENVÓLIO encontra-se com seu primo, ROMEU, filho dos MONTECCHIO, e conversam sobre a depressão do moço e acaba descobrindo que ela é o resultado de um amor não correspondido por uma garota, chamada ROSALINA, uma das sobrinhas do SENHOR CAPULETO.
Persuadido por BENVÓLIO e MERCÚCIO, o protagonista atende ao convite da festa na casa dos CAPULETO, na esperança de se encontrar com ROSALINA. Contudo, ROMEU acaba por se apaixonar, perdidamente, por JULIETA.
Após a festa, na famosa "cena da varanda", ROMEU pula o muro do pátio dos CAPULETO e ouve as declarações de amor de JULIETA, apesar de seu ódio pelos MONTECCHIO.
ROMEU e JULIETA decidem se casar clandestinamente.
Com a ajuda de FREI LOURENÇO, que vê, naquela união, a reconciliação das duas famílias, eles conseguem se casar, secretamente, no dia seguinte.
TEOBALDO, primo de JULIETA, sentindo-se ofendido pelo fato de ROMEU ter fugido da festa, ao ser reconhecido, desafia o moço para um duelo. Este, que, agora, por amor a JULIETA, considera TEOBALDO seu amigo e parente, recusa-se a lutar contra ele.
MERCÚCIO, então, sente-se incentivado a aceitar o duelo, em nome de ROMEU, e a contragosto deste, por conta de sua "calma submissão, vil e insultuosa". 
Durante o duelo, MERCÚCIO é, mortalmente, ferido e ROMEU, irritado com a morte do amigo, prossegue o confronto e mata TEOBALDO.
Por conta disso, o PRÍNCIPE decide exilar ROMEU, de Verona, por conta do assassinato, salientando que, se ele retornasse, seria condenado à morte. 
O SENHOR CAPULETO, interpretando, erroneamente, a dor de JULIETA, concordou em casá-la, imediatamente, com o CONDE PÁRIS e ameaça deserdá-la, mas ela se recusa a obedecer ao pai.
A jovem pede, em seguida, à mãe, que interceda por ela, sobre o pai, no sentido de adiar o indesejado casamento, mas a mãe aceita tal pedido.
Quando escurece, ROMEU, secretamente, passa toda a noite no quarto de JULIETA, onde eles consumam seu casamento.
No dia seguinte, JULIETA visita FREI LOURENÇO, pedindo-lhe ajuda, para escapar do casamento, e o FREI lhe oferece um pequeno frasco, aconselhando-a: "… bebe seu conteúdo, que, pelas veias, logo, há de correr-te humor frio, de efeito entorpecedor, sem que a bater o pulso continue em seu curso normal, parando logo…".
 
O frasco, se ingerido, faz com que a pessoa durma e fique num estado semelhante ao da morte, em coma por "quarenta e duas horas". Com a morte aparente, os familiares pensarão que a moça está morta e, assim, ela não se casará indesejadamente.
 
Por fim, Frei Lourenço promete que enviará um mensageiro, para informar ROMEU — ainda em exílio — do plano que irá uni-los e, assim, fazer com que ele retorne para Verona, no mesmo momento em que a jovem despertar. Na noite antes do casamento, JULIETA toma a poção e, quando descobrem que ela está "morta", colocam seu corpo na cripta da família.
 
A mensagem, contudo, termina sendo extraviada e ROMEU pensa que JULIETA, realmente, está morta, quando o criado BALTAZAR lhe conta o ocorrido.
 
Amargamente, o protagonista compra um veneno fatalde um boticário, que encontra no meio do caminho, e dirige-se para a cripta dos CAPULETO. Lá, ele se defronta com PÁRIS.
Acreditando que ROMEU fosse um vândalo, o CONDE confronta-se contra o “desconhecido” e, na batalha, ROMEU o assassina. Ainda acreditando que sua amada está morta, ele bebe a poção.
 
JULIETA acaba acordando, descobre a morte de ROMEU e suicida-se, com o punhal dele, vendo que a poção do moço não possuía mais nenhuma gota para ela.
 
As duas famílias e o PRÍNCIPE se encontram na tumba e descobrem os três mortos.
 
FREI LOURENÇO conta a história do amor impossível dos jovens para as duas famílias, que, agora, se reconciliam, pela morte dos seus filhos.
 
A peça termina com a elegia do PRÍNCIPE para os amantes:
 
"Jamais história alguma houve mais dolorosa / Do que a de JULIETA e a do seu ROMEU."
 



 
No baile I.
 
 
No baile II.
 
 
No baile III.
 
 

            Em 2006, para a conclusão de seu curso de Artes Cênicas – Direção Teatral, na Universidade Federal do Rio de Janeiro - , DANI LOSSANT escolheu o clássico de SHAKESPEARE, como um desafio de montar um espetáculo com uma história já tão conhecida e contada por tantas pessoas, de uma forma diferente, em termos de concepção cênica. Seu desejo era trabalhar sobre uma peça que falasse do amor interrompido, impedido e impossibilitado por fatores externos. DANI optou por um trabalho que teve por base um intenso treinamento físico do elenco de seis atores. Além da apresentação na própria Universidade, em seguida, participou de inúmeros festivais universitários, ganhando reconhecimento de crítica e público, além de indicações e premiações.

            Depois de dez anos, a diretora resolveu remontar o espetáculo, contando, para isso, com um novo elenco. Segundo o “release” da peça, enviado por LYVIA RODRIGUES (AQUELA QUE DIVULGA), “a encenação de Lossant investe na emergência do corpo do ator e da palavra de SHAKESPEARE, como ação primordial, trazendo uma poética que se constrói pela essencialidade dos gestos e movimentos e que intensifica a beleza e a crueza de tantas vezes contada história de ROMEU e JULIETA”.

            Contando com a valorosa cumplicidade de DIOGO LIBERANO, na colaboração dramatúrgica, DANI elegeu uma proposta contemporânea e desafiadora, partindo de dois elementos, que considero fundamentais neste processo criativo: uma nova concepção espacial e o trabalho de corpo dos atores, alcançando um resultado excelente. Para este, contou com o inestimável e muito criativo trabalho de direção de movimento de NATHÁLIA MELLO, que deve ter “sugado” bastante o elenco, fazendo com que certas cenas possam ser consideradas um verdadeiro balé. Todos corresponderam, à altura, à proposta de NATHÁLIA e o resultado é brilhante!

            Sem contar com cenários, a encenação se dá sobre um piso quadrado, numa imitação de um mármore envelhecido, sobre o qual, no decorrer do espetáculo, todos os atores escrevem palavras soltas ou pequenas frases, infelizmente – a grande maioria – impossíveis de serem lidas pela plateia – e aqui vai a minha única restrição ao espetáculo, porém julgo-a seriíssima, uma vez que a leitura daquelas inscrições é fundamental, para o entendimento da história, dentro da estética cênica escolhida.
 
 
 
 
 
 
 



O motivo desse impedimento se dá porque é utilizado um giz, ou material semelhante, de cor marrom, que não sobressai, sobre aquele piso, comprometido, mais ainda, pela maior ou menor incidência de luz, principalmente a vermelha. “A escrita de palavras, nomes e poemas pretende aludir ao próprio ato de contar uma história. Ao mesmo tempo, ao investir não apenas na palavra dita, mas também em sua grafia no espaço, a encenação evoca a criação de imagens tanto no trabalho dos atores como no do espectador”, segundo o “release”. Sendo assim, proponho que a direção encontre, imediatamente, uma solução, para que seu objetivo seja alcançado.

Tirante esse detalhe, o qual – repito – é bastante sério e importante, a direção acerta em cheio, na proposta, com algumas soluções inovadoras, que funcionam muito bem, como, por exemplo a cena do duelo entre os três (MERCÚCIO, TEOBALDO e ROMEU), no qual as espadas ou armas desse tipo são substiutídas por um elemento que me reservo o direiro de não revelar, para não roubar a surpresa aos que irão assistir à peça.

A mistura da música de época com “funk”, durante o baile é algo que entendo, dentro da proposta, mas não me agrada muito. É uma questão pessoal, de quem não tolera esse ritmo, uma vez que chamar aquilo de "música" seria, no mínimo, uma heresia. Não se trata de preconceito, mas questão de gosto.

Agrada-me a ideia de, ao adentrar a sala de espetáculos, o público já encontrar os atores se aquecendo, assim como a de os que não estão em cena ficarem nos cantos da arena, participando, indiretamente, dela, o que significa dizer que há uma ampliação do espaço cênico e uma aproximação maior com o espectador, que se sente um pouco dentro da ação..

É belíssima a cena da noite de amor, entre os apaixonados, toda coreografada, sugerindo, apenas, o coito, com muita leveza e poesia.

Mais dois detalhes da direção, que merecem um crédito especial. são a utilização de canela em pó, para substituir os líquidos, consumidos, não por ingestão, mas por, digamos, aspiração, depois de o pó ser lançado no ar, num belo efeito plástico. O outro é a cena entrecruzada, envolvendo o FREI e o emissário da carta, FREI JOÃO, que não conseguiu cumprir sua tarefa, o que impediria toda a tragédia, e ROMEU e BALTAZAR. Não que a técnica seja inovadora, mas a maneira como a cena é conduzida é que é o grande diferencial de outras vezes em que tive a oportunidade de ver algo semelhante.
 
 
 


 

Que DANI LOSSANT não espere mais tanto tempo para nos brindar com outro bom trabalho de direção!

 
 
 
 
            Nas palavras da diretora, com as quais concordo, em parte, “a história de ROMEU e JULIETA se atualiza, a cada vez que é contada, e agrega novas significações. Tratamos do amor romântico, não porque não desconfiamos dele e dos discursos que ele produziu ao longo do tempo, mas, justamente, porque ele perece, apesar de apresentar muita força de vida. Entendemos o amor como força subversiva no seu embate contra os poderes autoritários que tentam cercear a liberdade humana”.

            Para DIOGO LIBERANO, que contribuiu para a dramaturgia, optando por um texto em versos, “a dramaturgia de SHAKESPEARE manifesta que a intolerância humana existe ‘desde sempre’. O que causa a tragédia do casal é a incapacidade humana de lidar com a diferença do outro, não a paixão entre eles. Ao mesmo tempo, e isso é muito importante de ser contado repetidas vezes, SHAKESPEARE sugere o amor como a principal arma na luta pela liberdade e pela vida”. Pura verdade, o que pode ser encontrado em outras obras do grande dramaturgo inglês.
 
LUCI VILANOVA, que assina os figurinos, seguindo a proposta da direção, optou por inseri-los na contemporaneidade, utilizando alguns poucos elementos de época, ou quase, poucos adereços, para que os atores pudessem se revezar em mais de um personagem, uma vez que o elenco conta com apenas seis atores, quatro homens e duas mulheres, dois quais apenas dois, DIOGO LIBERANO (ROMEU) e CAROLINA FERMAN (JULIETA) têm personagens fixos.

DANIELA SANCHEZ é responsável pela iluminação do espetáculo, parcimoniosa na intensidade da luz, o que ajuda a criar uma atmosfera propícia à diversidade das cenas, atrapalhando, porém, sem que seja culpa dela, quero crer, a leitura do que os atores escrevem no piso, o que já foi comentado. A farta utilização da luz vermelha tanto serve para realçar as cenas de amor como as de morte.

Gostei da boa trilha sonora original, criada por LUCIANO CORRÊA, que vai do “techno”, passando pela música medieval, intrometendo o tal do “funk” e acrescentando, para a cena final, a linda canção “Mortal Loucura”, na voz de Letícia Novaes, cuja letra é do poeta barroco Gregório de Matos Guerra, com melodia de José Miguel Wisnik, cujo arranjo e produção musical leva a marca de FÁBIO LIMA.
 
 


 
Para finalizar estes comentários, falta analisar o trabalho do elenco, muito bem escalado e que, em uníssono, conduz o espetáculo, do princípio ao fim, com garra, muita competência e coerência.

DIOGO LIBERANO, que é meio bissexto, como ator (gostaria de vê-lo atuando mais), já que se dedica mais a escrever e a outras funções, no TEATRO, faz um ROMEU convincente, o herói sem exageros, e, para mim, na sua melhor “performance”, como ator.
 
 
O "suicídio"



CAROLINA FERMAN, uma atriz que já admiro de tantos outros trabalhos, também se destaca, como a protagonista, chamando-me a atenção o seu trabalho de corpo, que nos faz – a mim, pelo menos - várias vezes, achar que estamos diante de uma bailarina que atua, tal é a sua intimidade com a dança. Pensei que fosse profissional, mas a própria me confessou que “apenas” estuda. E como estuda!

 
 
 
Há uma excelente química entre a dupla de protagonistas, de modo que, embora os atores tenham idades superiores às da dupla dos personagens centrais da história, passam por dois adolescentes, graças à leveza como se movimentam e o tom doce de suas vozes, aliado a corretas entonações.

Todos os atores em papéis coadjuvantes (os personagens o são; não os atores) cumprem, com muita correção, suas funções, em todos os personagens que representam. São eles, em ordem alfabética, ANDRÊAS GATTO, DANIEL CHAGAS, MÁRCIO MACHADO E MORENA CATTONI.

Às vezes, há ideias ótimas, que não chegam à sua concretização de forma positiva ou, pelo menos, apreciável. Em "UM NOME PARA ROMEU E JULIETA”, título cujo significado não absorvi bem, a boa ideia, da diretora, atingiu um nível de qualidade muito bom, que me leva a recomendar o espetáculo, o qual, infelizmente, cumpre uma temporada tão curta.
 
Oxalá venham outras!  


 
Escrevendo...


 

 
FICHA TÉCNICA:
 
Texto adaptado, a partir do original “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare (tradução de Onestaldo Pennafort)
Direção, Adaptação e Concepção Espacial: Dani Lossant
Colaboração Dramatúrgica: Diogo Liberano
Diretor assistente: Davi Palmeira
 
Elenco (por ordem alfabética): Andrêas Gatto, Carolina Ferman, Daniel Chagas, Diogo Liberano, Márcio Machado e Morena Cattoni
 
Direção de Movimento: Nathália Mello
Preparação Vocal: Verônica Machado
Iluminação: Daniela Sanchez
Trilha Original: Luciano Corrêa
Figurinos: Luci Vilanova
"Design" Gráfico: André Coelho
Fotos: Anna Clara Carvalho
Assessoria de Imprensa: Aquela que Divulga (Lyvia Roodrigues)
Mídias Sociais: Teo Pasquini
Direção de Produção: Luísa Barros
Produção Executiva: Alice Stepansky
Produtor Associado: Diogo Liberano
 

 
 

 
 

 
SERVIÇO:
 
 
Temporada: De 14 a 31 de julho de 2016 
Local: Caixa Cultural Rio de Janeiro - Teatro de Arena
Endereço: Avenida Almirante Barroso, 25 – Centro  (Metrô: Estação Carioca)
Telefone: (21) 3980-3815
Dias e Horários: De 5ª feira a domingo, sempre às 19h
Valor do Ingresso: R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia) (Além dos casos previstos em lei, clientes CAIXA pagam meia-entrada).
Horáio de Funcionamento da Bilheteria: De 3ª feira a domingo, das 10h às 20h
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 70 minutos
Acesso para pessoas com deficiência
 

 
O final não feliz.
 

 
 

(FOTOS: ANNA CLARA CARVALHO.)